No meio de nós

O Estado e os Cidadãos!

Estamos a pagar ao Estado para que o Estado mande em nós e não para que o Estado nos sirva… é uma tristeza… 


Há quinze anos, quando estive a estudar em Londres, fiquei fascinado com a cultura inglesa, mas principalmente com algumas questões que para a nossa cultura portuguesa são dados adquiridos, mas que, pelos vistos, não o são na cultura inglesa.

Estou a falar, concretamente, de um cartão que temos em Portugal que, de facto, não existe em Inglaterra… trata-se do Cartão de Cidadão. Sim, em Inglaterra os cidadãos não são identificados pelo cartão de cidadão e não existe um bilhete de identidade.

Lembro-me de, na altura, ler os jornais e ficar perplexo com a possibilidade de, em Portugal, não termos um cartão de identidade. Com é possível não o termos? Como é possível identificarmos um cidadão se não tiver um número de identidade? 

Ele há coisas estranhas, mas, de facto, os jornais e as televisões encheram-se de artigos de opinião e de debates sobre a necessidade que o Estado e os cidadãos terão de ter um documento de identificação.

Eu nunca compreendi… e penso que ainda hoje não consigo compreender esta questão… estamos tão habituados a ter um documento de identificação que não nos caberia na cabeça não existir em Portugal.

Ainda fiquei mais baralhado quando um amigo que viveu e cresceu na cultura inglesa e que vive em Portugal me disse que de vez em quando é mandado parar pela polícia e vai parar à prisão porque se recusa a apresentar um documento de identificação.
Eu, naturalmente, como português, achei que não apresentar um Cartão de Cidadão a uma autoridade policial é um ato de orgulho que ultrapassa a nossa imaginação.. como é possível? Como pode alguém recusar-se a apresentar a sua identificação?
Na conversa que tivemos ele disse-me uma coisa que não me saiu da cabeça e que talvez devamos todos pensar se faz, ou não, sentido. 

Ele dizia-me o seguinte: quem é o Estado? O que é o Estado? O Estado manda em mim ou está ao meu serviço? 

Ele dizia-me mais… Eu não reconheço ao Estado autoridade para me obrigar a apresentar a minha identificação… é o Estado que tem de procurar a minha identificação. 

O Estado, dizia ele, é aquele que me substitui para fazer o que é a minha obrigação. Para não ter de varrer as ruas eu pago ao Estado para se organizar e fazer isso por mim. Porque eu não quero organizar a Instrução do meu filho eu pago ao Estado os impostos para organizar Escolas...

O Estado serve-me e não sou eu que serviço o Estado...

Esta forma de pensar mudou, em certa medida, a perceção que eu tenho, hoje, do Estado… 

O que está a acontecer em Portugal com esta família Mesquita Guimarães leva-me a perceber o que o meu amigo de cultura inglesa me diz… O que está por detrás desta questão da disciplina de Cidadania não é propriamente a educação das crianças, mas o direito que o Estado tem de educar os seus cidadãos, mesmo que seja contra a vontade dos seus cidadãos… ou seja, os cidadão ficam subordinados ao Estado e não o Estado aos cidadãos… 

No fundo, estamos a pagar ao Estado para que o Estado mande em nós e não para que o Estado nos sirva… é uma tristeza… Nós fartamo-nos de trabalhar, fartamo-nos de pagar impostos, para que o Estado organize as coisas por nós e, de repente, sentimo-nos escravos daqueles para quem nós trabalhamos – O Estado.

O dinheiro não paga tudo… Se eu tivesse milhares de milhões não poderia amanhã aparecer e comprar o Estado… agora, quem é o dono do Estado? O que é o Estado? É nosso déspota ou nosso serviço?

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