Cultura

Coldplay. Oportunismo ou oportunidade de negócio?

Os mais de 200 mil bilhetes para as quatro datas voaram em poucas horas. Agora, há quem queira lucrar com o efeito Coldplay, através da revenda em mercados paralelos ou inflacionando preços de alojamentos.

Coldplay. Oportunismo ou oportunidade de negócio?

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A nove meses dos concertos dos Coldplay já praticamente não há alojamentos disponíveis em Coimbra. E os poucos que restam para as quatro datas apresentam preços inflacionados. Há quem já arrende um apartamento por cerca de três mil euros por uma noite, na semana em que decorre o evento.

Procurar um quarto nesta cidade para 17,18, 20 e 21 de maio é tarefa cada vez mais difícil. Fazendo uma pesquisa rápida nos principais motores de busca de alojamento em Portugal, percebe-se que os preços disparam e a disponibilidade é cada vez menor. Por exemplo, para a primeira data do concerto, a 17 de maio, os alojamentos já são escassos e na maioria dos casos já só existe apenas um quarto disponível.

Os preços arrancam nos 360 euros por noite, mas a maioria ronda os 400 euros. Depois surgem apartamentos que ultrapassam os mil euros. Por exemplo, um apartamento com um quarto e uma casa de banho está anunciado pelo valor de 1480 euros na primeira data do concerto. Contudo, esse mesmo apartamento surge depois anunciado por 2970 euros para dia 19, um dia antes da terceira data do concerto.

A diferença de preços é ainda mais notória quando se comparam os preços de alguns destes alojamentos de gestão particular fora das datas dos concertos no estádio de Coimbra. Para um outro apartamento com três quartos e duas casas de banho - em que as noites de 17 a 21 de maio rondam os 1250 euros -, nas semanas anteriores e imediatamente após a vinda dos Coldplay, os preços por noite baixam para os 120 euros. 

A especulação não se faz apenas sentir nos alojamentos locais e há tentativas de lucrar com a chegada da banda britânica noutros espaços. No Imovirtual anuncia-se o arrendamento por um dia de uma garagem fechada junto ao estádio, pelo valor de 300 euros.

“Arrenda-se garagem fechada para deixar carro junto ao estádio Cidade de Coimbra nos dias 17, 18, 20 e 21 de maio de 2023”, pode ler-se. E caso restassem dúvidas, o dono do espaço esclarece: “Para deixar o carro durante o concerto dos Coldplay.”

No que se refere à hotelaria - um dos setores que mais rapidamente sentiu o impacto da procura -, se pesquisar nos habituais motores de busca, como o Booking ou Trivago, não encontra quartos disponíveis para os dias dos quatro concertos. No entanto, se ligar para algumas unidades hoteleiras a disponibilidade pode ser diferente. Apesar de muitos hotéis já se encontrarem totalmente esgotados como é o caso do Hotel Astória ou do Ibis Coimbra Centro, no Hotel D. Luís, por exemplo, ainda existem quartos para os dias 17 e 18 e os preços rondam os 140 euros por noite. Já para os restantes dias já não aceitam reservas.

De acordo com o Notícias de Coimbra, no Hotel Quinta das Lágrimas, que está esgotado nos dias 17 e 19, ainda se conseguem alguns quartos para 18, 20 e 21 de maio. A estadia nos dias do concerto dos Coldplay custa entre 330 e 650 euros, em vez da tabela normal, que oscila entre os 200 e os 500 euros.

Face a tanta procura e pouca oferta, vários coimbrenses vão anunciando nas redes sociais que alugam a casa, o jardim, a garagem ou o carro para que os visitantes não tenham de dormir ao relento. 

Além dos concertos que se estendem naquela semana de maio, a edição de 2023 da Queima das Fitas de Coimbra também decorrerá entre 19 e 27 de maio, confirmou na sexta-feira a comissão organizadora. E é ainda esperado na cidade o arranque do Rally de Portugal. Apanhada de surpresa pela divulgação do concerto da banda de Chris Martin, a Câmara Municipal de Coimbra não confirma para já as datas da realização da prova.

Em comunicado, a autarquia referiu ainda que “está a trabalhar para que Coimbra seja palco de grandes concertos, atraindo deste modo milhares de visitantes à cidade”, acrescentando que as quatro datas dos espetáculos já esgotadas “são uma prova inequívoca desse caminho”.

Só em 2017 com a vinda do Papa Francisco a Fátima é que se assistiu a um fenómeno de aumento de preços como este. Na altura, uma casa de hóspedes no centro da cidade, propunha, numa página de reservas na internet, uma noite para dois adultos em “quarto duplo económico”, com estada em saco-cama, por 992 euros. Já outra unidade de apartamentos turísticos pedia dois mil euros por uma noite para dois adultos.

Os preços chegaram a ser 40 vezes superiores às tarifas praticadas fora do 13 de maio.

Inicialmente, os Coldplay tinham agendado apenas uma data, a 17 de maio de 2023 no estádio de Coimbra, mas a elevada procura de bilhetes, levou à marcação de uma segunda data, a 18 de maio, uma terceira, para dia 20 de maio, e uma quarta data, a 21 de maio.

A elevada procura de bilhetes provocou o congestionamento no acesso aos sites oficiais de venda, chegando a estar mais de 400 mil pessoas em espera, na plataforma Ticketline.

Segundo a presidente executiva da plataforma Ticketline, Ana Ribeiro, a procura por bilhetes para os concertos da banda britânica em Portugal atingiu um nível histórico, sem precedentes no país.

As filas para a compra de bilhetes denunciaram o frenesim para receber o grupo em Coimbra. E se um concerto já era motivo de entusiasmo, quatro ultrapassou todas as expectativas. E a corrida massiva e inédita para a compra dos bilhetes motivou o registo repentino de reclamações dirigidas às bilheteiras. 

Segundo o Portal da Queixa, já são “quase 70”, sendo que a See Tickets é a empresa que reúne 63% do total das queixas.

Segundo esta plataforma, já foram registadas “68 reclamações” dirigidas às bilheteiras. “A See Tickets é a entidade com maior volume de queixas (43), segue-se a Ticketline (23) e a Worten (2)”, lê-se na nota divulgada à imprensa.

Os consumidores reclamaram de vários problemas, todos relacionados com a compra de bilhetes. No caso da See Tickets, “a queixa principal está relacionada com o download/acesso aos bilhetes. Já com a Ticketline, o principal motivo de reclamação reporta-se às filas de espera virtuais”, esclarece o Portal da Queixa.

Em relação à Worten, foram registadas reclamações diferentes. Há conhecimento de um caso de “um consumidor, com mobilidade reduzida, que se queixa de não ter sido dada prioridade na fila e, um outro caso, que reclama da falta de bilhetes numa loja de Penafiel”.

Em apenas algumas horas, os 208 mil bilhetes que foram colocados à venda na manhã da passada quinta-feira para as quatro datas dos Coldplay em Coimbra voaram. Até ao momento, em Portugal, nenhuma banda tinha esgotado quatro estádios em Portugal de forma consecutiva. Apenas os Pink Floyd em 1994, os U2 em 2010 e Ed Sheeran em 2019 tinham conseguido a proeza de esgotar dois concertos em estádios portugueses. 

Neste tipo de eventos em que a procura é maior que a oferta, há muitos bilhetes que são comprados ao preço original para depois serem vendidos nos mercados paralelos por valores bem mais altos.

Horas depois de terem esgotado, já havia no mercado paralelo bilhetes à venda por 1400 euros. E a promotora do concerto, a Everything is New, já tinha dado “conhecimento às autoridades, nomeadamente à ASAE, da atividade ilegal de especulação”. A entidade está a investigar o fenómeno e poderá mesmo confiscar os bilhetes. 

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