Opiniao

Debilidades desta democracia: autoritarismo e desigualdades!

Em suma, NRS mexeu com o estado geral de adormecimento estival a que o PS votou a sociedade portuguesa e, apenas por isso, a Endesa irá sofrer consequências comerciais. O esquerdismo deste PS veio ao de cima, com aplausos frenéticos dos radicais que defendem uma economia estatizada, passando a mensagem de que as empresas terão de ser submissas e jamais fazerem ondas que possam alertar o povo para realidades que serão incontornáveis. 

Debilidades desta democracia: autoritarismo e desigualdades!

1. Muito se falou esta semana da Endesa, a partir de uma entrevista do seu CEO Nuno Ribeiro da Silva (NRS) em que este, talvez precipitadamente, anunciou uma subida de cerca de 40% no preço da energia, no muito curto prazo (referindo até o mês de agosto para a sua concretização). Esta entrevista pareceu uma acendalha, tal a tempestade comunicacional de contornos surreais que desencadeou, com direta intervenção do primeiro-ministro António Costa, ávido de dar uma lição a ‘especuladores’, num momento super conturbado da economia portuguesa, a enfrentar um cenário de inflação de 9,1% e aterrada com a potencial subida de taxas de juro.

Segundo o jornal Inevitável, NRS terá avisado o secretário de Estado João Galamba de que iria dar a entrevista e terá expressamente referido que o tema do aumento do preço da energia seria assunto. Os detalhes posteriores desconhecemos, mas indubitavelmente sabemos que Galamba foi ‘promovido’, passando a ‘picar’ as faturas da Endesa nas suas múltiplas relações contratuais com o Estado, seguramente como ‘prémio’ da sua inércia, ao ter sido incapaz de evitar o alarmismo que essa entrevista provocou.

Agora, a Endesa já sabe o que a espera na sequência da ‘língua comprida’ de NRS: dificuldades comerciais em toda a linha! No Estado, onde se negoceiam grandes contratos, irão suceder-se os concursos públicos para aferição regular de preços, leia-se ‘substituir a Endesa’! Os particulares irão reter a ideia de que a Endesa será uma empresa especuladora e, seguramente, haverá contratos a serem rescindidos numa primeira oportunidade.

Mas, curiosamente, ninguém questiona o Governo de Costa e Galamba sobre qual será o comportamento dos preços da energia a curto prazo. Poucos terão a perceção de que existem estimativas a apontar para subidas significativas em setembro, quer em França (535€/MWh) quer na Alemanha (410,22€/MWh), enquanto Portugal e Espanha têm a ‘Lei travão’ que aponta para 150€/MWh, mas estando o nosso país dependente do gás para a produção de energia, é inevitável que venha a haver subidas de preços, mais cedo ou mais tarde (talvez, abril de 2023?).

Em suma, NRS mexeu com o estado geral de adormecimento estival a que o PS votou a sociedade portuguesa e, apenas por isso, a Endesa irá sofrer consequências comerciais. O esquerdismo deste PS veio ao de cima, com aplausos frenéticos dos radicais que defendem uma economia estatizada, passando a mensagem de que as empresas terão de ser submissas e jamais fazerem ondas que possam alertar o povo para realidades que serão incontornáveis. 

Uma pergunta final: com comportamentos destes, o PS quer mesmo atrair investidores estrangeiros? 

2. Muito se tem falado de assimetrias regionais, muito se tem discutido sobre desigualdades no nosso país, sobretudo entre o litoral e o interior, ou entre o Norte e o Sul. Todos conhecemos o país e aqueles que mais viajam dentro de Portugal têm essa evidência quando se deslocam, seja qual for a razão, existindo múltiplos estudos a corroborar essa realidade.

Desta vez, novamente a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMdS) apresenta um Estudo que considero particularmente relevante para uma melhor compreensão da realidade municipal portuguesa, designado ‘Territórios de Bem-Estar: Assimetrias nos municípios portugueses’. Indiscutível que uma leitura atenta deste trabalho permitirá futuras análises, a efetuar pelas autarquias, por forma a que, partindo das carências agora identificadas, se possam fazer correções, de acordo com as necessidades do bem-estar.

Algumas das conclusões apresentadas são bem interessantes. Por exemplo, mais de metade da população portuguesa reside em 30 municípios de Portugal continental, num total de 278 municípios. Logo aqui se consubstancia uma realidade que tantas vezes tendemos a esquecer e que potencia perceções radicalmente diferentes de concelho para concelho, tal a diversidade de vivências. Isto conclui-se, no âmbito deste Estudo, quando se refere «o conceito de bem-estar não significa o mesmo para todas as pessoas, nem significa o mesmo em todos os lugares». 

Todos já sabíamos que o litoral e o interior do país são realidades diferentes. Mas, se calhar, não teríamos a perceção de que para além da fixação da população nas regiões litoral e centro, Portugal tivesse uma estrutura etária tão envelhecida, sendo que em 96% dos municípios existem mais idosos do que crianças. Ou que, mais de metade das famílias residentes em 28% dos municípios de Portugal continental se encontra em situação de pobreza.

Curiosamente, os seis concelhos de maior desenvolvimento, Lisboa, Porto, Coimbra, Alcochete, Oeiras e Cascais, que são classificados como territórios inovadores, dado terem níveis económicos mais semelhantes com a realidade europeia, são aqueles onde se encontram os maiores níveis de desigualdade entre as pessoas, não só de níveis de rendimento, mas também de perfis qualificacionais e onde existe uma elevada diversidade étnica. Estas clivagens relacionadas com ‘a precariedade, o desemprego, bem como os sistemas de segurança e proteção social’ suscitam questões a merecer urgente reflexão entre os autarcas destes municípios.

A finalizar, duas questões interessantes: (i) Os indicadores qualidade do ambiente e equilíbrio trabalho-família são as variáveis que a população portuguesa considerou mais importantes dentro da temática do bem-estar; e (ii) nos municípios mais desfavorecidos, apesar da remuneração ser mais baixa nestes territórios, as pessoas têm trabalhos estáveis, contrariamente ao que se vê nas grandes cidades.

A ver se o Estudo não cai em ‘saco-roto’. Não é a primeira vez que a FFMdS nos brinda com estudos de enorme valor acrescentado mas que só o serão se alguém pegar neles e atuar sobre as debilidades sociais assinaladas, com o intuito de as minimizar para termos uma sociedade menos desigual, mais justa.

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