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Pode haver alternância em Angola?

Há anos que não se via debate assim em Angola. Deve haver mais dinheiro do petróleo, mas o preço global dos alimentos também aumentou.

Pode haver alternância em Angola?

O longo domínio do MPLA sobre Angola está em risco, com João Lourenço a enfrentar eleições em 24 de agosto, num clima de crescente contestação. As poucas sondagens mostram resultados díspares, num país onde tanta gente vive longe de telefones para responder a inquéritos. Mas o receio da oposição é que, caso consigam ultrapassar o MPLA quanto ao apoio popular, o regime recorra a fraude massiva – ainda esta sexta-feira ativistas anunciaram intenção de impugnar as eleições, devido a irregularidades na sua preparação – ou até mesmo à força para se manter no poder.

Apesar do todo este alarme, «é a primeira vez em muitos anos em que há um verdadeiro debate em Angola», frisa Rui Santos Verdes, investigador na Universal de Oxford, especializado em Direito e Estudo Africanos, ao Nascer do SOL. «Na verdade a sociedade abriu-se. As pessoas agora falam o que não falavam há cinco anos. O que impede retrocessos, creio».

Já o politólogo Olívio N´ kilumbu, que integra a lista da UNITA, o maior partido da oposição, candidatando-se a deputado independente, não podia discordar mais. «Angola já é uma ditadura», garante. «O MPLA sempre utilizou fraude para ganhar as eleições. Só que o ambiente político mudou consideravelmente».

No cerne do descontentamento contra João Lourenço estão as dificuldades económicas do país. Para Rui Santos Verdes, neste momento o Presidente «já tem bons ventos», está-se a «sair de uma crise económica», garante. João Lourenço foi «ajudado pelo cumprimento do programa do FMI e pela conjuntura externa», assegura o investigador da Universidade de Oxford, numa referência ao aumento do preço do barril de crude devido à guerra da Ucrânia. Sendo esperado um enorme aumento das exportações de energia para a UE, ansiosa por diminuir a dependência da Rússia.

No entanto, a dúvida é se esse manancial virá a tempo das eleições de 24 de agosto, admite Santos Verde. «Uns notarão, outros não. E outros não quererão notar», explica o investigador. No entanto, há dúvidas se esse dinheiro chegará sequer às mãos da população, alerta N´ kilumbu, que pinta um cenário muito diferente da situação económica.

 «Angola passou a vender mais petróleo. Mas o dinheiro do petróleo não beneficia os angolanos, quando devia, através de políticas públicas», salienta este politólogo e candidato nas listas da UNITA. Lembrando que, se o preço do barril aumentou, também subiu o custo dos bens alimentares, dado que a Ucrânia e a Rússia são os maiores produtores de cereais do planeta. E isso sim faz-se sentir no bolso da população angolana, explica.

É algo que nota mais porque «Angola não é um grande produtor de cereais. Já foi», critica N´ kilumbu. «Embora tenhamos terra arável e água abundante, não temos um olhar forte para a questão da agricultura. Desde que Angola se tornou independente, nunca o Orçamento de Estado apostou na agricultura acima dos 3%».

«É um contrassenso num país com tantos rios. Só Luanda tem três, mais duas lagoas, mas a cintura agrícola é inexistente. E não há cadeias logísticas porque não temos estradas, logo há fome», continua. «Criou-se uma reserva estratégica alimentar com produtos importados. Foi a maneira que se encontrou para enfrentar subidas nos preços nos mercados. Mas com esta guerra na Ucrânia agora vai faltar cereais no mundo todo e em Angola».

N´ kilumbu vê essa potencial tragédia como resultado do poder de algumas elites – «há um lobby muito forte da importação. Das treze maiores empresas do setor só três são angolanas. há mauritanos, libaneses, eritreus, indianos que são praticamente donos do setor» – e também como decisão política.

«Nunca houve iniciativa económica interna em Angola. Sempre ficámos à mercê dos ventos internacionais», explica. «Sabe que regimes autoritários, como é o nosso caso, têm na promoção da pobreza uma arma de manutenção do poder», acrescenta este candidato da UNITA.

Já Santos Verde mostra-se seguro que pelo menos parte da enchente de lucros do petróleo há de chegar à população. Nem que seja por um certo instinto de autopreservarão do regime. «Sabemos que Angola é um país muito estruturado à volta do Estado», aponta o investigador da Universidade de Oxford. «E se o Estado tem dinheiro, pouco e pouco começará a ter um certo efeito cascata até às pessoas».

 

UNITA urbano, MPLA rural

O risco destas eleições é a polarização, talvez até violência. Logo no arranque da campanha eleitoral, sábado passado, houve mortos durante a repressão policial de uma rebelião dos ‘motoboys’.

Estes motoqueiros, que funcionam como uma espécie de transporte público individual improvisado, terão recebido promessas do pagamento de dez mil kwansas (uns 23 euros) a cada um para participar em comícios do MPLA. Revoltando-se depois, alegando que o pagamento nunca foi feito, queimando veículos e até camisolas com o rosto de João Lourenço que lhes tinham sido oferecidas.

O MPLA sempre foi acusado de comprar comícios. «As pessoas são obrigadas a ir sob ameaças. Acontece com funcionários públicos no geral, mas as escolas são as maiores vítimas, os diretores têm de enviar alunos», descreve N´ kilumbu. «As igrejas mandam a seus fiéis, dado que o regime controla os lideranças religiosas cristãs evangélicas, e os transportes públicos, como os autocarros, são destacados para lá», aponta este candidato da UNITA.

Os ‘motoboys’, sendo parte crucial dos transportes em Luanda, sobretudo nas periferias, são envolvidos neste esforço, havendo queixas recorrente de falta de pagamentos. Só que «desta vez foi ao extremo», considera N´ kilumbu. Sugerindo que «internamente, no MPLA, pode ter havido um boicote em função do clima perigoso entre João Lourenço e a família Dos Santos».

Aliás, esta quezília – tendo inclusive o Presidente sido acusado de matar o seu antecessor, José Eduardo dos Santos, por uma das suas filhas, Welwitschea ‘Tchizé’ dos Santos, chegando esta a apelar ao voto na UNITA – é considerada uma das grandes fragilidades de João Lourenço.

No entanto, isso não deverá chegar para que o MPLA sofra uma derrota, avalia Santos Verde. Apesar de sondagens terem chegado a colocar o líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, à frente de João Lourenço, há tendência para sub-representarem áreas rurais. «A perceção que tenho é que nas cidades a UNITA se está a reforça, mas no campo o MPLA ainda é muito forte», estima o investigador da Universidade de Oxford. «O combate está duro. Mas o MPLA ainda tem vantagem», avalia. «Vai ser um jogo muito interessante».

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