Opiniao

NO ResigNATION!

Setores como o turismo, sobretudo, mas também a saúde, a educação (ao nível básico, secundário e superior), a distribuição, os transportes (com grande ênfase para o setor da aviação), o comércio e vários outros tipos de serviços, estão a enfrentar uma enorme falta de mão de obra, que chega a colocar em causa a sua sustentabilidade.

NO ResigNATION!

Por Carla Magalhães, Diretora da Licenciatura em Gestão e Desenvolvimento de Recursos Humanos da Universidade Lusófona do Porto e Diretora da Unidade de Formação Avançada ao Longo da Vida - LUFAV.ULP 

Great Resignation, Striketober, Big Quit, Great Reshuffle, YOLO Economy, Lying Flat (Tang Ping, em Chinês) ou Grande Demissão… O que têm em comum todas estas expressões? A resposta a esta questão já existe há muito tempo, mas só agora, no seguimento da pandemia e do subsequente lockdown, que levou milhares de pessoas para um regime de layoff e/ou de teletrabalho, é que estes movimentos se salientaram (embora já se avistassem, no horizonte, há mais tempo), fruto da tomada de consciência e – mais do que isso – da coragem que milhares de trabalhadores, em todo o mundo, têm vindo a assumir como forma de protesto contra o seu contexto laboral, o que inclui fatores como o salário, mas também aspetos como a falta de conciliação entre a vida pessoal e profissional, razão pela qual modelos de trabalho mais híbridos têm vindo a ganhar protagonismo.

Com efeito, vários são os setores que estão a ressentir-se com estes movimentos e, em muitos países, a situação chega a ser insustentável. Em Portugal, apesar desta conjuntura não ser tão expressiva como nos Estados Unidos, Inglaterra, França ou Austrália, também já se sentem os efeitos deste ‘job hurricane’. Setores como o turismo, sobretudo, mas também a saúde, a educação (ao nível básico, secundário e superior), a distribuição, os transportes (com grande ênfase para o setor da aviação), o comércio e vários outros tipos de serviços, estão a enfrentar uma enorme falta de mão de obra, que chega a colocar em causa a sua sustentabilidade. Na verdade, as estimativas são alarmantes pois, de acordo com um estudo recente, realizado pela PwC, um em cada cinco trabalhadores, a nível mundial, planeia demitir-se em 2022.

Mas, será esta situação realmente negativa? Se calhar não! Com efeito, este movimento, traduzido por 5 Rs – reforma (antecipada), realocação (decrescente), reconsideração (do papel do trabalho na vida), reorganização (da carreira) e relutância (em trabalhar num local que não ofereça segurança) – deverá mostrar aos empregadores que as pessoas têm opção de escolha. E que essa opção deve ser vista como uma oportunidade para ambos os lados: uma oportunidade para crescer, evoluir, inovar. Parafraseando uma professora da Universidade de Washington – Elizabeth Haswell: «Quando obtemos o tenure (vulgo, estabilidade), é como a Síndrome de Estocolmo» que nos faz acreditar que devemos estar gratos pelo nosso emprego, seja ele qual for, mesmo que nos faça sentir insatisfeitos. Porém, com a pandemia, esse status quo foi abalado. É um facto que as pessoas procuram cada vez mais o seu bem-estar, tempo para a sua vida pessoal, reconhecimento pelo seu empenho, envolvimento emocional com o seu emprego e, acrescentando a isto, acreditam que podem encontrar mais e melhor. Sem dúvida, que um dos legados da pandemia, foi ter ajudado milhares de pessoas a questionar tudo isso e a perceber que é preciso mudar. 

Mudar mentalidades, mudar estratégias, mudar comportamentos! E- novamente aqui – por parte de ambos os lados – empregadores e empregados. Como? Transformando o oportunismo em oportunidade e o comodismo em comodidade. Talvez esta pandemia – que muito nos tirou – também nos possa dar esperança no que diz respeito a uma nova ordem laboral, que coloque o trabalho numa posição de complemento da vida pessoal, que nunca deve ser secundarizada, que coloque o mérito à frente da pequenez, que coloque a ética à frente do preconceito. Enfim... que coloque cada um no seu lugar, para que quando a dança das cadeiras chegar ao fim, tenha assento quem se atreveu a dizer: «Não! Não à resignação!».
 

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