Cultura

"A grande pirâmide era tão branca que devia doer nos olhos. O que vemos hoje é o esqueleto"

É em grande parte ao Nilo, mas não só, que a civilização do Antigo Egipto deve a sua riqueza. Em entrevista, Inês Torres, egiptóloga doutorada em Harvard, fala-nos do simbolismo da esfinge, de animais de estimação e de documentos tão bem organizados que parecem uma folha de Excel.

"A grande pirâmide era tão branca que devia doer nos olhos. O que vemos hoje é o esqueleto"

Como foram construídas as pirâmides? Seriam os egípcios obcecados pela morte? De onde vinha a enorme riqueza que caracteriza o Antigo Egipto? Em conversa com o Nascer do Sol, Inês Torres esclarece alguns dos enigmas sobre aquela civilização que milénios depois continuam a fascinar e a causar-nos perplexidade.

Aos 30 anos, a egiptóloga tem já um currículo invejável. Licenciada em Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fez o mestrado na Universidade de Oxford e doutorou-se em Harvard, onde durante três anos ensinou Egípcio Clássico. Atualmente é investigadora do CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e acaba de publicar o seu primeiro livro, Como é que a esfinge perdeu o nariz? (ed. Planeta). O_Nascer do Sol entrevistou a autora por videoconferência.

Uma das coisas que saltam à vista quando olhamos para os testemunhos que nos chegaram do Antigo Egipto é a sua enorme riqueza. Qual é a origem da riqueza desta civilização, a agricultura?

Muitos dos relatos que chegaram até nós datam do período romano, e os romanos consideravam o Egipto o celeiro de Roma. Ainda hoje, a nível agrícola é um país muito, muito fértil, e mais fértil era ainda quando as cheias do Nilo aconteciam regularmente, porque renovavam os solos com o seu lodo fértil. Hoje isso já não acontece.

Por causa da barragem de Assuão?

As barragens tiveram consequências muito positivas, mas também tiveram coisas negativas. Por exemplo, os vários sítios arqueológicos que ficaram submersos, a até populações, aldeias inteiras que tiveram de ser retiradas e colocadas noutros locais. Ou o solo, que já não é renovado com tanta facilidade. Em todo o caso, a agricultura trazia muita riqueza ao Egipto, mesmo se nem todos os anos agrícolas eram bons. Mas além disso também havia muitos materiais preciosos e semi-preciosos, como o ouro, que o Egipto tinha em abundância. A grande maioria do ouro vinha das colónias egípcias na Núbia, que é o atual Sudão, ou então, antes da colonização da Núbia, de relações comerciais com esses povos. Vinha muito ouro daí e também outros metais, como pedras semipreciosas. Por exemplo, a turquesa, que era muito, muito desejada pelos egípcios, vem do Sinai. Portanto a riqueza do Egipto vai muito além da riqueza agrícola.

Outra das mudanças é que já só há crocodilos a montante de Assuão. A barragem introduziu grandes alterações não apenas na paisagem, mas também no ecossistema.

Muito grandes. No Antigo Egipto também havia hipopótamos e já não há. De certa forma são mudanças positivas porque estamos a falar de animais muito perigosos. Para o antigo egípcio, ir ao rio lavar a roupa era uma atividade perigosa! Estava a lavar a roupa e a qualquer momento podia ser abocanhado por um crocodilo. O Nilo é um rio muito calminho, muito fácil de navegar, mas também tinha os seus perigos. A barragem mudou bastante toda a ecologia. Como eu disse, muitas populações tiveram de ser movidas, e sítios arqueológicos como Abu Simbel, ou o templo de Philae, tiveram que ser deslocados.

No início, referi-me à riqueza dos testemunhos no sentido da sumptuosidade. Mas também podemos falar de riqueza em relação à quantidade de testemunhos que nos chegaram. Sendo uma civilização tão antiga não seria de esperar termos muito menos coisas? Essa abundância de materiais deve-se ao facto de o clima do Egipto ser especialmente propício à conservação?

Diria que a resposta a essa pergunta é sim e não. Sim, porque de facto chegou-nos imensa coisa, incluindo materiais orgânicos que normalmente não se preservam, como a madeira e os papiros. São coisas que não normalmente não chegam até nós quando falamos de civilizações tão antigas como o Egipto. E isso deve-se ao clima seco. Mas devemos lembrar que a grande maioria das coisas que chegam até aos dias de hoje são de cariz funerário. Porquê? Porque estavam precisamente no deserto, onde é seco. Das cidades egípcias, mais à beira-rio, temos menos informação. Trata-se de áreas mais húmidas, áreas também que foram continuamente habitadas desde a antiguidade até aos dias de hoje. Por outro lado, se pensarmos bem, chegou-nos muito pouca coisa. Estamos a falar de 3000-3500 anos de história. Na verdade, temos muito pouco e temos, e às vezes de períodos específicos. Por exemplo, temos muita informação para o Império Novo, mas do Império Antigo, que é a época da construção das pirâmides, chegou-nos menos material. Claro que isso faz sentido, porque há um milénio que separa estes dois períodos: de certa forma, o Império Novo é ‘recente’ [risos] relativamente à história egípcia. Então há essa dicotomia. Por um lado, temos coisas tão bem preservadas e tanta coisa, e ao mesmo tempo, se pensarmos nos milhões de pessoas que viveram e morreram durante 3000 anos, temos tão pouco. Isto acaba por ser influenciar aquilo que sabemos sobre esta civilização, porque há períodos sobre os quais a informação é mesmo muito fragmentária e temos que extrapolar aquilo que sabemos de outros períodos. Aliás, quando digo no meu livro ‘os egípcios’ é complicado – os egípcios de que era, os egípcios de que classe social, os egípcios de que idade, de que região?

Acontece o mesmo com a Idade Média, que apanha cerca de mil anos. Não sei se foi Umberto Eco que notou que o período que decorre entre Santo Agostinho e Tomás de Aquino é tão longo como entre Tomás de Aquino e o nosso próprio tempo. No caso do Egipto a amplitude temporal ainda é muito maior. Ainda assim, existe assim algum momento que seja considerado arquetípico do Antigo Egipto, o período de Ramsés II, por exemplo?

Existe. É precisamente essa época do Império Novo, de um Ramsés, de um Tutankhamon, de um Amenothep III, que entre os egiptólogos é considerado como ‘o’ grande rei egípcio, ainda maior do que Ramsés II. Parece-nos, com a evidência que chegou até nós, que teve um império ainda muito mais rico e extenso do que o de Ramsés. E esse é um período de que chegou imensa informação, não só da parte funerária, mas também informação quotidiana, do dia-a-dia das pessoas. Temos bastantes cidades preservadas da altura do Império Novo, como por exemplo a cidade de Deir el-Medina, ou a cidade de Amarna, que foi fundada por Akhenaton. Este milénio acaba por ser o período arquetípico, o período que nós utilizamos com maior frequência para dizermos ‘no antigo Egipto as coisas eram mais ou menos assim’, porque de facto temos muita, muita informação.

Eu pegaria agora no título do seu livro para lhe perguntar o que representa a Grande Esfinge, esta mulher com corpo de leão. Ou leão com cabeça de mulher…

De homem, na verdade.

O que representa?

Não só a Grande Esfinge de Guiza, mas a esfinge em geral, tem uma ligação muito grande com o sol. O leão é um elemento solar porque os leões protegem o deus Rá, o sol, na sua viagem pelo céu durante o dia e durante a noite. A esfinge por vezes também aparece com cara de carneiro. O carneiro é o símbolo do deus Amon. O leão é solar, tem ligações com o deus Rá, portanto, com o carneiro temos Amon-Rá, que é um dos deuses mais importantes, especialmente durante o Império Novo. A esfinge tem um simbolismo de proteção, mas também funerário. É difícil separar a religião do culto funerário. As esfinges são frequentemente usadas para representar monarcas egípcios. Além dessas conotações religiosas, também têm uma conotação monárquica, relacionada com o poder real. Normalmente, a cara da esfinge representaria um determinado monarca. É o caso da Grande Esfinge de Guiza, onde teríamos a cara de Khafré, que foi o construtor da segunda maior pirâmide. Portanto é um símbolo que faz a ligação entre o culto solar, o culto da monarquia e o poder da monarquia, porque o leão é um animal poderosíssimo. Nós chamamos-lhe o rei da selva, os egípcios viam-no como um animal ligado à realeza.

Havia leões no Egipto?

Sim. E a caça ao leão era uma atividade praticada com frequência por monarcas. Era uma forma de mostrarem o seu estatuto, até porque, lá está, o leão é um animal muito poderoso. Às vezes até vemos o rei com leões de estimação, o rei em carros de guerra, com os cavalos a pisar os seus inimigos e leões a acompanhá-lo.

É por representar o monarca que a esfinge tem aquele toucado que também vemos nos sarcófagos?

Exatamente. O toucado da Grande Esfinge de Guiza é um toucado nemés, que estava reservado aos monarcas egípcios, mais ninguém o podia utilizar. É um símbolo que toda a gente sabia identificar. Mesmo que, passados milénios, eles não soubessem que monarca que representava, pelo toucado saberiam certamente que era um rei.

É impressão minha ou está a evitar o termo faraó?

Estou, porque é um termo grego, na verdade. Não quero dizer mal dos gregos – toda a gente acha que não gosto dos gregos, não é bem assim [risos] – mas se pudesse até utilizaria o termo egípcio, que é nesu(t), rei. Mas os egípcios tinham vários termos para designar o seu rei, como ‘senhor das duas terras’, néb tauí. Então prefiro não usar faraó, primeiro porque é uma palavra que vem do grego, não é original; depois,
 porque é uma palavra que, como chegou até nós através da Bíblia, tem uma conotação um pouco negativa, do déspota oriental, o tirano que tem os judeus como escravos. Essa conotação está tão presente que uma pessoa acaba por ficar com ideias pré-concebidas relativamente àquilo que seria um faraó egípcio ainda antes de começar a aprender sobre o que era um rei egípcio e o que fazia.

Mas certamente alguns monarcas corresponderiam a essa imagem de déspota...

Sem dúvida! Não quero dizer que todos os reis egípcios eram todos maravilhosos. Em todo o caso acho que o termo rei é mais próximo do termo utilizado pelos egípcios. É um termo mais neutro, mais ‘amigo’. Não sei… acho que dá uma segunda oportunidade aos reis egípcios [risos]. E, mais uma vez, não quer dizer que não tenham sido déspotas.

Também reparei que no seu livro, a propósito das pirâmides de Guiza, ou Gizé, fala de Khufu, Khafré e Menkauré. Quando eu aprendi dizia-se Quéops, Quéfren e Miquerinos.

Isso também vem do grego. Eu tento ser o mais coerente possível e faço por evitar a terminologia grega. Acho que é importante sabermos como é que os próprios egípcios queriam que se lhes chamasse. Aliás, eu vivi no estrangeiro durante muito tempo e tive o meu nome chacinado durante dez anos por pessoas que simplesmente não conseguem pronunciar ‘Inês’ [risos]. Sei bem o que é uma pessoa sentir que lhe é roubado um bocadinho de identidade e ter responder a nomes que não são exatamente o seu. E não sou só eu, atenção. Isto é uma tendência dentro da egiptologia em geral, especialmente nos países anglófonos. Em França continua a usar-se muito a palavra ‘faraó’. Mas como fiz a minha formação em Inglaterra e nos Estados Unidos, acabo por concordar e adotar essa abordagem. Tento sempre utilizar a palavra mais aproximada ao egípcio – embora tenhamos dificuldade em saber como é que estas palavras eram pronunciadas. Faço isso também com as divindades: Iset em vez de Ísis ou Usir em vez de Osíris. Isso é não só uma opção minha, mas algo que se tem vindo a discutir na egiptologia, tentarmos utilizar os nomes egípcios, em vez de utilizarmos os termos que vêm dos autores gregos e romanos.

Ainda em relação à esfinge, afinal não foram as tropas de Napoleão que lhe destruíram o nariz a fazer pontaria com um tiro de canhão, pois não?

Temos um desenho de um artista europeu que esteve no Egipto umas décadas antes de Napoleão lá chegar e esse desenho mostra que o nariz já não está lá. Portanto, desde logo podemos dizer que não, não terá sido Napoleão, apesar de esse ser um mito tão famoso. E também não foi Obelix! [no álbum Asterix e Cleópatra, o nariz cai sob o peso do volumoso gaulês, quando este tenta escalar a esfinge] Não sabemos bem o que aconteceu, mas os estudos de Mark Lehner mostram que terá sido propositado. Ou seja, não foi só a erosão que fez o nariz cair, mas terá sido uma ação intencional para danificar a face da esfinge. Não sabemos quem o terá feito, mas terá sido entre o século III e X [da nossa era], pois a partir daí temos escritores árabes que nos dizem que a esfinge já não tem nariz.

Então não teve nada a ver com Akhenaton, o faraó iconoclasta, cujo reinado ficou marcado pela destruição de tantas obras de arte?

O alvo de Akhenaton era mais deus Amon. Que nós saibamos ele não tocou na esfinge. Aliás, há fontes romanas, no século II ou III depois de Cristo, que nos dizem que a esfinge ainda tem nariz, portanto não terá sido Akhenaton, apesar de ele ter tentado o seu melhor para apagar o nome de muitas divindades egípcias de monumentos do Egipto inteiro e da Núbia. E foi até ao Sudão para apagar o nome do deus Amon.

Uma das coisas, entre outras, que nos aproximam do Egipto antigo é a relação que as pessoas daquela civilização estabeleciam com os animais. Como refere no seu livro, eles tinham animais de estimação tal e qual como nós. Associamos muito o gato ao Egipto, mas também tinham cães, por exemplo.

Adorei escrever esse capítulo, porque gosto muito de animais. Acho que é de facto uma forma de nos apercebemos da humanidade destas pessoas. Estamos a falar de uma cultura que existiu há milénios e que está tão separada da nossa no tempo e no espaço que é fácil esquecermo-nos de que eram pessoas como nós. E como o que sobrou dessa cultura são monumentos grandiosos, quase sobre-humanos, gosto de puxar para esse lado. Claro que temos que falar sobre a grandiosidade, mas também falar sobre as coisas mais humanas. E o amor que as pessoas têm pelos seus animais de estimação é uma das coisas que demonstram mais essa humanidade. Neste livro tentei traduzir certos textos que não tinham sido ainda traduzidos para português. Um deles era um fragmento de uma parede de túmulo de um cão de um rei egípcio. Era o seu cão de guarda favorito. Não sabemos o nome do rei, mas sabemos que no Império Antigo, na época da construção das pirâmides erigiu um túmulo para o seu cãozinho preferido, para se poder reencontrar com o cão no Além. Isso também humaniza um pouco estes déspotas. E além dos animais comuns, como cães e gatos, também tinham gazelas, macacos, burros. Até o gado podia ser animal de estimação.

No livro também relata uma situação muito curiosa, de um babuíno a perseguir um ladrão. Era uma espécie de cão-polícia em versão babuíno?

Isso para mim é fascinante. Tive imensa pena porque havia uma imagem de um túmulo onde está retratada esta cena do macaco-polícia a perseguir um ladrão , mas devido a direitos de autor não a pude incluir no livro. Os babuínos são animais muito agressivos, especialmente os machos. Então os antigos egípcios treinavam estes animais para atacar os ladrões. Não seria exatamente a polícia organizada como conhecemos nos dias de hoje, mas seria uma força para manter a ordem nos mercados e nas necrópoles. Então temos essa imagem fabulosa que mostra o que seria um polícia a puxar a trela de um babuíno-polícia que está a morder o tornozelo de um ladrão. É um rapazinho, a mão dele está no cesto de fruta e ele olha para trás, enquanto o macaco lhe abocanha o tornozelo. Melhor do que isto não poderia haver. Os babuínos eram utilizados com essa função, o que para mim, de certa forma, até é um pouco mais assustador do que um cão-polícia!

Ser atacado por um babuíno não deve ser uma experiência agradável.

Nada, até porque tem uns dentes muito afiados.

Falámos da esfinge. Outro símbolo imediato do Egipto são as pirâmides. Hoje, os arqueólogos e egiptólogos já têm algumas pistas sobre como eram construídas?

Acho que neste momento o nosso problema é que temos demasiadas teorias. Duas coisas que recentemente nos ajudaram foi o facto de ter sido encontrada, numa área junto ao Cairo, uma pirâmide inacabada, que ainda tinha, colada a ela, uma rampa de terra batida, com entulho e tudo o mais, que teria sido utilizada para transportar as pedras. Enquanto a pirâmide vai subindo, a rampa também sobe. Parece-nos que o sistema de rampas era o sistema utilizado para a construção para levar os blocos. Como é que essas rampas teriam sido construídas? Aí é que está a discussão. Vários arquitetos fizeram estudos sobre isto. E calcularam que, para a rampa ser a direito, exigia muito espaço. Junto à Grande Pirâmide, por exemplo, esse espaço não existia, porque já havia vários monumentos à volta. Provavelmente a rampa ia rodeando a pirâmide, à medida que era construída. Outra questão é se a rampa seria interior ou exterior. Há quem acredite que era construída de dentro para fora. De qualquer modo, essa rampa foi a primeira prova importante que apareceu nos últimos anos. A outra, muito recente – de 2013 – foram os papiros descobertos junto ao Mar Vermelho, onde havia, digamos assim, uma base naval egípcia, com uma frota que navegava pelo Mar Vermelho. E aí foi encontrado um conjunto de papiros pertencentes a um funcionário chamado Mérer, que liderava expedições de centenas de homens que iam buscar às pedreiras de todo o Egipto esses blocos de pedra gigantescos que hoje vemos na Grande Pirâmide e transportavam-nos de barco até o planalto de Guiza. Esses documentos são fantásticos, porque são tão bem organizados que parecem uma folha de Excel. Dão-nos a data, o dia, quantas pedras foram transportadas, quantos homens, quem estava encarregado, quando chegavam, quando partiram. Tudo documentado. De facto, para construir um monumento daquelas proporções, tem de haver aquele grau de organização.

E de rigor, não é?

Absolutamente. Surpreende mas ao mesmo tempo não surpreende. Tinha que ser assim. Essa descoberta foi crucial porque comprova aquilo que já suspeitávamos. É um conjunto grande de documentos. Alguns já saíram, podem ser analisados, mas ainda estamos à espera do resto dos papiros para perceber se conseguimos encontrar mais informação sobre a logística da construção da Grande Pirâmide. Na minha opinião é talvez das maiores descobertas dos últimos 50 anos.

As pirâmides no vértice tinham uma pedra, o pyramidion, que era coberta de ouro…

Ou até em ouro maciço.

Estes objetos dão-nos alguma pista sobre o simbolismo da pirâmide?

Também aí há muitas teorias. Há quem considere que a pirâmide é um raio de sol petrificado. Outros veem a pirâmide como uma espécie de escada que o monarca defunto subiria até se tornar uma das estrelas imperecíveis do céu, uma divindade que se juntaria ao deus Rá. Mas o pyramidion é essencial porque leva-me a outra questão: aquilo que nós vemos nas pirâmides e nos monumentos egípcios em geral é uma imagem incompleta. As pirâmides, além de terem esse pyramidion no topo, fosse ele de ouro maciço ou fosse de pedra coberta de ouro, brilhariamcom uma enorme intensidade ao sol. Mas da própria pirâmide o que vemos hoje é o esqueleto. Porque a pirâmide teria sido revestida de calcário branco.

As pirâmides eram brancas?

Exatamente. Devia doer nos olhos.

Ainda por cima com aquele sol!

Deviam resplandecer de uma forma espantosa. Hoje têm aquele tom bege, quase passam despercebidas no deserto. Na altura, pelo contrário, seriam tão visíveis que teria sido impossível ignorar. As habitações eram todas muito mais pequeninas, ali à volta, e de repente temos aqueles monumentos ali à volta. Nós estamos habituados a ver arranha-céus, mas eles não estavam. [Durante quase quatro mil anos as pirâmides foram os edifícios mais altos do mundo [só em 1311 a catedral de Lincoln, em Inglaterra, com 160 metros, ultrapassou em altura os 146 metros da Grande Pirâmide, construída cerca de 2550 a.C.]

Sabemos que as pirâmides eram túmulos. E os obeliscos, qual era a sua função? Uma espécie de marcos?

Os obeliscos tinham um simbolismo muito parecido ao da pirâmide. Também eles eram considerados como um raio solar petrificado. E também eles poderiam ter a pontinha coberta de ouro. Segundo a cosmogonia egípcia, antes da criação existiam as águas primordiais. Esses águas primordiais eram o nada e do nada surgiu uma pequena ilha e no topo desta ilha é então que começa a surgir a vida. Essa pequena ilha surge nas águas primordiais, quase como as localidades ficavam durante as cheias do Nilo. O obelisco representa essa colina primordial de onde surgiu a criação. Portanto o obelisco, além de poder representar um raio solar petrificado, além de todas as associações solares, tem essa ligação à criação do mundo. Era colocado em templos e normalmente era inscrito com os nomes dos monarcas que os tinham erigido, assim como com outros textos religiosos. Ao mesmo tempo é um elemento arquitetónico importante nos templos. Hoje em dia temos um obelisco em Roma, outro em Paris, outro em Nova Iorque. E pensamos no obelisco como um objeto isolado. Mas normalmente eles até eram colocados em pares nos templos. Quem visitar o templo de Karnak, em Luxor, poderá ver alguns obeliscos ainda no local, e falta-lhe o par, que está em Paris ou em Roma. O dois, de resto, era um número muito importante na religião egípcia, porque temos alto e o baixo Egipto, portanto representa a dualidade do país.

Temos muito a ideia de que os egípcios viviam em função da morte, sempre a preparar-se para a morte. Esta ideia corresponde à realidade ou é um pouco distorcida pelo facto daquilo que nós sabemos sobre o Egipto ser muito resultado do que se descobriu nos túmulos e monumentos funerários?

Acho que é exatamente isso. Nós temos uma ideia não muito correta de que os egípcios tinham esta obsessão pela morte e que se preparavam para a morte desde muito cedo. É verdade que quem tinha essa possibilidade, quem tinha os recursos financeiros, começava a construir o seu túmulo desde muito cedo. Mas essa questão tem a ver com o facto de os egípcios adorarem tanto a vida que não a queriam perder. E para não a perderem precisavam destes monumentos, que eram formas de atingir a imortalidade. Como dissemos no início da nossa conversa, aquilo que sobrou das cidades egípcias é muito pouco ou quase nada. Houve um egiptólogo famoso que disse: ‘O Egipto é um país sem cidades’. Isto é um erro tremendo, é uma confusão. É não compreender que nós não temos cidades porque elas sempre continuaram a ser habitadas. Temos muito poucas e as que temos normalmente são aquelas que foram construídas no deserto. Ou então cidades que foram abandonadas, como Amarna, que foi abandonada após o reinado de Akhenaton. Viveu-se nela durante 20 anos e depois foi-se tudo embora e nunca mais ninguém lá habitou.

Ficou uma espécie de cápsula do tempo?

Sem dúvida. Nós sabemos tanto sobre o Império Novo porque temos estas pequenas cápsulas do tempo em que podemos dizer com segurança: ‘Nestes 20 anos em que as pessoas aqui viveram era assim que se fazia as coisas’. Podemos ficar com uma ideia, porque o dia a dia da população não muda assim tanto, aquilo que as pessoas comem não se altera de um dia para o outro. Não diria que estão erradas as pessoas quando dizem que os egípcios pensavam muito na morte. Talvez pensassem muito na morte, talvez mais do que nós, o que não é necessariamente uma coisa mórbida, mas sim um desejo de prolongar a sua vida. E temos inclusive pessoas que até questionam esta atitude, mesmo no Antigo Egipto. Temos um canto que pergunta: ‘Para quê investir na eternidade, foca-te no presente, vive a tua vida agora, porque amanhã ninguém sabe e nunca ninguém voltou do além para nos dizer como é que é a vida no outro lado’. Nem toda a gente provavelmente acreditaria nos esforços da grande maioria da população de tentar preservar a sua vida eternamente. Se bem que também devo dizer que estes túmulos pertencem à elite. De que forma é que o além dos indivíduos sem posses para os construir tudo seria diferente? Será que essas pessoas também tinham direito À eternidade? Sobre isso não temos grande informação, porque a grande maioria dos túmulos das pessoas mais pobres não têm textos. Então, aquilo que nós sabemos da eternidade do além vendendo. O que sabemos da eternidade e do além vem da elite. E pouco sabemos do que teria sido a eternidade de um camponês.

Tenho a ideia de que também nos processos de mumificação havia uns mais dispendiosos e outros mais acessíveis.

Houve até quem falasse na ‘democratização da morte’. Na época greco-romana temos muitos documentos destas… eram quase agências funerárias. Uma pessoa ia à loja e dizia: ‘Este é o meu orçamento. Que tipo caixão posso comprar? Que tipo de embalsamamento?’. Às vezes não tinha dinheiro para retirar os órgãos dentro do corpo e enfaixá-los individualmente: ‘Então olhe, ficam os órgãos dentro do corpo e invisto um bocadinho mais no caixão’. É muito parecido com o que acontece hoje em dia. Uma pessoa morre dentro do seu orçamento e do orçamento da sua família. Há certas coisas que parece que não mudam. [risos]

As pessoas com mais posse eram sepultadas com os utensílios que iam utilizar, com as joias que queriam usar e até com estatuetas pequeninas para realizar as tarefas necessárias ao bem-estar do morto. Isto significa que concebiam o mundo dos mortos muito à imagem e semelhança do mundo dos vivos?

Eu diria que era mesmo quase uma reflexão. Se imaginarmos aquilo que existe na realidade egípcia do dia a dia, era quase como um espelho. O corpo físico não estava lá, mas aconteciam as mesmas coisas com o defunto no Além. Havia um rio, havia campos, havia agricultura. Não tenho provas para demonstrar isto, mas parece-me que gostavam tanto da sua vida que não estava a pensar: ‘Eu quero ainda melhor’. Não, achavam isto perfeito. Claro que mais uma vez falamos da elite. As pessoas endinheiradas têm sempre uma vida boa em qualquer época, não é? Não sei se um camponês gostaria de ter exactamente a mesma vida depois da morte, mas pelo menos o egípcio queria manter basicamente aquilo que já tinha. E eu gosto muito dessas estatuetas funerárias. É uma ideia fantástica. ‘Bom, não quero trabalhar no Além, não me vai apetecer fazer as tarefas que fiz durante a vida, então tenho estas estatuetas que magicamente chama-os e elas fazem a cama por mim, limpam a casa, tratam dos campos, fazem-me a comida. Acho que isso é fabuloso.

É uma espécie de reforma dourada.

Como não podiam levar consigo os criados, levavam estas estatuetas que tratavam de tudo. Iam muito bem apetrechados, estava tudo pensado ao mínimo detalhe.

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