Sol de Verão

Gerês: Montes, mantas, vinho verde, cascatas e ar fresco

De Castro Laboreiro a Pitões das Júnias, o Parque Natural da Peneda-Gerês – e a sua zona envolvente – é uma das regiões do país que todos os anos atrai milhares de visitantes, especialmente nos meses do verão. Quer seja para passear por entre os montes e as cascatas, ou para deleitar-se com a oferta gastronómica deste local, o Gerês é sempre uma ótima aposta.


Há, no extremo Noroeste português, uma região que todos os anos é presença assídua nos guias de turismo, principalmente para os amantes da Natureza e do mundo rural. Trata-se, claro, do Parque Natural da Peneda-Gerês, na fronteira norte portuguesa, paredes meias com a Galiza, casa de um dos portfólios culturais mais ricos do país.

Da gastronomia às costumes, dos passadiços e das mantas (caminhos de terra batida) às cascatas e ribeiras que completam a paisagem, o Gerês atrai todos os anos milhares de visitantes, tanto de um lado da fronteira como do outro, para descansar e desfrutar a vida.

Desde Castro Laboreiro – a terra que deu o nome a uma das raças de cães portuguesas mais conhecidas do mundo – até Pitões das Júnias, o Parque Natural da Peneda-Gerês – que é considerado pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera –, estende-se ao longo de uma vasta área de mais de 70 mil hectares, contando, em 2017, 115.804 visitantes.

Mas desengane-se quem pensa que o Gerês foi uma ‘descoberta’ das modernas revistas sobre turismo nacional. Já os romanos, aquando da sua presença na Península Ibérica, se deleitavam com a região. Prova não falta: afinal de contas, mantêm-se ainda em pé pedaços da Geira, o antigo caminho que guiava os legionários de Bracara Augusta (atual Braga) a Asturica Augusta (atual Astorga, em Espanha), do qual sobreviveu um trecho da antiga calçada e alguns curiosos marcos miliários.

A Ponte do Diabo

O Gerês não é só, assim, vinho verde e paisagens bonitas. Também é história: além da marca da passagem dos romanos, também outros marcos históricos assinalam este local – por exemplo, a Ponte de Mizarela (ou Ponte da Misarela), que, reza a lenda, foi construída pelo próprio demónio e daí que muitos também lhe chamem Ponte do Diabo.

Situada na freguesia de Ferral, no concelho de Montalegre, esta ponte, construída na Idade Média, foi palco de uma importante batalha frente os franceses por ocasião das Segundas Invasões Napoleónicas, tendo as  tropas luso-britânicas conseguido o feito de derrotar o poderoso exército francês. Feito, aliás, que resultou até em cantiga popular: «Chorai meninas de França,/ Chorai por vossos maridos,/ Na ponte da Misarela/ eram mais mortos que vivos!».

O Diabo e as lendas

Esta é, aliás, uma edificação com resmas de histórias à sua volta, algumas factuais, outras lendárias. E, por isso, é também palco de muitos dos rituais das povoações que a rodeiam. Por exemplo, um dos seus lados é conhecido como Púlpito do Diabo, onde,  diz o povo, o Diabo vai pregar à meia-noite num enorme rochedo. É para este mesmo local que, contam os populares, devem ir as mulheres que sofrem de abortos espontâneos.

Uma vez lá, na extremidade da ponte mais próxima do lugar onde habita, a pessoa em questão deve aguardar que passe o primeiro caminhante em sentido contrário, o qual deve convidar a proceder ao batismo in ventris do futuro bebé.

Segue-se uma breve cerimónia e, no fim, uma ceia abundante, de forma a garantir que a criança nascerá saudável.

Passeios na Natureza

Mas o Gerês não é feito unicamente de misticismo e de lendas. Tem, acima de tudo, uma oferta variadíssima para aqueles que procuram ‘embebedar-se’ em Natureza, com paisagens verdes e azuis de tirar o fôlego. E há neste local coisas que não existem em mais lado nenhum, pelo menos em Portugal. É o caso da floresta de azevinho, ou, por exemplo, do lírio do Gerês, uma espécie endémica que pinta os montes de azul-violeta.

Do verde ao azul, a paisagem varia também com uma determinada estrutura a chamar a especial atenção dos visitantes: as cascatas. O Gerês está repleto de belíssimas quedas de água em toda a sua extensão, principalmente na Serra homónima e nas Serras da Peneda, Soajo e Amarela.

No topo da lista está a Cascata do Tahiti – nome mais popular da oficialmente chamada Cascata de Fecha de Barjas –, considerada por muitos como uma das quedas de água mais deslumbrantes da Serra do Gerês. Não será por acaso, aliás, que todos os anos atrai nos meses de verão milhares de visitantes, que se deslocam até este local nas Caldas do Gerês, concelho de Terras do Bouro.

Este ano, no entanto, a autarquia está em vias de proibir os banhos nesta cascata, alegando existir um risco de segurança, após o registo de vários acidentes ao longo dos anos. 

«É só essa a razão [segurança]. Aproxima-se o próximo verão e, infelizmente, todos os anos temos vítimas de acidentes, algumas mortais. Por isso, em articulação com o ICNF e outras entidades, vamos proibir os banhos na cascata de Barjas, porque não podemos continuar coniventes com esta situação», adiantou Manuel Tibo, presidente da Câmara Municipal de Terras do Bouro, citado pelo jornal regional O Minho.

Mas este não é o único exemplo de cascatas dignas de uma visita no Gerês. Veja-se, por exemplo, a Cascata de Pincães, no concelho de Montalegre, na aldeia homónima, longe da azáfama e da confusão, tornando-se num refúgio de paz e harmonia em plena Natureza. Tal é o afastamento desta cascata dos centros urbanos que a única maneira de chegar até ela é a pé, desde o centro da pequena aldeia de Pincães, numa viagem de quatro quilómetros (ida e volta), seguindo o trilho indicado por várias placas sinaléticas.

E, por fim, last but not least, vale também a pena fazer uma visita à Cascata do Arado, no rio com o mesmo nome, a cerca de três quilómetros de distância da aldeia de Ermida, em pleno coração do Parque Natural da Peneda-Gerês. A cascata está situada numa altitude de cerca de 900 metros, e é composta por uma série de pequenas cascatas por entre as rochas.

Aos pés do Gerês

Uma visita ao Gerês vem, por excelência, associada a uma visita às provincías do Minho e de Trás-os-Montes. Os visitantes que decidem pernoitar procuram, normalmente, locais nos concelhos aos pés do Parque Natural da Peneda-Gerês, como Ponte da Barca, Terras do Bouro ou Vieira do Minho. Nesse mesmo concelho, aliás, no ano transato, «de acordo com os dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística, 48 198 dormidas, um aumento de 21,98% em relação ao ano de 2020, e 21 920 hóspedes, um aumento de 20,1% em relação a 2020», contou a autarquia ao Nascer do SOL.

Se as opções de atividades no próprio Parque Natural são variadas, a lista de afazeres em Vieira do Minho não é curta, pelo que promove a Câmara Municipal. «Na freguesia de Rossas, na albufeira do Ermal, encontra-se instalado aquele que é o único Teleski da Península Ibérica, equipamento que se torna cada vez mais num dos pontos mais fortes a nível turístico na região», conta a autarquia, sugerindo também os percursos pedestres do concelho, que «são também mecanismos para o turista comum conhecer alguns dos pontos de interesse que esta região tem para oferecer».

«No ano de 2021 foram inaugurados três novos percursos pedestres: da Srª da Lapa ao Castro de Anissó; as Pontes da 2ª Invasão Francesa; Carvalhos do Ermal. Com estes novos traçados, a rede de percursos pedestres foi reforçada em mais de 30 quilómetros. Ao longo do ano foram realizadas várias caminhadas temáticas gratuitas, para promoção destes percursos», continua a autarquia, realçando alguns projetos levados a cabo nos últimos tempos, como a «Minho Tourism Design Experience, em parceria com o IPDT-Turismo e Consultoria, com a atribuição de prémios aos utilizadores dos percursos pedestres da região, com o envolvimento de várias empresas e estabelecimentos vieirenses» e um «projeto de valorização de costumes e tradições nas Aldeias de Portugal, com a gravação de testemunhos dos residentes, em formato de vídeo e fotografia, para posterior exposição».

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