Cultura

Howard Carter e o amuleto de Tutankhamon

Carta agora revelada mostra que arqueólogo se apropriou ilegitimamente de artefacto do túmulo do jovem faraó. ‘Desde há muito que existem suspeitas sobre o comportamento de Carter’, diz a egiptóloga Inês Torres.

Howard Carter e o amuleto de Tutankhamon

Um livro publicado a propósito do centenário da descoberta do túmulo do faraó Tutankhamon, em 1922, revela que Howard Carter, o arqueólogo britânico responsável pela escavação, ter-se-á quase certamente apoderado ilegitimamente de alguns artefactos.

Em Tutankhamun and the Tomb that Changed the World Bob Brier reproduz uma carta inédita, e comprometedora, de Alan Gardiner, um especialista na tradução de hieróglifos, para Carter.

«O amuleto whm que me mostrou foi sem dúvida roubado do túmulo de Tutankhamon», escreveu Gardiner, depois de conferenciar com o diretor do Museu Egípcio do Cairo, o inglês Rex Engelbach. Antes, Carter havia negado ser essa a proveniência do pequeno objeto.

Contudo, as suspeitas já vinham de trás. Há muito que se dizia que o arqueólogo havia aberto o túmulo em segredo, voltando depois a selá-lo para a cerimónia oficial. «Em 1947, vários anos após a morte de Carter, Alfred Lucas, um dos poucos membros da equipa arqueológica que trabalhou no túmulo de Tutankhamon do princípio ao fim, escreveu um artigo onde indica que Carter teria entrado secretamente na câmara funerária do monarca egípcio logo após a sua descoberta», diz ao Nascer do SOL a egiptóloga Inês Torres, investigadora do Centro de Humanidades da FCSH, Universidade Nova de Lisboa e autora do livro Como é que a Esfinge Perdeu o Nariz? E outras curiosidades sobre o Antigo Egito (ed. Planeta). Essa incursão ter-lhe-ia dado oportunidade para retirar discretamente alguns artefactos.
«Howard Carter, paralelamente à sua actividade egiptológica, era um conhecido art dealer de antiguidades egípcias: na verdade, vários museus europeus e norte-americanos adquiriram peças egípcias para as suas coleções através de Carter, que também mantinha negócios com clientes privados», continua Inês Torres.

Um desses clientes era nem mais nem menos do que Calouste Gulbenkian, um apaixonado pelas antiguidades egípcias. No museu da fundação lisboeta, para onde está planeada este ano uma exposição comemorativa do centenário, podem ver-se vários objectos adquiridos por intermédio do arqueólogo inglês.

«Desde há muito que existem suspeitas sobre o comportamento de Carter, que era, de acordo com várias das pessoas que trabalharam com ele, um homem conflituoso e de comportamento irascível. Na verdade, a grande maioria dos indivíduos que compuseram a equipa arqueológica que escavou o túmulo de Tutankhamon tiveram, em diferentes momentos, problemas com Carter, o que levou à saída de vários elementos desta equipa original», explica a investigadora.

Inês Torres nota no entanto que Carter era também um arqueólogo altamente metódico, cuja «minúcia e atenção ao detalhe permitiram que a escavação do túmulo de Tutankhamon fosse uma das mais bem documentadas do princípio do século XX, o que nos permite hoje ter acesso a informação absolutamente crucial para a nossa interpretação do túmulo e dos artefactos aí depositados».

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