Opiniao

Economia e eleições em Angola

Portanto, pensar-se-ia que as eleições iriam ocorrer num ambiente de grave crise económica, quiçá de falência das finanças públicas do país, pois os alertas para a insustentabilidade das contas do Estado eram diários. O próprio Presidente da República tinha anunciado que havia encontrado os cofres vazios em 2017.

Economia e eleições em Angola

Por Rui Santos Verde, Associate Research, African Studies Centre, U. Oxford Diretor de Investigação do CEDESA[1]

Há um ano quando se preparavam as estratégias para as eleições em Angola, que vão ter lugar a 24 de agosto próximo, estava-se num quadro de crise. A economia angolana vivia uma recessão prolongada, segundo os dados do Banco Mundial desde 2016 que reduzia o PIB.

O preço do petróleo era manifestamente insuficiente para gerar receitas assinaláveis – oscilava perto dos 70 USD por barril, depois de ter andado nos 40 e 50 USD por barril –, a covid-19 ocupava as preocupações governamentais e o Fundo Monetário Internacional (FMI) tinha aterrado em Luanda com um dos seus restringentes programas.

Portanto, pensar-se-ia que as eleições iriam ocorrer num ambiente de grave crise económica, quiçá de falência das finanças públicas do país, pois os alertas para a insustentabilidade das contas do Estado eram diários. O próprio Presidente da República tinha anunciado que havia encontrado os cofres vazios em 2017.

Curiosamente, esta perceção negativa de há um ano ainda domina muitas das análises atuais, designadamente, as efetuadas na comunicação social portuguesa.

No entanto, do ponto de vista macroeconómico, a situação começou a mudar há uns meses. Hoje já não se pode falar em crise, mas em recuperação. De acordo, com as previsões mais recentes do FMI, a economia angolana este ano já crescerá uns 3%, enquanto, a dívida pública se reconduziu para patamares razoáveis, prevendo-se que em 2022 seja de 57,9%, e desça para 54,6% em 2023. Ao mesmo tempo a inflação dá sinais de começar a abrandar. Em julho, a inflação mensal de julho desacelerou em 0,03 pontos percentuais, para 0,81 por cento, representando a taxa mensal mais baixa do ano. 

Se os ‘fundamentais’ da economia angolana parecem estar a tornar-se sólidos, o programa de reformas pró-mercado e investimento foi outra constante do mandato de João Lourenço, ansiando-se que permita uma aceleração acentuada do crescimento.

O sucesso da política macroeconómica é bem traduzido por uma análise dos programas económicos dos dois principais partidos, publicada há uns dias, MakaAngola , de autoria do jovem economista liberal Yuri Quixina. De acordo com a análise de Quixina, não existem diferenças substanciais nos programas económicos dos dois principais partidos angolanos (MPLA e UNITA) ambos se propõem seguir uma trajetória de estabilidade e consolidação macroeconómica e apostam na economia de mercado, sendo que o partido do governo apresenta as propostas mais detalhadas e concretas, ficando a UNITA em afirmações mais generalistas.

Não quer isto dizer que a economia angolana esteja a funcionar na perfeição. Sobretudo ao nível da microeconomia e da vida concreta das populações, as notícias sobre fome e desemprego têm-se repetido ao longo do tempo com tons dramáticos, além dos impactos específicos da covid-19 e da guerra da Ucrânia, esta última, contudo, até ao momento, pouco sentida. 

No entanto, apesar disto, o que os números mais recentes indicam é uma viragem depois de anos francamente maus que geraram extremo descontentamento e uma forte adesão à oposição.

Além disso, a Angola, em termos geoestratégicos está a posicionar-se como um fornecedor misto de energias. Por um lado, tem o tradicional petróleo à disposição, tendo nos últimos meses ultrapassado e Nigéria como maior fornecedor petrolífero de África, mas por outro está a avançar para as energias renováveis, onde o país tem um enorme potencial. O recente anúncio de Joe Biden na Alemanha da implantação de sistemas de produção de energia fotovoltaica em Angola é um exemplo típico desse novo potencial encontrado em Angola, que a transforma como charneira energética.

Obviamente, neste quadro de transição para o crescimento económico e uma política energética mista ao serviço dos interesses globais, as eleições em Angola têm um especial interesse, pois a concretização do quadro que está desenhado é fundamental para a continuação de um processo que mal se iniciou e pode tropeçar a qualquer momento.

Números, desempenho da ministra e prestígio internacional da senhora, impactos da subida da cotação do petróleo, limites impostos a ação reformista e ao investimento pela baixa do mesmo, covid, guerra na Ucrânia e perspetivas abertas ao país como fornecedor europeu, necessidade de diversificação e autarcia alimentar...

[1] Este texto não representa a opinião, nem obriga nenhuma das instituições com que o autor colabora

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