Política a sério

Portugal e a pobreza das nações

Ora, os países do Norte da Europa não serão com certeza mais desenvolvidos por terem tido todos, por coincidência, bons governos; inversamente, os do Sul não serão certamente mais atrasados por terem tido, por azar, sempre maus governos ao longo do tempo. A conclusão é óbvia: o desenvolvimento dos países tem que ver com os povos e não com os governos.


Um dia, em conversa a sós com um primeiro-ministro, este disse-me convictamente: «Não há nenhuma razão para nós não sermos um país desenvolvido como a Alemanha».

Fiquei estupefacto.

Há muitos anos que tinha sobre o assunto uma ideia definida – e diametralmente oposta.

E disse-lhe:

«Está completamente enganado. Se olhar para o Norte da Europa – Noruega, Suécia, Dinamarca – os países têm mais ou menos o mesmo desenvolvimento; se olhar para o Centro da Europa – França, Alemanha, Norte de Itália – acontece o mesmo; e se olhar para o Sul – Portugal, sul de Espanha, sul de Itália, Grécia – sucede a mesma coisa.

E, em África, o fenómeno mantém-se: quando caminha de Norte para Sul, da Argélia ou do Egipto para a África negra, a pobreza vai aumentando».

Não sei se ele ficou convencido, mas o argumento não admitia contestação: era perfeitamente objetivo.

Ora, os países do Norte da Europa não serão com certeza mais desenvolvidos por terem tido todos, por coincidência, bons governos; inversamente, os do Sul não serão certamente mais atrasados por terem tido, por azar, sempre maus governos ao longo do tempo.

A conclusão é óbvia: o desenvolvimento dos países tem que ver com os povos e não com os governos.

E não é preciso ir à Geografia para chegar a esta conclusão.

Se formos à História, constatamos o mesmo.

De 1820 para cá, para não recuarmos mais, Portugal teve vários tipos de regime e diferentes tipos de governo.

Teve uma monarquia constitucional, teve a 1.ª República maçónica, teve o Estado Novo, tem agora a 2.ª República.

Foram situações políticas muito diversas.

A Monarquia Constitucional era um regime parlamentar em que o poder moderador do Rei era limitado; a 1.ª República replicou o mesmo modelo, pondo no lugar do Rei um Presidente eleito; o Estado Novo rompeu com o modelo, diminuindo o poder do Parlamento e reforçando o poder executivo, potenciado por uma ditadura; a 2.ª República voltou aproximadamente ao padrão da 1.ª, embora limando alguns dos seus defeitos: como o enorme envolvimento dos militares na política e o anticlericalismo feroz.

Ora, apesar de todas estas mudanças, os problemas do país são hoje muito semelhantes ao que eram há dois séculos.

Alguns textos políticos da altura parecem escritos hoje.

Oliveira Martins, que foi ministro das Finanças de D. Carlos, dizia: «Sem privações cruéis não saímos da cepa torta».

No tempo da 1.ª República, Afonso Costa voltou a dizer o mesmo quando quis endireitar as finanças.

Salazar disse-o mil vezes, depois de assumir a mesma pasta.

Mário Soares idem aspas, falando em «apertar o cinto».

Durão Barroso disse que Portugal estava «de tanga».

E Passos Coelho invocou a «dívida colossal», tendo de governar com a troika.

Ou seja, passaram os regimes, passaram os governos, e os problemas do país permaneceram.

Repito: a pobreza e a riqueza das nações têm que ver com os povos e não com os governos.

Os governos podem atenuar os defeitos do povo ou potenciá-los durante um período, mas não podem mudar a sua natureza.

Podemos mesmo dizer – numa perspetiva de mais longo prazo – que é um pouco indiferente um país ter este ou aquele governo.

Salazar foi o primeiro-ministro que mais rompeu com a trajetória que o país vinha a seguir desde o constitucionalismo, mas depois de morrer voltámos basicamente ao mesmo – para o bem e para o mal.

O meu pai contava uma história engraçada de uma viagem que fez a Israel, à zona dos colonatos.

Quando passava por um local onde estava tudo arranjadinho, a casa pintada, o exterior arrumado e cuidado, o terreno cultivado, já sabia que era a propriedade de um judeu; quando, pelo contrário, via tudo com ar desmazelado, a casa por pintar ou com a pintura estragada, as coisas desarrumadas cá fora, já sabia tratar-se de um árabe.

O contraste era tão vivo que não oferecia dúvidas a ninguém.

Não custa assim perceber por que razão Israel é um país rico e os países que o rodeiam são pobres.

Cada povo tem as suas características, e o erro é pensar que todos são iguais.

Nós não podemos querer ser como os nórdicos, tal como os nórdicos não podem querer ser como nós.

E não temos de os invejar: se tivéssemos algumas das suas qualidades, não teríamos certamente algumas das características que nos distinguem positivamente, como a capacidade inventiva e o gosto pela vida.

Há um ditado português que resume bem a situação: não é possível ter ‘sol na eira e chuva no nabal’.

Ou uma coisa ou outra.

Pensar que Portugal pode ser como a Alemanha é uma ingenuidade.

Só se, por um golpe de magia, de um dia para o outro os portugueses fossem todos substituídos por alemães.

E mesmo assim era preciso que eles se adaptassem ao nosso clima e ao nosso meio físico, sem mudarem o seu modo de ser…

Os comentários estão desactivados.