Fundo? Estamos de novo a escavar para o atingir

Estão a brincar com as políticas públicas

A fraca qualidade da intervenção da senhora ministra da Saúde na Assembleia da República, foi a confissão evidente de que o Governo se encontra paralisado e que neste, como aliás noutros setores, já não tem soluções para resolver ou amenizar os enormes problemas que criou.

Estão a brincar com as políticas públicas

Colocado perante análises e perguntas incómodas, embora perfeitamente justificadas, o primeiro-ministro tem respondido usando, de modo aparentemente coloquial, esta singela expressão: e então?

 O que poderia ser uma simpática forma de interagir com o interlocutor mais não é do que a expressão de um indisfarçável mal estar que, surpreendentemente, parece estar a tomar conta do Governo e dos seus agentes mais representativos.

Com efeito, não seria previsível que um governo com pouco mais de quatro meses de vida, mesmo tendo em conta que se trata duma herança de uma governação falhada, atingisse um tão elevado nível de desgaste junto da opinião pública e, eventualmente, junto do eleitorado.

Consciente desta realidade e deste perigo, António Costa procura fugir às questões concretas não esclarecendo sobre o que lhe é perguntado, e, quando a fuga se torna mais difícil, refugia-se na crítica sobre o suposto ceticismo que, ao que parece e de repente, estará a condicionar o juízo crítico dos portugueses.

 Só que não é isto que está a suceder.

A consciência pública sobre a degradação das políticas do governo nas últimas semanas, era perfeitamente previsível e tornar-se-ia evidente quando surgisse um acelerador que a desencadeasse.

Ora esse acelerador surgiu na sequência da crise económica geral e em especial do impacto que a inflação (o maldito imposto escondido) está já a ter sobre os rendimentos reais dos portugueses.

 Os últimos acontecimentos e as recentes narrativas acerca do Serviço Nacional de Saúde são a prova evidente de que, finalmente, essa consciência existe e se manifesta.

A fraca qualidade da intervenção da senhora ministra da Saúde na Assembleia da República, foi a confissão evidente de que o Governo se encontra paralisado e que neste, como aliás noutros setores, já não tem soluções para resolver ou amenizar os enormes problemas que criou.

Poucos dias depois foi a vez de o sr. primeiro-ministro reforçar, num debate parlamentar, essa imagem de impotência, embora a tenha procurado disfarçar com uma arrogância e uma superficialidade absolutamente injustificadas. Há poucas semanas seria difícil pensar que um político experiente como António Costa, chefe de Governo, seria arrasado pelo líder da extrema direita no Parlamento. Mas foi isso que sucedeu.

O primeiro-ministro e a ministra Temido só conseguiram passar uma mensagem sobre a natureza estrutural dos problemas no setor, como se tal constituísse uma grande novidade e não fosse do conhecimento da esmagadora maioria da população.

Claro que os problemas da saúde são de natureza estrutural, mas o que é grave é que nada se tenha feito nos últimos seis anos para os resolver ou minorar.

Convergem nesse sentido as opiniões dos maiores especialistas portugueses desta área, mesmo daqueles que tem afinidades próximas com os atuais responsáveis.

Afinal os últimos dias só revelaram o que muitos já sabiam e denunciavam sobre o verdadeiro estado do Serviço Nacional de Saúde. Por isso cada vez mais os utentes que podem migram para o setor privado.

 Os falsos guardiões deste templo, são incapazes de perceber que a realidade da saúde em Portugal, em virtude da alteração da estrutura etária da população e das novas expectativas dos utentes, é hoje completamente diferente da que existia quando o Serviço foi criado (há mais de 40 anos). Ora isso impõe novas soluções e renovados compromissos.

Reclamar uma profunda reforma do SNS não significa pôr em causa o princípio constitucional do acesso universal à saúde, tendencialmente gratuita, antes implica criar novas condições de sustentabilidade, portanto de durabilidade, para esta política de manifesto interesse para os cidadãos.

Ora tal só se consegue com diálogo feito a tempo e horas e não apenas quando a situação se encontra de tal modo deteriorada que o custo maior atinge quem não é verdadeiramente responsável, ou seja o cidadão.

Os acontecimentos ocorridos nas urgências dos hospitais, as listas de espera para intervenções que crescem todos os dias, a escassez de meios humanos mas também técnicos e administrativos, (ou seja a organização) são sintomas claros, entre outros, da existência de um grave problema, sem que se vislumbre capacidade para o solucionar.

 O primeiro-ministro e a ministra da Saúde foram incapazes de compreender esta realidade pois ficaram reféns de uma histeria ideológica que não tem qualquer sentido à luz da atual realidade social.

Deixaram, desta forma criar um vazio onde estão permanentemente a crescer as reivindicações corporativas que nada de muito bom podem trazer à ‘saúde’ do sistema. Crise estrutural impõe mudança de protagonistas sobretudo quando os atuais convivem com esta realidade há vários anos e são incapazes da a corrigir.

Um bom exemplo deste verdadeiro autismo político foi também, protagonizado recentemente, pela Sra. diretora-geral de Saúde quando verbalizou os conselhos dados aos cidadãos para o seu comportamento durante as férias.

Mas para que a situação fosse ainda mais caricata, tinha de vir o Sr. PR a colocar as mãos por baixo do Governo, ‘responsabilizando’ os portugueses por se deixarem adoecer.

 

Muitasvezes (quase sempre) Costa e Marcelo fazem lembrar os gémeos Dupond e Dupont das aventuras de Tintin. Bom seria que, mantendo a consagrada simpatia dessa dupla, fossem finalmente capazes de resolver os problemas reais dos portugueses.

O país não pode ficar eternamente a desempenhar o papel de mendigo, à espera dos subsídios do exterior, como parece às vezes passar pelo pensamento e pela ação do governo e ficou claro com as declarações de Costa a propósito da adesão da Ucrânia à União Europeia.

Depois de um pequeno período em que parecia que o trajeto já era para cima, começa a verificar-se que se continua a escavar em direção ao fundo.

Até quando? Talvez isto seja, afinal, só um pormenor e tudo se possa resolver com boa disposição, algumas selfies e um sonoro ‘e então?’.

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