Internacional

Nord Stream. UE procura alternativas

Os EUA são o ‘vencedor a nível energético’. Outras opções incluem Azerbaijão, Angola, Canadá ou Nigéria.


O s líderes europeus, por mais que endureçam o seu discurso em relação à invasão da Ucrânia, suspiraram de alívio com a reabertura do Nord Stream 1, a principal torneira de gás natural para a Europa, esta semana.

Bruxelas tenta desesperadamente procurar fontes alternativas de energia e Moscovo busca novos compradores, mas estes dois inimigos tão cedo não se livram um do outro.

Já os Estados Unidos aproveitam a oportunidade para expandir a sua presença no mercado europeu, apesar dos americanos enfrentarem um aumento significativo do preço dos combustíveis, afundando a popularidade de Joe Biden. 

«Quando pensamos nos vencedores e perdedores da guerra, os Estados Unidos são um vencedor em termos energéticos, porque aumentaram as exportações para a Europa», considera Carla Fernandes, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) da Universidade Nova de Lisboa, especializada em segurança energética, à conversa com o Nascer do SOL.

«E os preços altos favorecem a produção de energias não-convencionais», aponta Fernandes, referindo-se a uma das especialidades do setor energético americano, o fracking, ou fraturamento hidráulico, uma técnica para produzir gás de xisto. 

Falamos de um processo com enormes custos ambientais, que envolve bombear químicos, água e areia de maneira a fraturar rocha, para chegar a reservas que não seriam alcançáveis de outro modo. Libertando pelo meio gases como metano, com um efeito de estufa até 25 vezes superior ao do dióxido de carbono.

Os Estados Unidos, receando o fim das reservas de combustíveis fósseis, apostaram forte nesta técnica, ainda que seja dispendiosa. O fracking começara a entrar em desuso devido a uma enorme quebrado do preço do barril – iniciada em 2014, pensando-se que tenha sido orquestrada por membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEC) em parte com o propósito de inviabilizar o gás de xisto – mas voltou à mó de cima com a recuperação da pandemia e sobretudo com a invasão russa da Ucrânia.

«O gás de xisto compete com o gás natural mas a sua produção é muito mais cara, embora os custos tenham vindo a diminuir consecutivamente devido a avanços na tecnologia», explica Fernandes. Para ser vendido, claro que «tem de ser economicamente rentável. E neste momento é», salienta.

Desde o início da invasão, a Europa – desesperada por evitar financiar a máquina de guerra russa através da compra de gás natural, ou até evitar que o Kremlin lhe feche a torneira antes de encontrar fornecedores, enfrentando escassez energética – já bateu a Ásia como principal comprador de gás natural liquefeito (LNG, na sigla inglesa) vindo dos EUA, boa parte dele produzido a partir de gás de xisto. Aliás, projeta-se que os Estados Unidos vão tornar-se em breve o maior exportador mundial de LNG, estando as empresas energéticas americanas numa «corrida para tirar vantagem desta oportunidade», como descreve entusiasticamente o Oil Price, um site noticioso dedicado ao setor petrolífero. 

Alternativas

Não é só nos Estados Unidos que o entusiasmo é notório. Uma alternativa energética para a Europa poderia ser o Azerbaijão. Esta nação no Cáucaso, rica em reservas de combustíveis fósseis, ainda esta semana assinou um acordo com Bruxelas, procurando duplicar as suas exportações de gás natural para a União Europeia.

Falamos de cerca de 20 mil milhões de m3 de gás natural extra a chegarem à UE anualmente, através do gasoduto apelidado de Corredor Sul, ligando os campos petrolíferos azeris de Shah Deniz aos Balcâs. Pode parecer pouco relativamente aos 155 mil milhões de m3 de gás natural russo importados o ano passado pela União. Mas a ideia é que estes lucros possam servir para investir em oleodutos e infraestrutura, de maneira a fazer do Azerbaijão um dos grandes fornecedores da Europa. Não que isso não acarrete riscos geopolíticos também – ainda há dois anos os azeris invadiram o enclave de Nagorno-Karabakh.

Outras hipóteses colocadas em cima da mesa pela UE passam pelo Canadá ou países africanos como Angola, Nigéria ou Moçambique. No entanto, «se olharmos para todos esses fornecedores, não são mais do que os fornecedores habituais, aos quais a Europa tinha planeado comprar ou até já comprava», diz Carla Fernandes. O receio quanto à dependência energética da Rússia vem muito de trás, os planos para o evitar sucederam-se, sem grande sucesso. «Agora a Europa até ao final do ano vai conseguir?», questiona a investigadora. «Acho um bocado difícil». 

Talvez a melhor possibilidade para a Europa arranjar novos fornecedores energéticos seja África, considera Fernandes. «Porquê, porque precisam mais de capacidade de investimento», explica. «Claro que isso não pode fornecer a Europa na sua totalidade». Para não falar nas dificuldades no transporte, nos custos adicionais de liquefazer gás ou na necessidade da Europa expandir terminais de LGN. Mas, ainda assim, «é mais fácil conseguir aumentar a produção em África do que em países como o Azerbaijão», considera a investigadora.

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