Sociedade

Família Xavier. "Nunca me meti nem dei conselhos aos meus filhos. Eles sabiam mais do que eu"

Carlos Xavier, o patriarca, jogou no Casa Pia e, apesar de ter sido sondado pelo Belenenses e pelo Braga, nunca quis ser profissional. Em 1957 foi para Moçambique, onde viu nascer os dois filhos gémeos, Carlos e Pedro. Com a família de volta a Lisboa, ambos se tornaram futebolistas, uma carreira que começou igualmente no Casa Pia, mas também passou pelo Sporting, Académica e pelo estrangeiro. Carlos jogou na Real Sociedad, Pedro no South China. Amantes da boa mesa, hoje trabalham no setor da restauração.

Família Xavier. "Nunca me meti nem dei conselhos aos meus filhos. Eles sabiam mais do que eu"

DR  


As paredes da sala da vivenda encontram-se literalmente forradas de pinturas. Algumas são de paisagens reconhecíveis, como a vila de Sines, com o castelo ao fundo, ou a ponte ‘romana’ de Tavira. Depois há naturezas-mortas, como os girassóis pendurados por cima da ombreira da porta. E muitos, muitos retratos. Foi tudo pintado por Maria do Céu, que a família trata por Babi. 

“O meu pai era militar e tinha sido colocado na Índia portuguesa. Onde eu nasci, em Damão, menina diz-se ‘bai’ e o meu irmão, quando me ouvia chorar, dizia: ‘Mamã, Babi está a chorar!’. E fiquei Babi”. Um dos quadros mostra os filhos, os gémeos Carlos e Pedro Xavier: Aqui tinham eles quatro anos. Sabe como é que foi feito? Eles a brincar no jardim e eu na varanda da casa: ‘Ó Carlitos, olha para mim! Pedro, olha para mim’. Não paravam quietos”.

Maria do Céu estudou na Ilha da Madeira, mas foi na escola António Arroio que aprendeu a desenhar e pintar. Não chegou a ir para Belas-Artes. Um dia, o pai respondeu a um anúncio no jornal em que se pedia uma desenhadora de tapeçarias e ela mandou uma maquete e foi aceite. “Trabalhei sete anos e meio em tapeçaria. Fiz os tapetes do Cinema Monumental”, orgulha-se.

Foi através do Casa Pia, onde ia ver os jogos para fazer companhia ao pai, que Babi conheceu o marido, Carlos Xavier. Ele tinha sido casapiano e jogava na equipa de futebol; o pai dela era diretor do clube. Carlos, o marido, hoje com 89 anos, chegou a defrontar Eusébio e ainda se recorda bem do jogo inaugural do estádio de Pina Manique, a 29 de agosto de 1954. “Neste momento só há dois vivos dessa equipa”, lamenta.

Cerca de 20 anos depois, seria também no Casa Pia que os filhos gémeos do casal, Pedro e Carlos Xavier, dariam os primeiros passos no futebol. Jogaram juntos nos juniores do Sporting, depois Carlos foi sénior em Alvalade, passou pela Académica e transferiu-se para a Real Sociedad. Pedro representou o Estoril, a Académica, o Estrela da Amadora e ainda passou três anos numa equipa do campeonato de Hong Kong.

Reunimos os três - pai e gémeos - à volta de uma mesa, com um álbum de fotografias antigas para reavivar as memórias. O ponto de partida foi, naturalmente, o Casa Pia, equipa que esta época regressou à 1.ª Liga após 83 anos nos escalões secundários. Babi ficou por perto e pontualmente também se juntou à conversa.

Que fotografias temos aqui?

Carlos Xavier Pai: Esta é pena estar tão pequenina. Foi a inauguração do Estádio de Pina Manique. [passa para outra] Esta é quando eu jogava no Benfica de Lourenço Marques.

Carlos: O Benfica não interessa para aqui!

Carlos Xavier Pai: Olha, aqui foi quando comecei a jogar nos juniores do Casa Pia. 

Passou pelos vários escalões?

Carlos Xavier Pai: Ainda era júnior e comecei a jogar nos seniores.

Porque jogava bem?

Jogava bem. Uma vez este ponta-de-lança [aponta para uma foto antiga], o Eurico Prates da Silva, deu uma entrevista e perguntaram-lhe quais eram os jogadores que mais admirava em Portugal. Sabe qual foi a resposta? ‘José Travassos e um júnior do meu clube’, que era eu. Veja lá como é que eu não jogava [risos]. Era melhor do que estes meninos… Dizem eles, eu não sei.

Viram o vosso pai jogar?

Carlos: Só na praia e futebol de salão, quando éramos miúdos. Acabaste de jogar em que ano?

Carlos Xavier Pai: No Casa Pia foi em 57, depois fui para Moçambique. Em 65, talvez… Ainda joguei contra o Eusébio. Eu jogava no Benfica [de Lourenço Marques] e ele no Sporting. Depois trocámos: ele era do Benfica, eu sou do Sporting.

O Eusébio na altura já era bom?

Carlos Xavier Pai: Não era bom, era muita bom. Nesse Benfica-Sporting ele devia ter uns 17 ou 18 anos. Tínhamos lá um chinesinho que era muito ‘carraça’ e o nosso treinador diz para ele: ‘Vais-te colar a ele, não o largas’. Não o largou. Chega o intervalo, 0-0. E o chinesinho: ‘Não aguento mais’. Estava estoirado. Levámos 4-1, o Eusébio marcou três. Era muito bom, era.

Recuando um bocadinho. Esteve na inauguração do estádio do Casa Pia.

Carlos: Neste momento só há dois vivos dessa equipa. Ele e o…

Carlos Xavier Pai: González. Só há dois vivos… Por enquanto.

Contra quem jogaram?

Carlos Xavier Pai: Houve três jogos na inauguração do campo. O Casa Pia jogou contra o Atlético. Nessa altura nem estávamos na primeira divisão e só podiam jogar no Casa Pia ex-alunos ou familiares de ex-alunos, que é o caso deles dois [aponta para os filhos]. Hoje vai ver a equipa e não há um só que tenha passado pela Casa Pia.

Carlos: Era como o Athletic Bilbao, que só aceita jogadores bascos. E a Real Sociedad também, até um certo tempo. Depois abriu aos de fora e foi assim que eu fui para lá.

Isso dava uma identidade especial à equipa?

Carlos Xavier Pai: Dava união. Alguns eram do mesmo tempo como alunos, outros já tinham saído, mas davam-se todos muito bem.

Carlos: E ajuda para haver respeito no grupo, porque conhecem-se todos.

Carlos Xavier Pai: Eu andei sete anos na Casa Pia de Lisboa, no colégio. Sabem onde é?

Pedro: Ali ao lado dos Jerónimos.

Carlos Xavier Pai: Quando eu queria estudar ia para os claustros dos Jerónimos, andava ali à volta a ler. Nos primeiros anos fui sempre careca, só no último ano, como finalista, é que nos deixavam crescer o cabelo.

Por causa dos piolhos?

Carlos Xavier Pai: Era uma questão de higiene. Só os finalistas é que tinham cabelo. Éramos 600, por isso está a ver…

Os casapianos são conhecidos como os gansos, não é? De onde vem esse nome?

Carlos Xavier Pai: Segundo consta, um brasileiro estava nos claustros do Jerónimos, na parte de cima, a olhar para o recreio cá em baixo, onde estavam os casapianos. Os miúdos estavam numa algazarra e ele disse: ‘Parece um grupo de gansos!’ Ficou daí.

E agora é especial para vocês ver o Casa Pia na primeira Liga?

Carlos: Sim, sim. Sobretudo pela história cá de casa. 

Carlos Xavier Pai: O meu sogro, pai daquela menina [vira a cabeça na direção de Maria do Céu], foi casapiano. Era diretor do Casa Pia quando eu jogava lá. E tinha a mania de levar as filhas ao futebol.

Pedro: Distraíste-te do jogo a olhar para a bancada… [risos]

Carlos Xavier Pai: Começámos a namorar em 52. Até hoje. Já lã vão 70 anos. E casámos em 58.

Carlos: O meu avô disse-lhe: ‘Se queres casar com a minha filha tens de vir para Moçambique’.

D. Maria do Céu: Há um pormenor. O meu pai queria que eu fosse ao Casa Pia vê-los jogar. E eu disse: ‘Só se me comprares uns sapatos de verniz’.

Pedro: Lá foste ver a bola de sapatos de verniz. [risos]

Foi em Moçambique que começaram a jogar futebol?

Carlos: Em Moçambique só me lembro de jogar basquete. Uma vez até perguntei ao meu pai se também jogava futebol lá, porque não me lembro. O basquete era o desporto em Moçambique.

Carlos Xavier Pai: Eles lá fizeram natação, hóquei, judo, ginástica…

Pedro: E natação.

Só não jogavam futebol…

Carlos Xavier Pai: Não havia futebol para miúdos. Só havia de juniores para cima. Juvenis, iniciados não havia.

Carlos: Futebol jogávamos na praia. E depois havia muito era torneios de mini-basquete.

Carlos Xavier Pai: No torneio da Coca-Cola de mini-basquete aconteceu uma situação engraçada. Eles tinham nove, dez anos. Para não haver muita diferença duns para os outros, algum jogador que marcasse vinte pontos tinha que sair. Este [aponta para Pedro] no primeiro jogo marcou vinte pontos. No segundo jogo chegou aos 18 e já não lançava ao cesto! Era sempre eu que os levava, mas houve uma vez que não consegui sair mais cedo do emprego. Fui buscá-los a casa e quando chegámos ao campo não vi treinador. Eles tinham dez anos, o treinador devia ter 14 ou 15… ‘Então o treinador?’. E um miúdo contou-me o que se tinha passado. O treinador tinha perguntado pelos gémeos mas ninguém sabia deles. ‘Ai não estão cá? Então vou-me embora, boa sorte!’. [risos]

Carlos: Era o torneio da Coca-Cola e o torneio da Milo. Acabavam os jogos e íamos para a fila beber chocolate geladinho…

Então só quando vêm de África é que começam a jogar à bola?

Pedro: Exatamente.

Carlos Xavier Pai: Agora conto eu a história. Eu fui para Moçambique em 57, casámos em 58 e depois estivemos 17 anos sem cá pôr os pés. Lá tínhamos um mês de férias, mas em vez de gozarmos o mês inteiro gozávamos 15 dias e os outros 15 dias dizia-se ‘acumula para a metrópole’. Acumulava 15 dias todos os anos e no fim vínhamos quatro meses. Viemos cá de férias em 74 - junho, julho, agosto, regressámos em setembro. Quando houve aqueles acontecimentos da guerra, em 74, o patrão da minha mulher, que tinha negócios com a agência de viagens Wagon-Lits Cook, disse: ‘As senhoras que queiram ir embora para a metrópole com as crianças venham falar comigo. A firma paga as viagens’. A minha mulher, a mãe dela, que vivia connosco, e os nossos três filhos vieram em fins de outubro. Eu fiquei lá. Na altura trabalhava na 2M, a companhia de cerveja e refrigerantes. Veio o Natal e fui ao meu chefe: ‘Vou gozar agora 15 dias de férias, agora no Natal, para ir ter com a família’. E ele: ‘Está bem’. Cheguei ao gerente da Wagon-Lits Cook, que era muito meu amigo: ‘Branco, arranja-me aí um bilhete uns dias antes do Natal para ir à metrópole’. E ele: ‘Ó Carlinhos, tás maluco! Em tempo normal, para o Natal as pessoas em maio junho já estavam a marcar passagens. Agora não consegues’. Cheguei ao emprego muito chateado, e uma colega percebeu: ‘Sr. Carlos Xavier, o que é que se passa?’. Estive-lhe a contar e ela disse-me que ia falar com um antigo colega nosso que tinha ido para a companhia de aviação de Moçambique. ‘Ele disse para aparecer às seis da manhã no aeroporto com a mala’. Sei que embarquei, se alguém ficou para trás não sei…

E já não voltou…

Carlos Xavier Pai: Mandei uma carta para o diretor a dizer: ‘Tenho muita pena mas já não volto’. Com três miúdos, a sogra e a minha mulher, tinha de arranjar emprego. Andei a bater à porta daqui, dali, dacolá. Nada. Até que vi um anúncio. ‘Precisa-se de contabilista para clube de futebol’. Fui para o Belenenses.

Carlos: E nós íamos ver muitos jogos.

Carlos Xavier Pai: Isto em janeiro de 75. Mais ou menos em maio-junho começavam os treinos de captação. Um dos treinadores dos miúdos também era funcionário do Belenenses, tinha sido árbitro, o Ilídio Cacho. E eu disse-lhe: ‘Vou trazer os meus rapazes’. Havia uma quantidade de miúdos e formaram duas equipas. Mas as equipas eram com aqueles que eles já conheciam do ano anterior. Ficaram uma quantidade de fora. Faltava aí um quarto de hora para acabar e o tipo pergunta: ‘Quem é que joga a defesa?’. Os miúdos puseram todos o dedo no ar. E estes lá entraram. Jogaram dez minutos, tocaram três ou quatro vezes na bola. Quando chega ao fim, eu vou ter com esse treinador: ‘Ó Cacho, como é que vocês querem saber se os rapazes jogam alguma coisa em dez minutos?’. ‘Os pais é que têm a mania que os filhos são bons’, diz-me ele. Acabou-se. Foram para o Casa Pia.

Então ainda estiveram para ir para o Belenenses.

Carlos: A gente nem sabia para onde ia, muito menos que íamos seguir carreira no futebol. 

Carlos Xavier Pai: Ao mesmo tempo jogavam andebol no Liceu S. João [do Estoril].

Carlos: E tínhamos uma grande equipa. Quando estávamos no Sporting nos juvenis, uma vez fiz-me de lesionado ao intervalo para ir jogar uma final do andebol do Liceu.

O vosso pai, tendo sido jogador, dava-vos muitas dicas?

Carlos Xavier Pai: O pai nunca se meteu. Havia pais que chegavam ao pé dos treinadores: ‘O meu filho é que bom’. Eu nunca intervinha.

Carlos: Não precisaste, éramos bons. Ao contrário, eu, por ter sido jogador, às vezes picava de mais o meu filho e ele ficava ainda mais atrofiado. Isso foi muito mau.

E conselhos, não lhes dava?

Carlos Xavier Pai: Eles sabiam mais do que eu!

Carlos: É uma escola diferente. O futebol entretanto evoluiu muito.

Carlos Xavier Pai: Quando eu comecei a jogar na primeira categoria do Casa Pia, uma vez que o Casa Pia foi a Santarém. Encontrámo-nos na estação do Rossio para apanhar o comboio. O defesa central, que mais tarde foi para o Oriental, faltou. Não havia substituições nessa altura, mas eles levavam sempre mais um, levaram-me a mim. O ponta de lança, o Prates - o tal que disse que gostava muito de mim e do Travassos - foi jogar a defesa central e eu joguei a ponta de lança. Demos 3-2, eu marquei dois golos. Nunca mais saí. Tinha 19 anos. Ainda podia jogar nos juniores mas comecei logo pelos seniores e fui por aí fora, até 57. Ainda tive dois falatórios - um com o Belenenses, outro com o Braga. Mas nunca quis seguir o profissionalismo.

Carlos: Era diferente naquela altura, quase todos os jogadores trabalhavam.

Carlos Xavier Pai: Sabes qual foi o maior prémio que apanhei no Casa Pia? Cem escudos! Hoje eram 50 cêntimos [risos]. Mas com esses cem escudos governava-me o mês inteiro. Como nunca fumei, não bebia, o Casa Pia dava cinco escudos para os transportes… 

Carlos Xavier Filho: Eu lembro-me, quando assinei pelo Sporting ganhava sete contos e 500 dava-me para tudo.

Sempre moraram aqui no Estoril?

Carlos Xavier Pai: Viemos para aqui em maio de 75, na altura das ocupações. Se havia casas vagas, as pessoas ocupavam. Então o dono desta casa, e de metade de S. João do Estoril, perguntou ao dono de um café lá em baixo ao pé da estação se conhecia alguém de confiança. Esse senhor do café era tio do Teles, que tinha sido meu colega na Casa Pia e meu vizinho em Moçambique. E o Teles lembrou-se: ‘O Xavier é que anda à procura de casa’. Vim cá falar com o dono. E a renda? ‘Sete contos’. Na altura eu ganhava seis ou sete e a minha mulher ganhava quase a mesma coisa. Era um bocado difícil. A gente estava numa casa muito pequenina…

Carlos: Na Lapa. Uma confusão. Era só autocarros a passar e elétricos. Em Moçambique não havia nada disso.

Pedro: Então juntámos aqui duas famílias.

Carlos Xavier Pai: A irmã da minha mulher e o marido também tinham três filhos. Nós, três filhos - ao todo, dez. Com a minha sogra, onze pessoas aqui em casa. Ficou mais barata a renda. Passado uns dois anos eles foram para as Caldas da Rainha, ficámos cá nós.

Tendo vindo de África foi difícil para vocês adaptarem-se?

Carlos: O pior foi aí na Lapa. Em Moçambique não havia televisão, não havia nada, tínhamos de ir para a rua, saímos de manhã e chegávamos à noite. Vivíamos numa vivenda perto da praia, íamos jogar futebol para a rua. Em Lisboa não podíamos ir para a rua. Mas depois viemos para aqui, era tudo descampado. Tínhamos aqui espaço para brincar, praia.

Sendo irmãos, ainda por cima gémeos, vocês combinavam muito os dois no futebol?

Carlos: Era o assobio. Ainda hoje funcionamos muito com o assobio. E eu já sabia onde ele estava. E a verdade é que fazíamos a diferença. Íamos sempre de comboio e de autocarro para os jogos, e o meu pai é que nos acordava. Uma vez adormeceu, chegámos atrasados ao jogo. O campo, no Pina Manique, era lá em cima - há o relvado e o pelado. A gente equipou-se, atravessámos o relvado, e alguém disse: ‘Lá vêm eles!’. A gente nem aquecia! Saem dois, entram estes dois [risos].

Carlos Xavier Pai: Uma vez vocês foram jogar andebol a Almada, eu levava o carro do tio João Luís, um Mini. Quando acabou o jogo de andebol foram para o carro, tiraram o equipamento do andebol, vestiram o equipamento do Casa Pia, quando chegaram ao campo também aconteceu uma coisa dessas. Já tinha começado o jogo, saem dois, entram dois.

As pessoas confundiam-vos?

Carlos: Uma vez um árbitro veio ter comigo e deu-me um amarelo. E eu: ‘A mim não, foi o meu irmão’. Depois foi ver: ‘Então há dois iguais?!’.

Ficavam meios confusos.

Carlos Xavier Pai: Quando o Carlos estava nos juvenis do Sporting, foi jogar a França.

Carlos: O Pedro ia às aulas por mim, porque eu já não podia faltar.

E os professores não davam por nada?

Pedro: Se calhar ainda hoje não sabem…

Por falar em cartões amarelos. Havia muita ‘sarrafada’ naquele tempo? Não havia as proteções que há hoje.

Carlos Xavier Pai: Tínhamos caneleiras. Mas as botas eram daquelas de travessas, só jogávamos de pitons quando estava tudo enlameado, para não se enterrar. 

Carlos: Quando fomos para o Casa Pia ainda apanhámos essas botas. As bolas também eram mais pesadas…

Carlos Xavier Pai: Havia só um gajo nos Olivais que era malandro como tudo. Mas tínhamos também um muito malandro, que era o Garção. O dos Olivais tinha a mania que era maluco. Esse Garção não sei se levava um prego ou um alfinete, e espetava-lhe. Havia uns assim malandrecos. Mas eram poucos. Eu, em sete anos, fui duas vezes expulso. Sabe porquê? Por refilar com o árbitro.

Carlos: Eu só fui uma vez, por sarrafada. Uma no Jaime Pacheco e outra no Sousa. Levei dois amarelos. No ano seguinte vieram os dois para o Sporting.

Pedro: Eu fui três vezes. Duas no banco. O árbitro estava a roubar, fiquei nervoso e gritava lá para dentro.

Carlos: Hoje em dia é mais difícil ser malandro porque as televisões apanham tudo. E depois há o VAR.

Mas no vosso tempo não havia. O que se passava em campo?

Carlos: Havia intimidação, ameaçavam o árbitro.

E entre os jogadores? Há aquelas provocações clássicas: ‘A tua mulher está com outro’ e coisas desse género.

Carlos: Depende. Era mais entre os do Benfica e do Porto, que nunca se deram muito bem. Mas eu tinha amigos do Porto, amigos do Benfica. Acabava o jogo e estava tudo bem. Até sou compadre do ‘bibota’, o Fernando Gomes. Quando ele veio para o Sporting dava-me muito com ele e convidou-me para ser padrinho do filho, o Martim.

Pedro: No meu tempo era mais com os brasileiros, armados em chico-espertos, e nós mandávamos bocas uns para os outros. 

Carlos: Mas era um jogo mais violento, havia entradas que hoje em dia davam expulsões. Valia tudo. Apanhei uma altura em que os gajos do Porto faziam o que queriam. E o árbitro só dizia assim: ‘Não levantem os braços. Podem-me chamar tudo, mas não levantem os braços!’.

Pedro: Era para não dar nas vistas. Lembram-se do [José] Pratas no Estrela da Amadora? Correram o campo todo atrás dele.

Carlos: Sempre tive muitos amigos do Porto, mas era o estádio onde gostava menos de jogar, sabia que ia sofrer. Era um ambiente sempre terrível. Houve um ano ou dois em que tivemos de equipar no corredor, punham aguardente no balneário, era um cheio a bagaço que não se podia… A gente quase que rezava para não ganhar lá.

Carlos Xavier Pai: Fui uma vez ao Porto quando eles jogavam os dois nos juniores do Sporting. Perderam 3-1. No fim, o autocarro deles ia-se embora, estava um casal para um rapazinho: ‘Dá aí as pedras, atira-lhes as pedras’. Tinham ganho e ainda iam atirar pedras.

O Carlos depois foi para Espanha. O futebol lá era diferente, mais competitivo?

Carlos: Era muito mais competitivo, muito mais equilibrado. Uma equipa pequena podia ganhar a uma grande. A gente [Real Sociedad] ganhou ao Barcelona, ao Real Madrid, ganhámos ao Valência. Não há aquela preocupação de ganhar um pontinho, a equipa pequena joga o jogo pelo jogo.

Carlos Xavier Pai: Sabe porque é que a filha do Pedro se chama Ágata Sofia? Nasceu no dia 21 de outubro. O Sporting estava a jogar em Sófia, e o Carlos marcou um golo. É Ágata Sofia porque o Carlos marcou um golo em Sófia.

Carlos: Imagina se fosse em Tiblíssi ou em Marraquexe [risos]

Carlos Xavier Pai: E o irmão, o Pedro, nasceu no mesmo dia que o Cristiano Ronaldo, 5 de fevereiro de 1985. Um deu para a bola o outro é professor de Matemática em Londres.

Os jogadores quando vão jogar fora veem alguma coisa das cidades ou só o estádio de futebol?

Carlos: Antigamente íamos na véspera ou dois dias antes, fazíamos uma visita à cidade, íamos às compras. E só regressávamos no dia a seguir, às vezes até dava para ir beber um copo, dar uma voltinha. Hoje já não há nada disso, é outro profissionalismo.

Pedro: Hoje fazem dois, três jogos por semana.

Carlos: Quando eu estava no Sporting, no final de temporada íamos jogar nos Estados Unidos, para os emigrantes. Fazíamos três ou quatro jogos, muitas vezes com o Marítimo, porque havia lá muitos madeirenses, em várias cidades. E saíamos à vontade. Houve um ano em que até fiquei lá de férias, com o Mário Jorge e o Oliveira. Fomos para Fort Lauderdale, na Florida. As viagens estavam pagas e aproveitámos e fomos ao Disney World.

E depois dos jogos, daquelas vitórias mais saborosas, dava direito a festa?

Carlos: Muitas vezes acabava o jogo e íamos jantar e beber um copo a qualquer lado, à Kapital ou ao Dock’s. Quando ganhávamos… Só um burro é que depois de uma derrota ia para a borga.

Quando deixaram de jogar juntos?

Carlos: Só jogámos juntos no Casa Pia, nos juniores do Sporting e na Académica. Houve um ano, 87, em que eu tive uma pega com o treinador, fui dispensado e escolhi a Académica. Depois regresso ao Sporting, vou para Espanha, e só voltámos a jogar os dois quando deixámos o futebol profissional, no futebol de praia. Fui eu que comecei o futebol de praia em Portugal. Ele tinha vindo de Hong Kong e juntou-se. Mas isso é mais uma brincadeira.

Carlos Xavier Pai: Esteve em Hong Kong e depois foi para a Grécia, mas na Grécia não chegou a jogar. 

Carlos: Foi de férias.

Pedro: Estava cansado.

E como era o campeonato de Hong Kong?

Pedro: Era um campeonato com dez equipas, onde jogavam muitos estrangeiros. Os chineses aprendiam connosco. No final de temporada iam lá todos: o Tottenham, o Arsenal… Ainda apanhei o Flamengo, com o Romário e o Edmundo.

O Animal?

Pedro: Animal dentro e fora do campo. Era um bicho! [risos] Eu em Hong Kong jogava com um brasileiro que era o Aurélio, que já tinha jogado comigo em Campo Maior. No Brasil ele tinha estado nos juniores do Vasco da Gama, e tinha ficado amigo do Romário e do Edmundo. Jogámos ali na fronteira com a China, em Shenzhen, depois voltámos para Hong Kong, fomos jantar e para a noite, para a borga. Foi para aí em 95, joguei até 98. Três anos muito bons. Há tempos apanhei no Pátio do Petisco [restaurante em Cascais onde trabalha] um casal a falar cantonês. Perguntei-lhes: ‘De onde é que são, de Hong Kong?’. ‘Sim, sim’. Comecei a falar com eles em cantonês.

Aprendeu a falar cantonês?

Pedro: Umas palavras, o vocabulário do futebol…

Como é o vocabulário do futebol?

Pedro: É o que não está no dicionário. [risos]

Daqui a pouco vão para a Feira do Artesanato do Estoril, onde têm um restaurante. Como passaram da bola para os tachos?

Carlos: Quando fui viver sozinho, com 20 anos, tive de começar a fazer comida. Também aprendi com a minha mãe e com a minha avó, que cozinhava muito bem. Depois fui viver para a região do mundo com mais restaurantes Michelin, que é o País Basco. Chegámos a ter um restaurante os dois em Cascais. Depois, como eu também gosto de golfe, tomei conta do restaurante da Beloura durante três anos, mas é uma prisão.

Pedro: É o que acontece agora com a feira. É das cinco da tarde à meia-noite. Somos obrigados a sair à meia-noite, mesmo que não esteja lá ninguém, a chover e com vento. Já estive lá de manhã a preparar. Só falta fazer o quê?

Carlos: Só falta cortar o pica-pau e fazer a sopa. Mas eu gosto. Sempre que vou a casa de amigos sou eu que cozinho. E quando estava no País Basco até punha a gravar programas de culinária de manhã e depois ia para o treino. Quando vinha do treino ia ver o programa, porque adoro comer e adoro cozinhar.

Carlos Xavier Pai: Eu só adoro comer, cozinhar não!

 

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