Diretor do Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade

Pedro Braz Teixeira. "Estamos perante a primeira crise energética da descarbonização"

O economista acredita que a Rússia pode cortar os fornecimentos de gás a qualquer momento e teme que ‘neste inverno tenhamos um novo pico de preços de energia’.


Perante o galopar dos preços da energia, Pedro Braz Teixeira acredita que a melhor solução, em vez de limitar as importações, a União Europeia deveria lançar um imposto sobre as importações russas e com isso «continuávamos a importar a mesma quantidade de petróleo só que a Rússia recebia metade do que recebe hoje».

Os novos desafios da energia foi um dos temas em debate organizado pelo Fórum para a Competitividade e que contou com Luís Mira Amaral, como moderador. Jorge Mendonça e Costa, diretor executivo da Associação Portuguesa dos Industriais Grandes Consumidores de Energia Elétrica, Ricardo Nunes, presidente da Associação dos Comercializadores da Energia, Pedro Sampaio Nunes, ex-secretário de Estado da Ciência e Inovação e Pedro Neves Ferreira, diretor de gestão de energia da EDP como oradores.

Estamos perante novos desafios da energia, mas já estamos a assistir a preços galopantes, nomeadamente no que respeita aos preços dos combustíveis...

Há um enquadramento importante: estamos perante a primeira crise energética da descarbonização, o que a torna especialmente difícil porque se trata de uma crise energética em que estamos a tentar mudar muito rapidamente o padrão de consumo do tipo de energia e se calhar estamos a tentar mudar depressa demais. Mesmo todos concordando com a necessidade da descarbonização, o ritmo a que está a ser planeado não parece ser muito compatível com a tecnologia atualmente disponível, porque nas últimas décadas, as renováveis acabaram por não aumentar muito o seu peso e continuamos a estar muito dependentes dos combustíveis fósseis e querer fazer uma transição muito rápida. Até 2050 parece um pouco irrealista.

E já estamos a pagar o preço...

Esta crise energética que estamos a viver começou na primavera do ano passado, em que houve um conjunto de fatores no mercado energético que ditaram essas mudanças. A recuperação económica em conjunto com a transição energética acabaram por agravar esta situação e há muitos anos que se está a falar da descarbonização e isso constitui um travão aos investimentos nas energias fósseis antigas. Não vou explorar novos poços se já sei que depois não posso vender.

Então isso condicionou imenso. Esta falta de planeamento está a fazer com que não tenhamos nova energia, porque esta demora muito tempo e também não temos a velha porque estamos a dizer que a velha não tem futuro e então não há investimentos na velha. E com isso há falta de energia pelos dois lados e quando há falta de energia sobe-se o preço.

E agora voltam a estar em cima da mesa apostas como a energia nuclear e o carvão... 

O querer andar demasiado depressa está-nos a fazer recuar, mas não nos podemos esquecer da questão da guerra. Aliás, não só a guerra, como também as sanções, porque mais do que a guerra são as sanções que penalizam. Estou genuinamente preocupado com as sanções. Neste sexto pacote de sanções, a UE quer reduzir em 90% as importações de petróleo na Rússia, até ao final do ano.

E isso representa pouco tempo.

É uma quantidade gigantesca de energia e é impraticável conseguir atingir essa meta até ao final do ano. É muito provável que venhamos a ter, sobretudo quando se aproximar o inverno – que é quando se gasta mais energia na Europa, nomeadamente com aquecimentos –, uma nova subida dos preços da energia. Aliás, esta semana, tivemos novos dados e a Rússia já está a cortar os fornecimentos de gás à Europa, o que parece claro que a Europa não consiga encher as reservas estratégicas de gás para suportar o inverno.

O que me parece que estará em cima da mesa é que a Rússia esteja a planear levar a Europa a começar o inverno com a corda na garganta, sem capacidade nenhuma para ter reservas e sem margem de manobra porque é  ‘chapa ganha, chapa gasta’ e a Rússia a qualquer momento pode cortar os fornecimentos de gás.

Não há plano B?

O petróleo e o carvão são duas mercadorias que são fáceis de transportar de um lado para o outro. Claro que não é a coisa mais prática de fazer, mas poderíamos importar carvão da Austrália porque é fisicamente possível. Agora, em relação ao gás não, são precisos os gasodutos e o gás liquefeito, ao contrário do petróleo, em que não é preciso construir nenhuma infraestrutura. 

António Costa Silva já acenou com Sines como alternativa para o gás.

Sim, mas depois não há ligação do gasoduto para lá dos Pirenéus. É um projeto que a médio prazo faz todo o sentido, mas não tem resposta imediata. Temo que neste inverno tenhamos um novo pico de preços de energia, logo uma nova pressão para subir as taxas de juros e logo temos a economia a abrandar. Aliás, esta semana, o presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos avisou que há fatores que estão além do seu controlo e que poderemos ter surpresas, em termos da inflação. A inflação não está controlada e vejo um risco muito claro.

Por isso é que o Fórum para a Competitividade tem sido mais pessimista do que o Governo em termos de projeções económicas?

Porque estamos muito preocupados com uma nova subida da inflação. 

Corremos o risco de estar perante uma nova crise? 

Destacaria dois aspetos: por um lado, a pandemia trouxe uma inovação extraordinária, por parte da UE, em que finalmente conseguiram criar uma responsabilidade europeia, ao contrário do que aconteceu durante toda a crise do euro, em que não se quis falar disso. E com a pandemia foram emitidas obrigações europeias e esse caminho que estava completamente bloqueado foi aberto. E se foi aberto para ajudar a pandemia também poderá ser aberto para resolver outros problemas europeus. Aí temos uma grande vantagem. Além disso, temos de estar atentos e sermos capazes de tomar medidas com grande rapidez. A crise do euro começou em 2009, com as eleições na Grécia, em que eles destaparam toda a situação financeira, em que afinal o défice grego era o triplo ou o quádruplo do que tinham anunciado.

O que aconteceu? Em maio de 2010 caiu a Grécia, depois foi a Irlanda e a seguir Portugal. Só em julho de 2012 e depois de três resgates de três países é que houve o discurso de Mario Draghi sobre esse problema. Agora, o BCE reuniu-se, definiu o que ia ser a subida das taxas de juro e passados 10 dias os mercados perderam a cabeça, levando o  BCE a reunir-se de emergência e a revelar que estava a preparar um mecanismo que irá anunciar em julho que impeça a fragmentação do mercado da dívida, ou seja, para ajudar a dívida a Itália. Portanto, só depois de anunciarem isso é que os mercados acalmaram. Isto significa que estão muito atentos.

Mas, por norma, as bolsas reagem de forma antecipada aos problemas.

No caso dos mercados vai tudo atrás da bolsa americana. E a bolsa americana entrou no chamado mercado bear, ou seja, em que o urso hiberna e fica negativo. E quando o mercado cai 20% em relação ao máximo anterior significa que vai entrar no mercado bear, o que geralmente é um pronuncio bastante negativo. O mercado acionista americano por contágio de todos os outros está negativo em relação às perspetivas da economia americana, embora aqui se tenha de recordar uma coisa que o prémio Nobel, Paul Samuelson, disse: os mercados acionistas tinham previsto nove das últimas cinco recessões. 

Ainda agora o BdP previu um crescimento de 6,3% este ano e uma inflação até aos 5,9%. Mas depois disso, Mário Centeno disse que não podia tirar em cima da mesa um risco de crise financeira...

O risco deve ser encarado mesmo com um risco, ou seja, não é uma certeza. Claro que era possível chegar-se finalmente a acordo de paz na Ucrânia, mas há o risco de a situação se agravar. E quando se fala da crise financeira tem a ver mais com a subida das taxas de juro na zona Euro e Portugal inevitavelmente será afetado e com isso poderão ser criadas perturbações. Mas não estou preocupado tanto com a crise financeira, estou mais preocupado com a questão da energia, porque a União Europeia encurralou-se neste sistema de querer reduzir em 90% as importações russas até ao final do ano.

As sanções devem ser feitas no sentido de prejudicar quem está a ser sancionado e não quem está a aplicar as sanções. O que está a acontecer é que vamos ser prejudicados e os preços do petróleo antes da guerra estavam nos 60 dólares e agora estão nos 120 dólares, portanto, a Rússia vende menos, mas vende ao dobro do preço. Ou seja, não fatura mais. Tinha havido uma sugestão que, em vez de limitar as importações, a UElançasse um imposto sobre as importações russas. O que acontecia é que continuávamos a importar a mesma quantidade de petróleo só que a Rússia recebia metade do que recebe hoje. 

Era uma espécie de imposto extraordinário?

Era um imposto sobre a exportações de petróleo. Por exemplo, a Rússia está a vender à Índia com um desconto de 25%, é como se fosse um imposto. Ou seja, vende aos outros com descontos brutais. 

Estes aumentos dos custos de energia estão a representar um peso para as empresas...

Se fosse lançado esse imposto extraordinário representaria uma receita extraordinária para todos os cofres de todos os países europeus. E, com isso, a margem para ajudar as empresas e as famílias seria muito maior. O que estamos a assistir é ao contrário: estarmos a pagar uma barbaridade em petróleo, metade era receita do Estado. 

E perante este aumento de custos para as empresas como vê o apelo de António Costa em aumentar 20% os salários dos trabalhadores privados?

É um aumento durante cinco anos e divido esses 20% ao longo de todos os anos não é assim tão significativo, sendo que este ano de 2022 com a inflação ao nível que está, esses 20% são o acumular da inflação desses anos todos. 

O Fórum para a Competitividade foi das primeiras entidades a alterar para o atraso dos pagamentos do Plano de Recuperação e Resiliência. Como vê as declarações de António Costa a dizer que ‘é preciso vencer o ceticismo’?

Portugal está a receber fundos europeus desde 1981, ou seja, estamos a receber fundos europeus há 41 anos e estamos com uma economia estagnada há 20 anos. Acho que é legitimo acreditar que não estamos usar bem os fundos europeus. E, pelo menos, há 20 anos que não estamos a usar bem os fundos europeus porque ao recebermos os fundos europeus tínhamos a obrigação de estar a convergir com a Europa e não estarmos a perder lugares.

Nos últimos 20 anos gastámos mal os fundos europeus e desculpem se com este historial de má utilização dos fundos europeus e com a forma de o PRR não ter uma estratégia baseada focada no crescimento económico e, com isso, ser cético em relação à capacidade do PRR.  

Isso vai ao encontro do que já defendeu ao afinar que ‘tudo correu mal nas políticas económicas nas últimas décadas’...

Não é normal o uso dos fundos europeus. Portugal mesmo sem os fundos europeus tinha a obrigação de estar a convergir com a União Europeia porque estamos num espaço privilegiado, partilhamos a mesma moeda, temos as mesmas regras e temos o exemplo de outros países. E mesmo sem fundos europeus devíamos estar a convergir com a Europa e mesmo com fundos europeus não o conseguimos fazer.

A receita é sempre a mesma, independentemente dos Governos?

Sem dúvida.

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