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Ir ao tapete, mas ficar no ringue

É óbvio que Pedro Nuno Santos sai fragilizado desta insólita crise. Mas Costa também.

Ir ao tapete, mas ficar no ringue

Insólito. Surreal. Inacreditável. É enorme a lista de adjetivos que poderíamos encontrar para qualificar a na verdade inqualificável crise que fez tremer um Governo empossado há pouco mais de um par de meses e suportado por uma maioria absoluta no Parlamento.

Como foi possível?

Não tem explicação!

E muito menos a explicação que o próprio primeiro-ministro e o ministro envolvido procuraram fazer passar na hora de tentar pôr uma pedra sobre o incómodo assunto de que se tratou de um «erro grave» mas que, no fundo, se resumiu a uma pretensa «falha de comunicação» – ainda por cima num Governo que acabou de anunciar aos sete ventos que contratara um diretor de comunicação.

Diga-se o que se disser, o que se passou foi a entrada de Pedro Nuno Santos no ringue da luta pelo poder (no PS e no país), sem aviso prévio.

E, porque a destempo e a despropósito, foi levado ao tapete logo no primeiro round e no primeiro direto que o detentor do cinturão logo tratou de lhe pregar sem apelo nem agravo.

Pode lá imaginar-se que alguém com a experiência política de Pedro Nuno Santos decida avançar com o anúncio de uma decisão estratégica, com implicações de biliões de euros, que se arrasta há décadas à espera de um consenso político nacional, sem sequer informar o primeiro-ministro e o Presidente da República?

Tratava-se de anunciar o futuro não de um aeroporto internacional, mas de três-aeroportos-três: o de Lisboa (que seria para desmantelar no final), o de Montijo (um aeroporto complementar, para construir no imediato e para estar pronto dentro de poucos anos) e o de Alcochete (o futuro aeroporto internacional, para estar pronto daqui a uma década e meia ou duas).

E uma decisão ou conjunto de decisões com esta natureza achou o ministro das Infraestruturas que poderia anunciar sozinho, sem prévia consulta e aprovação do Conselho de Ministros, nem informação ao Presidente da República, bastando-lhe chamar ao seu gabinete quatro autarcas de câmaras socialistas diretamente envolvidas e os responsáveis editoriais dos principais meios de comunicação social?

E que o ramalhete se compunha com um périplo pelas televisões à hora dos telejornais?

Pedro Nuno Santos desafiou o líder, subiu ao ringue mas baixou a guarda. E foi ao tapete.

Mas não desistiu, porque Pedro Nuno Santos não é de desistir.

Ajoelhou, teve de rezar – como diria o Pensador – mas, por mais que lhe tenha custado, mantém-se na luta.

Que, agora, é entre ele e António Costa.

Depois deste episódio – que, pela gravidade, não é apenas um episódio –, Pedro Nuno Santos deixou de ser um entre os putativos candidatos à sucessão de António Costa.

Pode, com tamanho tiro no pé, ou bem mais acima, ter deixado de ser o favorito para muitos – pela impulsividade e pela irresponsabilidade – e, inclusivamente, ter hipotecado o apoio esmagador que granjeava na esquerda do partido.

Mas passou para a condição de candidato à liderança. Já não no pós-Costa, mas como adversário do próprio Costa.

Foi, aliás, por essa razão que não se demitiu. Porque quem tem a ambição do poder tem de ter poder ou manter-se na esfera da influência do poder.

Foi, aliás, também por essa razão que não foi demitido. Porque Costa sabe que vitimizar Pedro Nuno Santos, afastando-o do poder, poderia dar-lhe mais importância e influência no partido.

‘Mantém os amigos perto de ti e os inimigos ainda mais perto’ é a máxima da célebre famiglia Corleone que Costa resolveu adotar. Porque assim, ainda que fique no poder, Pedro Nuno Santos estará sempre, e agora muito mais ainda, condicionado pelo poder de quem verdadeiramente lidera.

É óbvio que Pedro Nuno Santos sai fragilizado desta insólita crise. Mas Costa também.

A prazo, a ausência de uma decisão ou a eventual ratificação da solução anunciada por Pedro Nuno Santos podem mudar a atual relação de forças.

Mas, para isso, Pedro Nuno Santos tem de conseguir levantar-se, controlar os seus ímpetos e defender-se dos golpes alheios, que não lhe hão de faltar, vindos provavelmente de onde porventura menos espera.

Como está, uma vez mais, provado, em política tudo pode mudar num instante, numa frase mal medida, numa decisão extemporânea, até num ‘erro de comunicação’. E o que é verdade hoje não o é forçosamente amanhã. E a política é feita de vitórias e de derrotas e de altos e baixos. Pedro Nuno Santos sabe-o. António Costa sabe-o melhor do que ninguém.

António Ribeiro Ferreira, Jornalista de longa e nobre carreira, chefe e formador de gerações de jornalistas, foi um dos pilares da resistência do jornal SOL e do i, pelo jornalismo, como contrapoder, e pelo pluralismo, contra o pensamento único estupidificante. Fica a saudade e tantas boas memórias.

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