Opiniao

Tortura não é cultura

O medo ronda os taurinos e o odor da sudação começa a viajar pelo ar. Nunca os bilhetes de entrada estiveram num valor tão baixo, os convites distribuídos pelas Câmaras são aos milhares, mas as praças estão cada vez mais silenciosas. Não há interesse, não há vontade, apenas animais em sofrimento e vidas humanas perdidas, que se lamentam, em nome de uma cultura que não existe.

Tortura não é cultura

por Isabel Carmo
Deputada municipal do PAN (em regime de substituição)

É este um dos slogans mais ouvidos nas manifestações que se formam em frente à praça de touros do Campo Pequeno. Terminam com um minuto de silêncio e com manifestantes de costas voltadas para aquele que ainda hoje é o local da capital onde se permite a realização de atos bárbaros, medievais, injustificáveis num país que se diz evoluído, mas cuja mentalidade de alguns (já poucos, valha-nos isso), insiste em atrasar.

Por conta de interesses instalados por alguns velhos do Restelo há touros e cavalos, animais a quem a senciência é legal e cientificamente reconhecida, a serem vilipendiados à custa de apoios estatais e locais que todos suportamos. Em nome do quê ou com que legitimidade é uma pergunta cuja resposta falha. E voltou a falhar na Assembleia Municipal de Lisboa quando o Grupo Municipal do PAN apresentou um voto de protesto contra a realização de eventos tauromáquicos, tendo defendido que Lisboa deve ser elevada a cidade antitaurina, seguindo o bom exemplo de Viana do Castelo ou Póvoa do Varzim.

O voto foi chumbado após acesa discussão dos grupos municipais que dividiram opiniões e levaram a convites dissimulados para idas estratégicas à casa de banho evitando que a votação fosse influenciada por aqueles que, mais à direita ou mais à esquerda, e à margem da ideologia dos seus partidos ou coligações, são contra a realização de touradas. Para rematar, não fosse o voto de protesto ser aprovado, não se permitiu a votação nominal sem disciplina de voto para algumas bancadas. O receio e o nervosismo impregnaram a sala, não fosse a contagem dos votos dar para o torto e ainda tínhamos uma Lisboa livre de sofrimento animal.

Resultado da sondagem de 2018 da Universidade Católica: desde 2006, 89% dos lisboetas nunca assistiu a uma tourada no Campo Pequeno; 75% dos inquiridos manifestaram-se contra o seu financiamento público; 69% não concorda com a promoção de touradas. Onde reside, afinal, a identidade cultural da cidade fundamentada na tauromaquia que meia dúzia de desesperados advogam? Não devem os autarcas devem representar a vontade dos munícipes que os elegeram?

O Comité dos Direitos das Crianças das Nações Unidas já há muito instou Portugal a afastar crianças e jovens do que classificou ser a violência das touradas, mas nos cartazes freneticamente espalhados, a informação de «espetáculo que pode ferir a suscetibilidade dos espetadores» resume-se a uma nota de rodapé quase impercetível.

O medo ronda os taurinos e o odor da sudação começa a viajar pelo ar. Nunca os bilhetes de entrada estiveram num valor tão baixo, os convites distribuídos pelas Câmaras são aos milhares, mas as praças estão cada vez mais silenciosas. Não há interesse, não há vontade, apenas animais em sofrimento e vidas humanas perdidas, que se lamentam, em nome de uma cultura que não existe.

Cultura é sinónimo de cuidar e crescer, no sentido evolutivo, conceito antagónico à prática tauromáquica. Ainda que não o fosse, não poderia ser interpretado como um conceito absoluto, devendo ceder perante outros interesses como o interesse superior de seres vivos – o interesse à vida, à integridade física, à liberdade, à família. Já fundamentalismo é sinónimo de defesa de práticas radicais e violentas, de rejeição da modernidade, as quais o PAN nunca defendeu nem se revê.

Até quando a mentalidade de alguns vai conseguir atrasar a história de todos?

Tortura não é cultura.

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