Opiniao

Incêndios e polémicas a mais

A Saúde continua um caos, os casos de médicos e outros profissionais de saúde a pedirem «escusa de responsabilidade» são a ‘ponta do icebergue’. Faltam recursos no SNS e isto é objetivo. Não há política metida nessa realidade. Diversas especialidades médicas em centros hospitalares, sobretudo distritais, não estão disponíveis e o verão só veio demonstrar um problema para o qual não se antevê solução a curto prazo.

Incêndios e polémicas a mais

Neste verão, cheio de incêndios e reacendimentos para todos os (des)gostos, alguns casos vão acontecendo, sem lhes ser dada a relevância que os mesmos deveriam merecer, porque os media quase só falam mesmo das desgraças e revoltas que os incêndios legitimamente provocam, esquecendo, ou remetendo para segundo plano, outros casos que são igualmente importantes.

1. A Saúde continua um caos, os casos de médicos e outros profissionais de saúde a pedirem «escusa de responsabilidade» são a ‘ponta do icebergue’. Faltam recursos no SNS e isto é objetivo. Não há política metida nessa realidade. Diversas especialidades médicas em centros hospitalares, sobretudo distritais, não estão disponíveis e o verão só veio demonstrar um problema para o qual não se antevê solução a curto prazo.

O SNS terá agora um novo corpo de direção executiva, segundo notícias propaladas recentemente, quiçá para tentar coordenar diversos organismos a atuar, cada um para seu lado. Relembro que existem a DGS, as ARS (Administrações Regionais de Saúde) e as administrações hospitalares, todos sob a supervisão da ministra da Saúde. 

Reconheço que a ministra não terá funções executivas, mas entre ela e o seu gabinete não deveriam coordenar melhor quem a ela reportam? Fico um bocado estupefacto com esta situação porque me parece que acrescentar mais um órgão executivo ao que já existe, há sérios riscos da confusão aumentar.

Os artigos de especialistas sucedem-se, sobretudo dos que diariamente vivem na realidade do SNS e há claramente algo que sobressai: as questões a resolver são principalmente de organização em diversos hospitais. No entanto, nem todos serão assim, como é o caso do Hospital de S. João (Porto), reconhecido como exemplo, pelo que poderiam transpor o modelo para outros hospitais.

Será assim tão difícil ou existirão egos a sobreporem-se e as soluções óbvias esbarram nessas conflitualidades escusadas? Esta nova estrutura a criar conseguirá ultrapassar isso ou será mais um centro de custos (que não serão irrelevantes…) que os nossos impostos terão de suportar?

2. Sobre os incêndios, temos de falar nos incendiários. Dizem as notícias que mais de uma centena já terão sido presos, mas a pergunta fica: será que as penas serão dissuasoras, quaisquer que sejam as razões que os motivam (económicas ou patológicas)? Porque os prejuízos são incomensuráveis! Dizem que na Serra da Estrela arderam mais de 23 mil hectares. Isto é devastador, sob todos os pontos de vista. Quantos anos vão ser precisos para recuperar?

Todos perguntam: como evitar que estas situações ocorram? Não serei seguramente um especialista mas parece óbvia a inexistência de proteção suficiente às grandes matas e florestas, suscitando a questão: acabaram com os guardas florestais, que os havia e patrulhavam dia e noite, e substituíram por que solução (ou soluções)? Desconheço, sinceramente, mas sei que o problema subsiste e o erário público gasta atualmente muitos milhões de euros nestes combates e que tanta falta nos fazem. Há que arrepiar caminho, haja vontade para isso.

3. Verdadeiramente, qual a surpresa de sermos confrontados com a contratação de Sérgio Figueiredo por Fernando Medina? Nenhuma! Desde há anos que constatamos, nestes governos socialistas, as inúmeras relações de forte amizade entre diversos dos seus membros, sobretudo tendo António Costa como centro dessas amizades. Nalguns casos, as relações existentes nos gabinetes ministeriais foram ainda mais estreitas, dado envolverem familiares entre eles.

A lógica prevalecente aparenta sempre ser a confiança pessoal e política, o que sendo compreensível não será recomendável, porque gera a convicção que a competência é preterida em função daqueles valores de relacionamentos interpessoais. Há muito que se diz que ‘o que parece é’ e nestes casos, deveria haver cautelas redobradas, dadas as relações antecedentes - como neste caso em que ora agora, convido eu, ora agora convidas tu.

Neste caso, infelizmente, nunca ouvimos Medina justificar o convite a Sérgio Figueiredo, o que nem seria difícil, pela competência profissional demonstrada pela sua carreira. Uma explicação atempada, dada a relação pessoal de muitos anos entre ambos que não deveria ser inibitória dessa nomeação, teria, porventura, dado cabal esclarecimento que se exigia a um ministro que usa dinheirinho público para pagar aos seus consultores. Assim, Sérgio Figueiredo teve de limpar a face do amigo, recusando a nomeação, mas jamais desfazendo a polémica.

Foi apenas mais um caso, entre muitos que são conhecidos no PS que deixa transparecer que os seus apaniguados são privilegiados. Maria do Céu Antunes, a propósito de queixas da CAP sobre apoios, relembrou que responsáveis da CAP terão apelado ao voto «contra o PS». Se a ideia já existia, estes ‘lapsus linguae’ mais reforçam essas perceções de benefícios ‘inter-socialistas’, justa ou injustamente.

Mais surpreendente é a realidade dos ministros deste Governo PS dizerem ou fazerem o que lhes apetece, sem quaisquer consequências dada a (real ou aparente) permissividade do seu primeiro-ministro. Não foi apenas Medina a fazer essa nomeação sem dar prévio conhecimento a Costa. O episódio do aeroporto nunca mais será esquecido e Pedro Nuno Santos ficou com esse anátema colado (veremos se o tempo transforma este episódio numa medalha…). Céu Antunes também não foi prontamente demitida, porque lapsos deste calibre deveriam ter consequências e a oposição agora renovada não irá esquecer este conjunto de casos, todos com origem num Governo que sendo novo de escassos meses, parece demasiado envelhecido.

4. Falando de Oposição, parece que assistimos ao renascimento do PSD e à afirmação de uma IL, responsável e inovadora sob a liderança de Cotrim de Figueiredo. No Pontal, surgiu um PSD reconciliado consigo próprio (trazendo Passos Coelho justamente para a ribalta), incisivo no discurso de Luís Montenegro a sugerir medidas sociais por antecipação ao PS que julgava ter tempo para as anunciar em setembro.

Como sempre disse Marcelo, hoje inesperadamente colado, por sistema, ao Governo, sem que tantas vezes se perceba a razão: «O país tem de ter um Governo forte e, para isso, a oposição também tem de ser forte e ativa». Parece que a oposição o ouviu e Portugal, nestes momentos extremamente difíceis, só terá a ganhar, até porque PSD e IL parecem destinados a constituir uma nova AD no futuro.

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