Opiniao

Dr. Estêvão Moreira - Memórias de um professor

Fiquei muito a dever ao dr. Estêvão Moreira. As suas análises, as suas recomendações e os seus pareceres continuam a acompanhar-me na vida de todos os dias. Seria bom que esta nova geração também ouvisse os mais velhos. Na altura, os seus conselhos até podem parecer pouco relevantes; mas no fundo acabam por ser lições que ficam para toda a vida.

Dr. Estêvão Moreira - Memórias de um professor

Por Luís Paulino Pereira, Médico

Apesar de nos ter deixado há muitos anos, as pessoas mais velhas na cidade ainda se lembrarão dele. Professor da velha guarda do Liceu Nacional de Setúbal, onde lecionou História, Filosofia e foi reitor, ficou com o nome ligado não só à instituição mas também à cidade, onde deixou muitos amigos que o recordam com saudade. 
Comunicativo, bom conversador, amigo do seu amigo, atento aos problemas das pessoas, foi uma referência em Setúbal. Nunca tive a sorte de ser seu aluno, mas tive o privilégio de poder contar com a sua amizade sincera e duradoura. 

As suas aulas, de acordo com o relato de antigos alunos, eram qualquer coisa de extraordinário. Como pessoa inteligente, integrava histórias da vida real quando abordava um tema, prendendo logo a atenção daqueles a quem ensinava - metendo até pelo meio algumas graças sobre futebol, não escondendo ser um fervoroso adepto do Benfica.
 

Várias vezes fui por ele alertado para estar muito atento ao comportamento das pessoas e às reações fora do considerado ‘normal’, que eu iria encontrar na minha vida clínica. O caso que me relatou e que hoje estou a partilhar é disso um bom exemplo. Contava-me ele que um doente procurou um médico no seu consultório para ser observado. No final da consulta, o clínico acompanhou o paciente à porta de saída e, antes de a transpor, este descobriu uma ferradura num local mais ou menos escondido. Intrigado com a misteriosa descoberta, o doente confrontou o clínico: «Que engraçado… Não sabia que o senhor doutor acreditava em ferraduras…». Apanhado em flagrante, o profissional deu uma resposta curiosa: «Não acredito, mas elas dão sorte mesmo a quem não acredita nelas». 

Esta história, bem como a observação do dr. Estêvão Moreira, acompanharam-me ao longo da vida. Seria normal um profissional de saúde, homem da ciência, acreditar em ferraduras? Não. Haverá algum fundamento científico que possa explicar o facto? Também não. Então de que se tratava, afinal? De uma vulgar reação humana, concretamente de uma superstição. 

Esta história vem provar que, na nossa vida, há muitas vezes uma ‘ferradura’ mais ou menos escondida à qual não se é insensível. Os nossos medos, os nossos mitos, as nossas fobias e tantas outras ‘fraquezas humanas’ manifestam-se de modo independente do que é racional, científico e da formação profissional de cada um. 
Como me dizia Estêvão Moreira: «A mente humana é muito complexa e misteriosa. Daí termos todo o tipo de comportamentos e as mais variadas reações». E é bem verdade. Em Medicina encontramos inúmeras situações que, fugindo um pouco ao conceito clássico de ‘normalidade’, não têm qualquer importância do ponto de vista clínico. São as chamadas ‘variantes da normalidade’ - como acontece, por exemplo, nos problemas diagnosticados após terem sido feitos exames complementares, cujos termos técnicos expressos nos relatórios, que os doentes não percebem, lhes trazem ansiedade e confusão. Por mais que o médico os esclareça e tranquilize, fica sempre no seu espírito alguma dúvida e inquietação. É psicológico, é humano, é natural. 
Não é também muito comum pedir duas ou mais opiniões quando se tem uma sentença médica, apesar de se saber que isso nos pode lançar na confusão? Não é vulgar ir ler a bula que vem nas embalagens dos medicamentos e comparar aquilo que se lê com os sintomas que temos - para, no fim, tirarmos as nossas conclusões? Não é frequente andarmos por tudo e por nada a caminho dos centros de saúde ou das urgências hospitalares, tendo a consciência de que esse não é o procedimento correto?

Nas questões de saúde há que contar sempre com as reações humanas. É preciso descobrir onde está a ‘ferradura’ e procurar desmistificar a situação. Essa missão cabe ao médico, que tem nas mãos um desafio deveras aliciante. Quando um dia alguém pensar a sério numa reestruturação profunda do SNS, tem que ter presente o comportamento das pessoas e não ignorar essa realidade. Mais do que em qualquer outro setor, remodelações na saúde exigem muita prudência e o maior cuidado nas reformas que vai ser inevitável fazer.
Fiquei muito a dever ao dr. Estêvão Moreira. As suas análises, as suas recomendações e os seus pareceres continuam a acompanhar-me na vida de todos os dias. Seria bom que esta nova geração também ouvisse os mais velhos. Na altura, os seus conselhos até podem parecer pouco relevantes; mas no fundo acabam por ser lições que ficam para toda a vida.

Bem-haja, querido amigo, por esta lição de vida.
(À memória do dr. Estêvão Ferreira Moreira)
 

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