Opiniao

Uma diferença imperceptível?

Em Junho, um pouco por todo o mundo, decorreram marchas do orgulho LGBTQIA+, sigla que parece cada vez mais denotar o genoma social quase planetário do tempo actual.

Uma diferença imperceptível?

por Cláudia Ferreira 
Investigadora no CEIS20

Luce Irigaray, filósofa nascida na Bélgica mas que em França faria os estudos mais significativos, bem como um percurso de pensamento no âmbito do feminismo, alerta para o facto, muito provável, de ser a “diferença sexual” a grande questão da nossa época e aquela que, a ser bem pensada, pode salvar-nos. “Salvar-nos” como? Permitindo antever mundos de fecundidade que contrariam um  diagnóstico actual que Irigaray sintetiza da seguinte maneira: formas observáveis de destruição do universo; imposição de um niilismo sem outra afirmação que não seja a reversão de valores já existentes; a proliferação repetitiva desses valores reversos – sociedade de consumo, circularidade do discurso, a não fiabilidade das palavras; o fim da filosofia; o desespero religioso ou um recrudescimento da religiosidade; o imperialismo da tecnociência sem consideração pelo sujeito que vive; etc.

A defesa da “diferença sexual” por Luce Irigaray , pese embora, não se harmoniza com a concepção de “igualdade de género”: os seus pressupostos seguem uma linha diversa da “igualdade de género” já que esta acentua, por um lado, a igualdade – que colide com o conceito de “diferença”, considerando-o essencialista, por outro lado, com o género – que pese embora advogue pela existência de homens e de mulheres, toma-o/as sobretudo enquanto construções sociais e históricas, ressaltando um elemento de performatividade. O construtivismo que norteia a “igualdade de género” haveria de radicalizar-se e, em gestão imanente, fazer chegar a uma concepção de protecção dos direitos das consideradas “minorias”: lésbicas, gays, bissexuais, transgénero, etc., até chegar à sigla LGBTQIA+. Se a visão polarizada da identidade sexual, recrudescida pelos activismos relacionados com cada “grupo”, impôs na sociedade a consideração de que vivemos no tempo de uma guerra entre os sexos, também é certo que tal defesa de direitos particulares agrava uma característica bem vincada na sociedade contemporânea: a atomização. Apesar do discurso da defesa dos direitos supostamente se centrar no indivíduo, a verdade é que numa sociedade massificada cuja confusão é marca indubitável, essa intransigência tão peremptória e restrita, sem resgatar o comum do humano e sem pretender a fecundidade entre homem e mulher enquanto par que origina o nascimento, acabará por encaminhar para um individualismo sitiado que corrói, também, o horizonte democrático.

Tal corrosão é, por exemplo, vincada por Sylviane Agacinsky, filósofa francesa que prefere alertar-nos para a necessidade de uma urgente “política dos sexos”, vincando o sexo enquanto traço diferencial universal e nunca como característica particularizada. A consideração desta universalidade do sexo, por Agacinsky, é paralela ao “impoder” de que nos dá conta Jean-François Lyotard, vindo o sexo, então, como transcendência e como falha. Nesta medida, os corpos sexuados dos sujeitos abrem-se ao social, sim, mas não os fecham numa identidade estrita, como o pretende cada letra de LGBTQIA+.

É caso para nos perguntarmos: onde estão a nossa diferença e a nossa igualdade?

 

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