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Benfica. E finalmente a águia voou para o outro lado da Mancha

A primeira vez que visitaram o Reino Unido, os encarnados disputaram um jogo fundamental da sua, até aí, curta história nas taças da Europa.

Benfica. E finalmente a águia voou para o outro lado da Mancha

Na altura era hábito dizer-se e escrever-se que as grandes equipas do mundo tinham o seu teste a sério, da máxima exigência, quando pisassem solo britânico. Está tudo dito. Calhava ao Benfica, ainda de curta história europeia – eliminada na primeira ronda da Taça dos Campeões Europeus de 1957, frente ao Sevilha, e a despeito de duas finais da Taça Latina, a de 1950 (ganha) e a de 1957 (perdida) – rumar agora para o lado de lá do Canal da Mancha para disputar com o Heart of Middlothian, campeão escocês, a passagem para a fase seguinte.

Não imaginavam ainda os encarnados que a deslocação a Edimburgo, capital da Escócia, viria a fazer parte de uma enorme epopeia, a epopeia da conquista da primeira Taça dos Campeões Europeus. No momento, fazia-se o balanço sobre o valor do campeão escocês, o Heart of Midlothian Football Club, mais conhecido pelo carinhoso diminutivo de Hearts, como o tratam os seus adeptos. Nunca foi um papão, os maiores sucessos do clube perdem-se no olvido do fim do século XIX e, só para verem como as recordações trazem à superfície sempre algo de curioso, o último título de campeão da Escócia foi ganho, precisamente, no ano de 1960, esse em que enfrentou o Benfica.

A equipa de Lisboa participava na prova pela segunda vez. E viria a vencê-la, na final de Berna, face ao Barcelona, por 3-2. No dia 29 de setembro, o Tynecastle Stadium encheu-se para receber a primeira mão da primeira eliminatória. Aos 36 minutos, José Águas pôs o campeão nacional em vantagem, mas o jogo seria, no seu geral, para o fraco, muito mais lutado do que jogado. No entanto, a maior qualidade dos lusitanos não era posta em causa por ninguém, nem sequer pela imprensa local, como se pode ver por esta frase de Hugh McLvanney, redactor do The Scotsman: “Quando pensamos no que Águas e seus companheiros poderão fazer em Lisboa, no segundo jogo, compreendemos que os defesas do Hearts não se sintam nada tranquilos”. Depois da vitória em Edimburgo (2-1), o Benfica chegou a prometer uma goleada das valentes na Luz mas não foi além dos 3-0. Os joelhos dos defesas do Hearts tremeram mas não dobraram. A equipa manteve a dignidade.

Em Edimburgo Continuemos, então, na Escócia, primeiro lugar de visita do Benfica ao Reino Unido, país no qual precisamente se encontra para cumprir o seu estágio de pré-época e justifica, portanto, esta evocação. O treinador do Hearts, Tommy Walker, saía de Tynecastle com uma certa satisfação de dever cumprido: “Nada a fazer. Perdemos contra uma grande equipa, o Benfica, mas que, na minha opinião, não se encontra ao nível do Real Madrid”. Real – vencedor das cinco anteriores edições da Taça dos Campeões! O terror da Europa! Teria de ceder o seu ceptro ao Benfica nos dois anos que se seguiram e muita gente da opinião de Tommy viria a mudar de ideias pelo caminho.

O segundo golo do Benfica foi marcado por José Augusto (aos 74m), o Alex Young reduziria aos 80. Béla Guttmann estava compenetrado das complicações que o jogo haviam levantado: “Chegámos a pensar que o empate poderia ser um bom resultado para quem ainda tem a segunda mão em Lisboa para jogar. Mas conseguimos superiorizar-nos e as coisas correram-nos bem tendo acabado por ganhar com uma certa naturalidade. Esperava mais deste campeão escocês. O Hearts parece estar a passar por um mau momento, com vários jogadores fora de forma. Mas, mesmo que até ao segundo jogo recuperem o seu nível, estou absolutamente convencido de que iremos vencer outra vez, agora no nosso campo”. Tinha razão. José Augusto (2) e José Águas voltaram a tratar do assunto. E o Benfica cumprira com mérito a sua primeira viagem ao país do futebol.

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