Fundo? Estamos de novo a escavar para o atingir

A tese 'nave dos loucos' está a vencer

O despacho do primeiro-ministro, contra a Endesa, como castigo por declarações do seu presidente em Portugal, constitui um ato político deplorável que merece uma ampla censura


Parece que uma tempestade perfeita se abateu sobre um mundo que, ainda não refeito de uma pandemia agressiva e destruidora de riqueza e crescimento, está agora ameaçado com confrontos militares que não param de se multiplicar e de crescer pondo em causa o equilíbrio global que permitiu uma paz relativa nas ultimas décadas.

Começa a ser claro que, para lá da parte visível dos conflitos, de natureza económica ou de natureza política, está uma oposição violenta entre dois regimes alternativos da organização social: a autocracia e a democracia.

Neste confronto, a democracia encontra-se numa posição mais fragilizada pois obedece a regras e princípios que tornam as decisões, que se querem e exigem rápidas, mais difíceis e transitórias.

Mas, apesar de difícil, é uma luta que tem de ser ganha, pois só a vitória da democracia permitirá salvaguardar o património essencial dos direitos e das garantias dos cidadãos que integram o núcleo fundamental da Liberdade ou seja o objetivo final da intervenção humana.

Neste quadro é muito difícil compreender alguns comportamentos políticos e, sobretudo, muitas hesitações, que se manifestam no interior das principais democracias do espaço europeu.

Em vez de bom senso e determinação tem sido verificados, num número significativo de países, comportamentos erráticos, contraditórios e perigosos que se aproximam demasiado do ambiente vivido na ‘nave dos loucos’ da ficção cinematográfica.

A reconfiguração dos atuais equilíbrios políticos ou mesmo a sua alteração em virtude de eleições próximas, sendo o resultado normal do funcionamento democrático, podem significar, no atual contexto, um enfraquecimento significativo da capacidade de contribuir para uma saída desta crise que seja justa, digna e rápida.

Portugal não é, infelizmente, uma exceção a esta cegueira e os acontecimentos das últimas semanas demonstram que as nossas principais instituições, não sendo capazes de lutar por um lugar cimeiro nos índices de bem estar dos cidadãos e de progresso social e económico, não desistem de nos manter na linha da frente da irracionalidade, do egoísmo e da incompetência.

Todos os serviços públicos (com especial destaque para as áreas da justiça, da saúde e da educação) correm numa trajetória preocupante que acentua, progressivamente, a sua completa degradação.

As instituições políticas contribuem fortemente para o ambiente de ausência de transparência e escrutínio que se sente no país.

O nepotismo na utilização de cargos públicos e o favoritismo no acesso a ajudas financeiras são realidades que já ninguém se dá ao trabalho de disfarçar.

As pressões imorais, a roçar a ilegalidade, junto de agentes produtivos não ‘colaborantes ou domesticados’ criam uma imagem de país do terceiro mundo ou lembram outros tempos de que nos julgávamos libertos.

E também a estranha atitude do PR que promulga diplomas que considera mal elaborados e incapazes de concretizar os objetivos para que foram aprovados é incompreensível e perigosa.

Estes e muitos outros exemplos são os atributos mais recentes da nossa específica ‘Nave dos Loucos’.

A demorada discussão sobre a legitimidade ou, melhor dizendo, o dever de lançar um imposto (Windfall) sobre lucros extraordinários que provenham, de forma direta e facilmente escrutinável, de acontecimentos provocados pela guerra na Europa, é totalmente inaceitável face às dificuldades que serão brevemente sentidas pelos contribuintes europeus.
Mesmo com o assunto ‘arrumado’ em Espanha, país que, normalmente, orienta as nossas decisões de política económica, (como ainda recentemente se verificou com o setor da energia) Portugal continua sem orientação nesta matéria.

Apesar da importância estratégica e, sobretudo, moral desta medida, só se conhece uma abstrata declaração do PR, apelando à «responsabilidade social das empresas» como se esse não fosse o dever essencial das empresas em todos os casos e em todas as circunstâncias.

O despacho do primeiro-ministro, contra a Endesa, como castigo por declarações do seu presidente em Portugal, que transforma um secretário de Estado em amanuense verificador de faturas (com ou sem lápis atrás da orelha, não foi esclarecido) apesar de, aparentemente, estar a ser adocicado (um encore já visto) constitui um ato político deplorável que merece uma ampla censura até porque indicia o perigoso caminho que começa a trilhar a democracia portuguesa.

O Sr. Presidente da República perdeu, neste caso, uma excelente oportunidade para exercer o seu magistério de influência mas, em especial, para exercer a pedagogia, esclarecimento e transparência que a opinião pública reclama e lhe tem sido, sistematicamente, negada.

Num mundo onde se convive com crescentes e complexas dificuldades e que é dirigido atualmente com preocupante irracionalidade, o poder político português capricha e constrói com devoção e eficiência, às vezes com orgulho (!?!), a sua ‘Nave dos Loucos.

Até quando?

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