Sociedade

Interior alentejano: um cantinho de história

Território de uma herança secular, o interior do Alentejo é um horizonte a perder de vista pontuado pelas marcas dos povos de ontem e de hoje. De Elvas a Beja, dos museus às igrejas, passando por entre muralhas ou de olhos postos nas aves nas margens do Guadiana, as opções para passar um verão sem a pressão dos ponteiros do relógio são muitas.


Além do Tejo, rumo à planície do ritmo lento, vê-se um sem fim de sobreiros e de pastagens em montado. Aqui e ali, igrejas, conventos e castelos que transpiram História. A maior região do país, que cobre cerca de 30% do território nacional, até praia tem. Mas aqui focamo-nos no seu interior, que é destino incontornável para devaneios e sabores, já que o Alentejo é também lugar de demoradas reuniões à volta da mesa, onde não podem faltar os azeites de Moura, os enchidos de Portalegre, as típicas migas ou ainda a sopa de cação. Depois, ao longo da Rota dos Vinhos, encontram-se adegas de portas abertas para receber enófilos e apreciadores.

Nos cerca de 26 mil quilómetros quadrados onde o mar não está à vista, parte-se ainda à descoberta de um legado secular de tradições e património. A norte de Portalegre, nas imediações da vila raiana de Castelo de Vide, no Alto Alentejo, ergue-se um monumento único. O menir da Meada, o maior da Península Ibérica, com 7,52 metros de altura e um peso a rondar 18 toneladas, faz-nos recuar quase até ao sexto milénio antes de Cristo. Mas é na cidade de Évora que se esconde o Stonehenge português. O Cromeleque dos Almendres, com a sua quase centena de menires, é outro dos exemplos da herança megalítica do Alentejo.

Évora, a cidade museu

Não há passeio pelo Alentejo que não passe pela cidade-museu nomeada pela UNESCO como Património da Humanidade. Mantendo até hoje o seu charme tradicional em todo o centro histórico dentro de muralhas, Évora reúne em cada ruela de pedra vestígios de um passado de civilizações: celtas, romanos, árabes e cristãos.

Évora merece ser vista a pé e, vá por onde for, todos os caminhos vão dar à Praça do Giraldo que permanece um dos centros de atenções dos eborenses e dos turistas, onde os restaurantes e o comércio tradicional dão vida ao coração da cidade.

«No final do século XIII, a Praça Grande, hoje Praça do Giraldo, constituiu-se como o mais importante espaço urbano da Évora medieval, facto que permitiu à cidade consolidar uma única centralidade socio-económica, religiosa, política, administrativa e judicial, em tudo semelhante ao fórum romano que existira séculos antes na parte alta da cidade», descreve a Câmara Municipal de Évora.

É precisamente na direção da parte mais alta da cidade que se encontra a Sé, um dos cartões de visita de Évora e a maior catedral medieval do país. Outra paragem obrigatória é o Templo Romano, um dos mais visíveis símbolos da ocupação romana na cidade.

Além do casario branco, dos museus e das paisagens arqueológicas, há mais um lugar único por onde passar. A arrepiante Capela dos Ossos, numa das edificações da Igreja de São Francisco, é um espaço de exibição fúnebre. A sua mensagem, logo à entrada para os visitantes, é clara: «Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.»

Elvas, a chave do reino

Na raia, com Badajoz em espelho do outro lado, Elvas cresceu enclausurada em muralhas e fortificações. Onde outrora se movimentaram militares, artilharia de guerra e se travaram batalhas que marcaram a História de Portugal, hoje assiste-se a um movimento de massas causado por uma nova modalidade de turismo que cresce de ano para ano: o turismo militar. 

Nesta cidade-militar laureada pela UNESCO em 2012, o inexpugnável Forte da Graça, que resistiu a vários ataques inimigos, baixou as suas defesas para se tornar  num chamariz de visitantes. No exterior da cidade, é inevitável não contemplar o imponente Aqueduto da Amoreira, construído para resolver o problema de abastecimento de água à cidade, assim como o Forte de Santa Luzia, uma fortificação que garantiu valor estratégico para a cidade e que atualmente alberga um museu militar. 

Situada no Alto Alentejo, a 10 minutos da fronteira com Espanha, Elvas está reformada da atividade bélica mas ainda conserva marcas da sua importância estratégica enquanto «chave do reino», como ficou mais conhecida.

Nem só a artilharia chama os turistas. Plena de esplanadas, a Praça da República concentra a antiga catedral, a Casa da Cultura, além de cafés e restaurantes. Este é o ponto de partida para um passeio pelo centro histórico de Elvas que, este fim de semana, se vai transformar numa verdadeira capital da cultura popular catalã  para a 34.ª edição do Aplec, um festival que une as diversas expressões do folclore da Catalunha. Mais de 600 elementos de 34 grupos catalães vão animar as ruas da cidade. 

Para quem também procura provar a genuína e caseira gastronomia alentejana, o Pompílio é uma referência na restauração da região e além fronteiras, nomeadamente na vizinha Espanha.

Beja, a antiga Pax Julia

Durante anos, os espanhóis disputaram com Beja o título de Pax Julia. Com mais de 2500 anos de história, delimitada a leste pelo rio Guadiana, a cidade estende-se ao longo de uma extensa planície.

Um passeio pelas ruas mais antigas, num traçado quase labiríntico, é um mergulho na história, nas tradições e na cultura local.

Não muito longe do castelo, reconstruído no reinado de D. Dinis, merece destaque a Igreja da Misericórdia. Na renovada Praça da República, no Jardim do Bacalhau ou no Parque da Cidade, com amplos espaços verdes e esplanadas, toma-se o pulso aos hábitos da população local. Mas a oferta não se esgota aqui.

«Os visitantes procuram, sobretudo, os monumentos e museus, como o Museu Rainha Dona Leonor, o Núcleo Visigótico, o Museu do Sembrano, além da gastronomia e do enoturismo que é muito forte no concelho de Beja», detalha ao Nascer do SOL fonte da Câmara Municipal de Beja 

Segundo a autarquia, há também cada vez mais turistas  a procurar o sossego que a natureza tem para oferecer, optando por passeios pedestres, passeios de balão, passeios de bicicleta, kayak, entre outras atividades no meio rural. «E, mais recentemente com a abertura da Praia Fluvial de Cinco Reis, os turistas passaram a procurar este importante recurso.»

Contudo, a crescente procura que se tem registado no setor do turismo nos meses de verão tem posto a nu algumas dificuldades do município. «A pouco e pouco estamos a voltar à normalidade. Mas a grande dificuldade tem sido nos recursos humanos, o recrutamento para esta fase de pico tem sido muito difícil. Dos contactos que temos com os empresários do setor, esta tem sido uma das maiores dificuldades que nos tem sido reportada», lamenta a mesma fonte ao Nascer do SOL.

Mértola, a vila museu

No meio da paisagem rural do Baixo Alentejo, Mértola é um território com uma riqueza ímpar no contexto nacional. Com pouco mais de 1200 quilómetros quadrados de extensão e um povoado muito disperso, este concelho do distrito de Beja já foi poiso de várias civilizações, com destaque para o período romano, antiguidade tardia e período islâmico.

Na vila de Mértola, também apelidada de vila museu, os vestígios das diferentes civilizações que aqui assentaram está presente na malha urbana do centro histórico. Ao longo de mais de 40 anos de investigação arqueológica, foram descobertos inúmeros achados e sítios arqueológicos. Foi em resultado desse trabalho que ali cresceu um projeto de turismo cultural que conduziu à implementação de 14 núcleos museológicos, que convidam os visitantes a conhecer a história daquele lugar que, em 2016, foi inscrito na lista indicativa nacional a património mundial da UNESCO.

«Foram esses séculos de história multicultural que enriqueceram as tradições e cultura popular», conta ao Nascer do SOL fonte do Núcleo de Apoio à Economia Local e Turismo de Mértola, descrevendo aquele local como «um território da tecelagem tradicional das mantas de Mértola, da dieta mediterrânica, do cante alentejano, dos moirais e dos velhos mineiros».

A esta herança histórica e cultural alia-se biodiversidade, geologia e paisagem natural singulares. Mértola está inserida no Parque Natural do Vale do Guadiana, área integrada na rede nacional de áreas protegidas com cerca de 70 mil hectares e refúgio de espécies muito vulneráveis como o lince-ibérico, a águia-imperial-ibérica, a águia-real, a cegonha-preta, a abetarda, o sisão e outras. Com a missão de aliar o turismo à conservação da natureza, esta é considerada   uma zona propícia para atividades como o birdwatching (observação de aves).

Com uma média de 13.600 visitantes anuais, o concelho enche-se de vida no verão e este ano não é exceção. «O número de turistas e visitantes tem vindo a aumentar, chegamos quase a valores de 2019, o melhor ano turístico de sempre», revela fonte da autarquia.

Alqueva, o futuro

A história do Alentejo e o seu futuro passam por outro recurso vital: a água. A construção da barragem do Alqueva devolveu aos milhares que continuam a ficar num território tão envelhecido e árido a esperança no desenvolvimento da região. Aqui as praias fluviais, como por exemplo as de Monsaraz e da Amieira, proporcionam excelentes mergulhos e banhos de sol longe do mar. As marinas e as estruturas de apoio, o comércio, a restauração e o alojamento local são negócios crescentes, atraindo turistas nacionais e estrangeiros a esta parte interior do país.

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