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Reforma bufa ou fantochada

Talvez pelo facto de o edifício em questão ficar tão próximo da Praça de Touros do Campo Pequeno, o vídeo remete-nos quase imediatamente para uma tourada, em que o toureado é o contribuinte.

Reforma bufa ou fantochada

Circula na internet o filme (encomendado e pago pela secretaria geral da Presidência do Conselho de Ministros) de apresentação da futura sede do Governo, que concentrará os vários ministérios no mastodôntico edifício da Caixa Geral de Depósitos, na Av. João XXI, em Lisboa.

Talvez pelo facto de o edifício em questão ficar tão próximo da Praça de Touros do Campo Pequeno, o vídeo remete-nos quase imediatamente para uma tourada, em que o toureado é o contribuinte, de todas as formas e feitios, entre chicuelinas, derechazos e ‘verónicas’, com direito a bandarilhas e tudo, numa faena de quatro minutos e 15 segundos.

O filme pretende introduzir-nos numa nova realidade: «O Campus APP» – sendo que se pronuncia ‘À Pê Pê’ (por se tratar da sigla correspondente a Administração Pública Portuguesa) e não ‘App’ (como as aplicações da nova era digital).

«No Campus À Pê Pê modernizou-se e redefiniu-se o espaço de trabalho, tornando o dinâmico, organizado e mais ecológico. Para ver nascer uma nova Administração Pública Portuguesa, que potencia a criatividade e o espírito colaborativo, contámos com todos nesta mudança cultural».

E qual é ela?

«O Campus APP alia conceitos mais tradicionais, como gabinetes, salas de reuniões e postos de trabalho fixos e o auditório, a conceitos mais modernos, como o hot desking e o clean desk».

«Numa lógica de comunhão de espaço , as estações de trabalho são maioritariamente flexíveis com mesas de trabalho partilhadas, promovendo assim o conhecimento entre colegas e ao mesmo tempo que se gere ambientes de trabalho mais leves e produtivos».

«Cada colaborador terá o seu próprio cacifo».

«Nas secretárias existe um QR code onde constam informações importantes e atualizadas para quem trabalha no Campus APP – nomeadamente o acesso à plataforma de reserva do posto de trabalho».

E termina com um sonante «Campus À Pê Pê, na vanguarda da Administração Pública».

A reação que nos suscita este filme fixa-se algures entre a incredulidade e a estupefação.

Há mais de 30 anos, quando comecei a trabalhar nos idos anos 80 do século passado, tanto na Agência Lusa como na Rádio Comercial (então ainda pública mas em transição para a sua privatização) já os gabinetes individuais conviviam com zonas de open space onde as secretárias eram partilhadas e não havia nada em cima das mesmas para além da máquina de escrever, no caso da rádio, ou do monitor de PC no caso da agência de notícias, precisamente porque eram partilhadas e, por isso, desprovidas de quaisquer elementos de personalização.

É verdade que a terminologia usada na altura era diferente: falava-se em postos de trabalho partilhados e não em ‘hot desking’ nem em ‘clean desk’. Aliás, esse tipo de terminologia ou qualificações, como ‘cadeira’ ou ‘cama quente’ em bom português, era mais comum noutras áreas ou atividades, como, por exemplo, nos submarinos ou noutras funções, públicas ou privadas, em que o uso do mobiliário obedecia a turnos ou a períodos de tempo mais ou menos determinado.

A organização dos espaços de trabalho obedece a modas e conceitos que vão sendo readaptados e ciclicamente recuperados, normalmente com recurso a consultoras especializadas sobretudo na venda dos seus serviços por bons (leia-se: elevados) preços.

Ora a moda passa pelos gabinetes personalizados e pelo isolamento de cada colaborador para potenciar a concentração e reduzir os fatores de diversão; ora é a vez de defender o open space que privilegia o trabalho em equipa e um ambiente mais «colaborativo» – como se diz no vídeo da secretaria geral do Conselho de Ministros.

É tudo uma questão de conceitos, ou melhor, de bazófias.

A questão é albardar o burro à vontade do freguês – ou seja, adaptar o espaço (layout) aos interesses, necessidades, recursos ou disponibilidades de cada um.

Veja-se o tão recente exemplo da pandemia e a forma quase espontânea como se vulgarizou o teletrabalho ou trabalho à distância. Não havia alternativa!

Se a reforma da Administração Pública, há demasiado tempo adiada, obedecerá a uma «mudança cultural» como a que se propagandeia na apresentação do Campus APP, está visto o filme que nos reserva este Governo de maioria absoluta.

Não vai haver reforma alguma.

António Costa continua a fazer fé no provérbio segundo o qual todo o burro come palha, a questão é saber dar-lha.

Não é evidente?

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