Opiniao

Que não sirva de exemplo!

Se há serviço meritório é o que Vilamoura disponibiliza aos munícipes proprietários – através da Inframoura, entidade que o gere – que lhes permite deslocarem-se de bicicleta entre diversos pontos da vila, e até às praias, mediante o pagamento duma taxa bastante aceitável, da ordem dos €35 anuais.

Que não sirva de exemplo!

Por José Manuel Azevedo, economista

Se há serviço meritório é o que Vilamoura disponibiliza aos munícipes proprietários – através da Inframoura, entidade que o gere – que lhes permite deslocarem-se de bicicleta entre diversos pontos da vila, e até às praias, mediante o pagamento duma taxa bastante aceitável, da ordem dos €35 anuais.

Basicamente, cada titular de cartão pode fazer os percursos diários que queira, desde que cada um deles não ultrapasse 45’ de duração. No final desse período, estaciona-se o veículo nos pontos de recolha, nada impedindo que, um minuto mais tarde, voltemos a passar o cartão pelo equipamento de leitura no posto para continuar a nossa viagem.

Acresce que tanto a manutenção, como a logística – a disponibilidade de bicicletas nos postos é assegurada por uma empresa de vigilância que a Inframoura contratou – funcionam bem, o que significa que, nas raras vezes em que não há bicicletas disponíveis nos postos, basta um telefonema para um número dedicado e, 5 a 10 minutos mais tarde, lá aparece o furgão com uma série delas, para encher a estação (assim se chama).

Pois é, mas em março de 2020 surgiu a pandemia cá em Portugal, e com ela todas as dúvidas e receios sobre o que poderia contribuir para contágio da população, o que levou a Inframoura a interrompê-lo.

Contrariamente ao que sucedeu em Lisboa, que manteve o seu serviço de mobilidade em duas rodas a funcionar, Vilamoura optou por simplesmente recolher as bicicletas e deixar de disponibilizar o serviço.

Estamos em julho de 2022, dois anos e três meses decorridos. O que é que se passou entretanto? Pouca coisa.

• Em final de abril, e também de maio do dito 2020, em antecipação à semana dos feriados de Junho, inquiri a Inframoura sobre quando pensariam voltar a disponibilizar o serviço. Resposta (sic): «Por motivos técnicos e de segurança, foi superiormente decidido alterar a data de reabertura do sistema public bikes de 08-06-2020 para 22-06-2020». Acresce que me pediram que consultasse regularmente o site inframoura.pt/pt/publicbikes.aspx porque aí teria toda a informação sobre data de reposição.

• Em 8 de julho, portanto mês e meio mais tarde, tentei de novo saber quando é que o serviço seria reativado, tendo recebido resposta, por mail, de que a nova data era «13/7, mas não o podemos garantir, pois até lá podem existir alterações. Deve estar atento ao nosso site, local onde as notícias sobre o tema serão publicadas». Nada surgiu, até hoje…

• Um ano depois, 2021 (tendo entretanto ido diversas vezes a Vilamoura sem que se ‘vislumbrassem’ as bicicletas brancas), voltei a contactar a empresa. Desta vez, já obtive a informação de que a ARS Algarve tinha emitido um parecer segundo o qual: «Devido à situação que vivemos no país e no concelho de Loulé, por causa da covid-19, ainda não nos encontramos em situação de poder partilhar objetos, neste caso, bicicletas».

 

Para não vos fastidiar com detalhes desnecessários, no último contacto telefónico que fiz com a Inframoura, há dois meses, em que fui atendido por uma simpática funcionária, foi-me dito que a empresa continuava a aguardar o parecer final da dita ARS (que tinha prazo próximo, aliás, findo o qual se fosse positivo ou se não houvesse pronúncia – não seria a primeira vez! – o serviço seria reposto).

É claro, isso não aconteceria de imediato, porque haveria que visitar todas as estações, verificar as respetivas condições, reabrir o sistema informático que gere o sistema, avisar os munícipes, disponibilizar-lhes no site a possibilidade de voltarem a carregar os seus cartões, enfim, um conjunto natural e compreensível de tarefas, mas que a funcionária não sabia dizer quanto tempo demoraria.

 

Passaram entretanto diversas semanas, sem que o site nos tivesse notificado do que quer que fosse e voltei a ligar, à data em que escrevo – não é que me disseram que seria certo que em agosto o serviço seria reposto, mas não sabiam exactamete quando, porque haveria que visitar todas as estações, verificar as respetivas condições, reabrir o sistema informático… etc., etc.?

Perguntei-lhe por que raio, sabendo há tempos a Inframoura que o parecer da ARS tinha sido favorável, que a partir de Julho, inclusive, Vilamoura está cheia de gente que utiliza as Vilamoura Public Bikes, por que raio, dizia eu, não tinham ainda feito nenhuma das tarefas que sabiam que tinham que executar para disponibilizar o serviço? «Pois, compreendo, mas não consigo dar-lhe resposta». Despediu-se, desejando-me um bom fim de semana.

Mas que país, este, em que se deixa tudo para a última hora, em que tanto tempo se demora a decidir até coisas triviais como esta? Bem sabemos que ‘enquanto o pau vai e vem folgam as costas’, mas, que diabo, que não sirva de exemplo!

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