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A oposição segundo Montenegro

Ao contrário de Rui Rio, que se refugiou a Norte para evitar maçadas e poupar António Costa - a quem ‘namorou’ sem ser correspondido, desde o primeiro dia do seu mandato -, Montenegro definiu o PS e o Governo como os adversários que importam, e tratou de unir o PSD à volta desse objetivo, esbatendo sensibilidades internas. 

A oposição segundo Montenegro

Com o Governo socialista a desmoronar-se por dentro, logo no início da legislatura, Luís Montenegro não podia aspirar a melhor cenário político envolvente, ao ser consagrado em Congresso como líder do PSD e da oposição. 

Ao contrário de Rui Rio, que se refugiou a Norte para evitar maçadas e poupar António Costa - a quem ‘namorou’ sem ser correspondido, desde o primeiro dia do seu mandato -, Montenegro definiu o PS e o Governo como os adversários que importam, e tratou de unir o PSD à volta desse objetivo, esbatendo sensibilidades internas. 

Foi ainda capaz de elogiar, sem tibiezas, o legado de Pedro Passos Coelho, injustamente esquecido por Rio (em coerência, aliás, com a hostilidade que lhe dedicou e ao seu Governo, quando geria a bancarrota, herdada de Sócrates).

Mas Montenegro teve, ainda, a sorte de tomar conta do partido, numa altura em que o PS exibe divisões profundas e o Governo se esfrangalha em redor da localização do novo aeroporto de Lisboa. 

No mesmo registo patético de Pedro Nuno Santos, a ministra Ana Abrunhosa confessou-se condoída, de «coração apertado», numa cena digna de telenovela, por causa do colega ‘em maus lençóis’. O seu aparte, durante a cerimónia oficial de lançamento da comunidade intermunicipal do Tâmega («Pedro estás aí a ouvir-nos? Mando um grande, grande abraço!»), além de ridículo, colocou a política ao nível mais bacoco. 

Reconheça-se, por isso, que, independentemente dos seus méritos próprios, Montenegro terá a vida facilitada por este Governo em desagregação, cheio de ‘corações apertados’ (Mariana Vieira da Silva não terá o coração menos apertado, depois de ter sido cúmplice ou olimpicamente ignorada por Pedro Nuno Santos, apesar de estar investida em funções de coordenadora do Governo na ausência do chefe…).

Entretanto, alheio à crise, como se não fosse nada com ele, o Presidente da República mostrava-se descontraído, a banhos, em Copacabana, fingindo desvalorizar o cancelamento (vexatório…) do seu almoço em Brasília com Bolsonaro, como retaliação por causa do seu encontro «interessante» com Lula da Silva. 

Conclui-se, sem esforço, que, tanto na frente interna governamental como na diplomática, Portugal está a ficar parecido com uma república terceiro-mundista, para não escrever pior… 

De que mais precisa Montenegro para se afirmar e afirmar o PSD como verdadeira alternativa à barafunda instalada?

Eleito por uma margem confortável, Montenegro soube aproveitar o discurso de encerramento do Congresso para elencar as linhas de orientação que tenciona seguir, perante o quadro complexo que se depara ao país, desde a carestia da vida, com a inflação a disparar, até ao «caos e desgoverno» na Saúde, à asfixiante carga fiscal, às contradições da descentralização versus regionalização, ou, ainda, às incertezas que forçam os jovens a emigrar.

O PSD parece ter recuperado o elã que lhe faltou durante a gestão apática de Rui Rio, que, por inabilidade e falta de visão estratégica, arrastou o partido para uma subalternidade confrangedora em relação aos governos socialistas.

Errático e com tiques autoritários, Rio conduziu os social democratas aos piores desaires eleitorais da sua história, e enquistou o PSD na dependência do PS, com custos que explicam, em larga medida, a maioria absoluta conseguida pelos socialistas.

Por isso, Montenegro enfatizou no Congresso, por mais de uma vez, que cabe ao PSD convencer os eleitores sobre a bondade das suas propostas, e não atribuir os fracassos a erros de perceção desses mesmos eleitores.

Não será excessivo considerar que Rio contribuiu bastante para que o eleitorado apagasse as consequências nefastas da primeira maioria absoluta socialista, responsável pelo dramático afundamento do país.

É importante ter presente o desgoverno na era de Sócrates, para o comparar com o filme atual do desorientado governo de António Costa, que mais parece em fim de ciclo.

Recorde-se, a propósito, o fascínio muito próprio do PS por infraestruturas aeroportuárias, como ficou patente com o aeroporto de Beja, inaugurado em abril de 2011, pelo então ministro António Mendonça (hoje bastonário da Ordem dos Economistas), que uma década volvidacontinua ‘às moscas’.

A verdade é que o Governo de Sócrates, com o apoio eufórico do PCP (que, sem pudor, voltou a defender aquele ‘elefante branco’, como alternativa complementar para a saturação da Portela), enterrou ali 33 milhões de euros, na adaptação da Base Aérea n.º 11 a aeroporto civil, investimento ao qual devem ser somados os encargos de mantê-lo aberto e operacional, praticamente vazio. Uma asneira cara.

Por aqui se percebe que não faltarão temas a Luís Montenegro, se quiser, como tudo indica, promover uma verdadeira oposição à decadente governação socialista. O país só poderá agradecer-lhe.

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