Internacional

China-Taiwan. Um equilíbrio delicado que Pelosi pode ter posto em risco

Os EUA e a China estão há décadas num jogo perigoso, com a Casa Branca a apoiar Taiwan na prática, mas sem reconhecer a sua independência.


O Pentágono pediu-lhe que não fosse, Joe Biden encolheu os ombros, algo preocupado, mas Nancy Pelosi insistiu em ir a Taiwan, inflamando ainda mais a tensão no Mar da China. Ainda que comentadores chineses de linha dura, como Hu Xijin, colunista do jornal estatal Global Times, tenham sugerido que militares abatessem o avião da presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, a visita terminou sem nenhum incidente que desencadeasse uma guerra entre as duas maiores potências mundiais. Mas a China fez questão de fletir os músculos, com uma série de exercícios navais com fogo real em torno de Taiwan, chegando a colocar tanques anfíbios na praia, prontos a invadir. Agora, esse risco parece ainda mais presente, num território com 23 milhões de habitantes, onde grupos de cidadãos se reúnem recorrentemente para se preparar para a guerra. Sobretudo desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, mostrando como velhas reivindicações nacionalistas são perigosas, e que conflitos congelados podem muito rapidamente aquecer.

Se a Ucrânia, antiga república soviética, sempre foi o foco dos sonhos de conquista de Vladimir Putin, a reunificação da China com a tomada de Taiwan poderia ser visto como o equivalente aos olhos de Xi Jinping. A autonomia de Taiwan, último reduto dos nacionalistas derrotados por Mao Tsé-Tung, sempre foi um insulto para o Partido Comunista da China, incapaz de se esquecer que este território estava ali à mão de semear, a uns meros 130km da sua costa.

A ameaça às vezes aumenta, outras vezes diminuí, consoante o Governo de Taipei seja mais avesso ou não a Pequim, ou caso outros países estendam a mão a Taiwan – a China sempre pressionou qualquer país que reconheça Taiwan, algo que só 13 estados arriscaram – como fizeram agora os EUA através de Pelosi. No entanto, trata-se de um risco constante. E se a guerra na Ucrânia gerou impacto pelo mundo fora, é difícil imaginar o que significaria uma invasão de Taiwan, que soube tornar-se num peso pesado da indústria de chips, cruciais para toda a produção eletrónica moderna. Tendo a secretária do Comércio dos Estados Unidos, Gina Raimondo, admitido no mês passado à CNBC que se houvesse uma quebra no fornecimento vindo de Taiwan, que produz uns 90% dos chips mais avançados, o resultado seria uma “rápida e imediata recessão”.

 

Equilíbrio delicado

A insistência de Pelosi em ir a Taiwan trouxe à memória a única visita de um Presidente americano a este território. Na altura, o regime chinês também não gostou, recorrendo a bombardear as ilhas Kinmen, um pequeno arquipélago governado por Taiwan, quando Dwight Eisenhower aterrou em Taipei, em junho de 1960. O Presidente seria recebido por multidões entusiasmadas, antes de se encontrar com o “generalíssimo”, Chiang Kai-shek.

Onze anos antes, este general nacionalista, que chegou a governar toda a China, finalmente se apercebera que o massacre dos comunistas chineses, seus antigos aliados, em 1927, lhe ia custar o poder. Xangai já caíra, bem como Nanquim, a então capital, levando as forças de Kai-she, centradas no sul da China, a embarcar para Taiwan, antes que Mao Tsé-Tung lá chegasse. Ao longo do ano seguinte os comunistas, muito superiores militarmente aos nacionalistas, mas sem uma marinha digna de nota, dedicaram-se a preparar uma invasão. Mas os seus aliados da Coreia do Norte decidiram invadir o sul, distraindo Pequim e levando o Presidente americano, Harry Truman, a intervir na Coreia, ao mesmo tempo que colocava navios no estreito de Taiwan, fechando a janela de oportunidade para uma invasão.

Seguiram-se décadas de tensão, tendo os Estados Unidos colocado-se como protetor de Taiwan, sobretudo com a liderança de Eisenhower. Este Presidente “acreditava firmemente na teoria do dominó. Ele visitou Taiwan para mostrar a determinação da América em defendê-la”, explicou Miles Yu, professor de história da marinha americana, na academia militar de Annapolis, ao Washington Post. Lembrando que, ao longo da Guerra Fria, Taiwan esteve no centro das inúmeras guerras por procuração americanas no Sudeste Asiático. Já o líder soviético, Nikita Khrushchev, estava aterrorizado com a possibilidade que eclodisse uma guerra mundial em Taiwan, chegando a confrontar Mao, exigindo que não avançasse e recusando-se a prometer proteger a China com as suas armas nucleares. Para frustração do regime chinês, que então decidiu iniciar o seu próprio programa nuclear.

O cenário mudaria completamente com o cismo sino-soviético e a aproximação de Pequim a Washington. Ao reatar relações, os EUA finalmente reconheceram o regime comunista como legítimo Governo chinês, não Taipei. Começou um estranho jogo, em que a Casa Branca dizia publicamente não ver Taiwan como sendo independente, ao mesmo tempo que, na prática, fazia tudo para que fosse.

Trata-se de um equilíbrio ténue, que a visita de Pelosi pode ter perturbado, suscitando fortes críticas. A dirigente democrata “só aumentou a confusão quanto à política dos EUA em relação tanto à China como a Taiwan”, escreveu Mike Chinoy, investigador do US-China Institute, da Universidade do Sul da Califórnia, num artigo de opinião no Economist.

Chinoy fez questão de recordar como, quando era jornalista da CNN, em 1991, foi detido pelas autoridades chinesas por causa de Pelosi. Assessores da congressista informaram-no que, quanto esta estava numa visita a Pequim, pretendia escapar aos seus chaperones chineses. “O que não nos foi dito foi que o plano dela era, com as câmaras a rolar, erguer bandeiras e colocar flores para comemorar os estudantes mortos” no massacre da Praça Tiananmen, dois anos antes, contou. Quando a congressista arrancou de carro, deixou para trás os repórteres, bem como polícias chineses, furiosos, que se vingaram detendo e brutalizando quem agarraram, incluindo Chinoy.

Então, como agora, notou-se a propensão de Pelosi “para gestos de alta visibilidade, pensados para pôr o dedo no olho dos governantes comunistas da China – independentemente das consequências”, considerou o antigo jornalista. Ainda para mais, sendo esta uma altura particularmente perigosa para provocar a China, apontam analistas.

Afinal, Xi, amplamente considerado o mais poderoso líder chinês desde Mao, está prestes a entrar no seu terceiro mandato, tendo “abraçado um nacionalismo muito agressivo, fazendo da reunificação com Taiwan um objetivo crucial”, frisou Jeremy Page, o correspondente diplomático do Economist para a Ásia. E, aos 69 anos, o Presidente chinês sabe que pode não ter muito mais tempo para pensar no seu legado. E que marca maior poderia Xi deixar na história do que ser o líder que finalmente pôs fim àquilo que vê como a sua maior humilhação, finalmente reunificando a China?

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