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A cidade onde rolavam cabeças e os deuses jogavam à bola

Conhecidos pelos horríveis sacrifícios humanos, os astecas também sabiam divertir-se. Adoravam chocolate e jogavam um antepassado do basquetebol.

A cidade onde rolavam cabeças e os deuses jogavam à bola

Sepultada seis metros abaixo do Zócalo, a famosa praça central da Cidade do México, encontra-se a grande praça de Tenochtitlan, o coração da civilização azteca, ou asteca. A metrópole moderna replica os traços da antiga cidade: o palácio presidencial, diz-nos G. C. Vaillant em Os Astecas do México (da velha coleção Pelicano), «foi construído sobre os alicerces do palácio de Montezuma», o antepenúltimo imperador asteca, e até terá usado pedras daquele.

Quando Hernán Cortés e os seus soldados ali chegaram, em 1519, depararam-se com uma civilização altamente sofisticada. Tenochtitlan, pelas contas de Vaillant, teria 60 mil fogos, o que corresponde a uma estimativa de 300 mil almas. Por essa altura, Sevilha, a mais rica e populosa cidade espanhola, teria menos de metade disso. A arquitetura, como vemos pelos numerosos templos, era requintada. A joalharia também, mas foi quase totalmente fundida pelos conquistadores, que aliás ficaram furiosos quando os astecas lhes deram jade e turquesa, as substâncias que consideravam mais preciosas. O que os espanhóis procuravam avidamente era ouro e prata.

A destruição desta civilização fabulosa por um punhado de europeus constitui uma das páginas mais negras da história moderna. Mas de modo algum devemos ter a ilusão de que a vida nas cidades astecas era um idílio. Entre os hábitos deste povo contavam-se os sacrifícios humanos e o canibalismo. Em Azcaptzalco foi encontrado um grande vaso vermelho e amarelo. O seu interior continha «as coxas de um ser humano, as partes mais suculentas para consumo festivo». Provas de sacrifícios humanos não faltam, continua Vaillant: «No templo de Quetzalcoatl foram enterrados indivíduos debaixo das esquinas, nos alicerces. Quer em Teotihuacan quer em Azcapotzalco pratos rasos, cortados da calote das caveiras, testemunham outros ritos envolvendo sacrifícios e mortes».

Só para se ver o grau de violência daquela sociedade, os guerreiros tinham o hábito de cortar orelhas aos inimigos e de fazer colares com elas. Na religião, um dos deuses mais proeminentes do panteão asteca era Xipe, ‘o Esfolado’, cujos sacerdotes usavam peles humanas recém-arrancadas a cativos. O ponto culminante dos sacrifícios terá sido atingido por volta de 1488, na cerimónia de ampliação do grande templo da atual Cidade do México. De uma só vez, terão sido imolados 20 mil homens, capturados ao longo de dois anos em incursões a tribos inimigas. Com uma faca ritual, os sacerdotes faziam um golpe abaixo das costelas da vítima e depois enfiavam a mão pelo orifício e arrancavam-lhe o coração, atirando-o, ainda quente e a palpitar, para uma grande taça em chamas.

Estes aspetos arrepiantes, que justificam a tradição macabra que se verifica no México, conviviam com hábitos mais aprazíveis. Os astecas eram, por exemplo, grandes apreciadores de chocolate e é a eles que devemos esta guloseima, assim como a própria palavra.

Outra atividade que lhes dava grande prazer era o jogo da pelota, o tchali, uma espécie de antepassado do basquetebol. Manuscritos da época mostram as divindades entretidas a movimentar a bola de borracha. Que naquela civilização os deuses jogassem à bola nem é tão estranho assim. Na nossa não é diferente. Aliás, foi ali mesmo, na Cidade do México, que Diego Armando Maradona levantou a taça Jules Rimet, de ouro maciço, após a vitória frente à Alemanha no Mundial de 1986. Por coincidência, o palco do jogo decisivo chama-se Estádio Azteca, que é ainda hoje o maior do país.

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