Politica

Chega perdeu um terço dos seus autarcas

O Chega elegeu, nas autárquicas de setembro de 2021, 19 vereadores. Em menos de um ano, já são pelo menos seis os que, de norte a sul do país, entraram em colisão com o partido.


Em maio deste ano, dos 19 vereadores do Chega eleitos em setembro do ano passado, sobravam apenas 14 nessas mesmas funções. E como se a debandada não fosse já suficiente, mais um dos vereadores do partido acabou agora suspenso, desta vez em Vila Verde, no distrito de Braga.

Fernando José Dantas da Silva, que foi eleito vereador da Câmara Municipal desse concelho nortenho em setembro do ano passado, foi suspenso do partido durante 30 dias, segundo anunciou a Comissão de Ética do Chega. «Mais se informa que a suspensão provisória do militante tem ainda efeitos quanto a todos os mandatos e funções do visado, bem como quanto à sua capacidade eleitoral ativa e passiva», escreve o Chega nacional, naquele que é o mais recente episódio de uma novela entre o vereador agora suspenso e o coordenador do Chega em Vila Verde, José Luís Moreira, que Fernando Silva – melhor conhecido no concelho como ‘Feitor’ – acusa de não ser o legítimo líder da concelhia do partido.

E mais, Fernando Silva não se deixou ficar calado: «O Sr. Vereador não irá desistir de lutar pela verdade. Com grande prejuízo para a sua vida pessoal e familiar. Continuará o seu mandato comprometido com a legitimidade do voto popular que o elegeu e no quadro de valores que propôs ao eleitorado. Sobre a sua ‘suspensão’ irá exercer os meios de defesa ao seu alcance e declara que não será  ‘cancelável e lutará pela decência e pela legalidade, para que a verdade seja reposta’», pode ler-se num comunicado oficial do seu gabinete.

Isto depois de, na sua página do Facebook, ter partilhado a notícia da sua suspensão, argumentando: «Para mim são medalhas de ouro por trabalhar honestamente e defender a verdade».

A novela começou a 7 de julho, quando Feitor fez uma publicação nas redes sociais, onde acusou: «Afinal, o ‘Sr. Dr’,  sempre não era Presidente de coisa alguma, agora diz ser ‘coordenador’. Quem mente uma vez mente um cento».

Referia-se o vereador do Chega ao líder da concelhia do partido, argumentando que «uma Distrital sem quórum não tem legitimidade para nomear quem quer que seja, meus caros, tem que ir a eleições».

Acusações às quais a comissão política distrital de Braga do Chega respondeu sem rodeios: «Não nos revemos e não pactuamos com esta postura», disse, reiterando que «o coordenador Concelhio de Vila Verde é o Sr José Luís Moreira, tendo sido indigitado pela CPD de Braga, e está em plenas funções».

 

Uma de muitas

A novela em Vila Verde não é, no entanto, a única no universo do Chega. Desde as eleições autárquicas foram caindo, um a um, vários vereadores do partido,  principalmente graças a quezílias internas que levaram alguns deles a preferir assumir uma posição independente nas diferentes autarquias. Aliás, desde as eleições em setembro de 2021, o Chega perdeu quase um terço dos vereadores eleitos (5 em 19).

O Nascer do SOL confrontou o Chega com esta situação, procurando uma posição do partido sobre o assunto, mas não foi possível obter resposta até à hora de fecho desta edição.

Moura, Sesimbra, Seixal, Moita e Entroncamento tinham sido as primeiras autarquias onde o Chega acabou por perder a representação, juntando-se agora a polémica em Vila Verde. E cada uma dessas ‘passagens’ para a independência vem com uma história acoplada: antes da polémica com Fernando Silva, em Vila Verde, em abril de 2022, Luís Forinho desfiliou-se do partido, passando a desempenhar o papel de vereador na Câmara Municipal do Entroncamento como independente. «A grande falta de democracia interna, respeito, reconhecimento e contratações descabidas que em nada engrandecem o partido, nem quem o representa» foram algumas das razões apontadas para a desfiliação, que Luís Forinho disse ter tomado «pelo desconforto causado de algumas decisões internas que não vem ao caso».

Já em Moura, Cidália Figueira, a vereadora da Câmara Municipal que, em novembro do ano passado, apenas dois meses após ter sido eleita, decidiu abandonar as cores do Chega e passar a desempenhar o papel como independente, aliou «divergências» com outros candidatos do mesmo partido durante a campanha eleitoral.

As histórias repetem-se em Sesimbra, no Seixal e na Moita, onde os vereadores inicialmente eleitos pelo Chega acabaram por passar a desempenhar o papel como independentes. Mas não só nestes casos se registaram ‘conflitos’ internos no partido. Ainda antes de perder qualquer vereador, já o Chega contava baixas: nos Açores, há cerca de um ano, Carlos Furtado, até então líder do Chega no arquipélago, passou a deputado independente na Assembleia Regional, acusando André Ventura de ter «tiques imperialistas».

E como falar de conflitos internos no Chega sem mencionar a demissão do líder distrital do partido em Portalegre, por «falta de quórum». «Houve grande debandada, quer da parte dos meus colaboradores, que estavam comigo, quer de militantes», disse, em abril deste ano, Júlio Paixão.

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