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Liz Truss, a primeira-ministra que vai viver "o oposto de uma lua de mel"

Ganhou a corrida à liderança do Partido Conservador com 57% dos votos e é, a partir de hoje, a primeira-ministra do Reino Unido. No entanto, devido aos anos de pandemia, Truss não terá um mandato fácil.


Depois de 1140 dias a desempenhar funções enquanto primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson tem de dizer adeus ao número 10 da Downing Street e “entregar as chaves” a Liz Truss. “Agora é a altura de todos os conservadores apoiarem-na a 100%”, escreveu Boris Johnson na sua conta oficial do Twitter, após ter felicitado a atual ministra dos Negócios Estrangeiros que é sua sucessora na liderança do partido e do Governo pela vitória “conclusiva”. “Tem o plano certo para enfrentar a crise do custo de vida, unir o nosso partido e continuar o grande trabalho de unificação e nivelamento do nosso país”, esclareceu o dirigente cujo mandato termina oficialmente hoje.

Margaret Thatcher e Theresa May foram as únicas mulheres que ocuparam este cargo anteriormente, sendo que Mary Elizabeth Truss, de 47 anos, foi declarada, esta segunda-feira, vencedora da corrida à liderança do Partido Conservador com 81.236 votos (57%). O rival Rishi Sunak, antigo ministro das Finanças, obteve 60.399 (43%), isto é, uma diferença menor do que aquela que era indicada pelas sondagens. Pouco depois de o resultado ter sido dado a conhecer, a política - que já havia sido Subsecretária Parlamentar de Estado para Assistência do Departamento de Educação do governo britânico, de 2012 a 2014, antes de ser nomeada para o Gabinete do primeiro-ministro David Cameron como Secretária de Estado do Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais na remodelação do gabinete, em 2014 -, prometeu “um plano ousado para reduzir os impostos e fazer crescer a economia”.

“Irei apresentar medidas para combater a crise energética e aliviar as contas de eletricidade das pessoas, mas também resolver os problemas a longo prazo que temos sobre o fornecimento de energia”, declarou a nova líder dos ‘tories’ (conservadores), tendo adiantado que irá “utilizar todos os fantásticos talentos do Partido Conservador” para formar o novo Executivo inglês, cuja composição deverá começar a ser anunciada ainda esta terça-feira. Somente hoje a rainha Isabel II terá conhecimento oficial da demissão, reunindo-se com Boris Johnson, e indigitará Liz Truss. Ao contrário do que tem vindo a acontecer, as conversações terão lugar no Castelo de Balmoral, no norte da Escócia, e não no Palácio de Buckingham, devido aos problemas de mobilidade da monarca.

 

Quais são os planos de Truss?

Apesar de ter um currículo vasto, se ter formado em Oxford e trilhar uma carreira política aparentemente aclamada, a verdade é que não se avizinham tempos fáceis para Truss. E os órgãos de informação internacionais, principalmente os ingleses, não tardaram em analisar o futuro da recém-eleita primeira-ministra. A título de exemplo, a revista norte-americana The Atlantic, escreveu: “A covid-19 foi uma crise dominante nas manchetes. Truss deve enfrentar um este, mas também um leque vasto de outros problemas, incluindo a elevada inflação, a agitação trabalhista generalizada e as longas esperas por tratamento médico. Seja qual for o oposto de uma lua de mel, é isso que enfrentará”, observou, adjetivando o discurso de vitória da primeira-ministra como “chato e um cliché que lembrava mais a prosa estranha e sincera da ex-primeira-ministra Theresa May do que o discurso imediato do seu antecessor, o desajeitado e carismático Boris Johnson”. Contudo, curiosamente, a alcunha que já foi atribuída a Truss é “Thatcher 2.0”.

Já o inglês 5IF(VBSEJBO publicou, ao longo do dia de ontem, artigos de variados géneros, desde notícias até crónicas, refletindo acerca de temas como o das medidas que Truss implementará futuramente. Por exemplo, relativamente à vertente económica, o jornal redigiu que “a clara prioridade económica de Truss é cortar os impostos, uma medida que ela insiste que irá reiniciar uma economia estagnada e ajudar as pessoas com contas de energia crescentes”, sendo que “a equipa de Truss também cogitou a ideia de reduzir o IVA em 5%”.

Naquilo que diz respeito às alterações climáticas e à energia verde, a primeira-ministra que defendeu a permanência do Reino Unido na União Europeia e, posteriormente, disse apoiar o Brexit “enfatizou o seu compromisso” com esta área. A sua equipa garante até que se concentrará nas energias renováveis, mas alguns do ‘lado mais verde’ do partido conservador estão preocupados com as prioridades da dirigente. Em relação aos recursos marítimos, “quer ver um impulso para novas perfurações no Mar do Norte, e apoiou uma grande expansão da energia nuclear”, no entanto não abordou “os esforços para reduzir o consumo de energia, como subsidiar o isolamento das residências”.

Quando avançamos para a saúde e assistência social, compreendemos que não tem havido um escrutínio dos planos de Truss para o NHS (National Health System, o equivalente ao Sistema Nacional de Saúde) “especialmente devido à crise no serviço de saúde e à expectativa generalizada de que as coisas piorarão muito no inverno”. Entre as questões problemáticas apontadas, podemos evidenciar “os leitos hospitalares cheios de pessoas incapazes de aceder a assistência social”, tendo sido realçada a necessidade de Truss ter “um plano coerente” brevemente.

Já naquilo que concerne a imigração, Truss prometeu investir na “política de deportação de requerentes de asilo e outros imigrantes para o Ruanda e procurar outros países que os aceitem”, sendo que, no dia 16 de agosto, já mais de 150 mil refugiados de outros países africanos tinham sido encaminhados para aquele país. “Resta saber até que ponto isso é viável, ou se teria algum impacto no número de pessoas que cruzam o Canal por meios não oficiais, mesmo que alguns tenham partido”, nota o 5IF (VBSEJBO, acreditando que “é provável que Truss vincule qualquer falha na remoção de pessoas à jurisdição contínua do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos”.

“Truss é mais uma guerreira amadora da cultura do que uma aficionada obstinada, mantendo os fiéis ‘tories’ felizes. No entanto, se ela indicar Suella Braverman como secretária do Interior e Kemi Badenoch para a Educação, a temperatura pode subir consideravelmente”, foi salientado. “As questões da guerra cultural tendem a ser mais focadas na procura de debate e linhas divisórias políticas do que políticas reais, mas, particularmente, na educação podem levar a mudanças de abordagem, por exemplo, em direitos trans e liberdade de expressão”, foi elucidado antes da análise da política externa.

“A política externa mais ampla, provavelmente, será mais do mesmo. Então espere um apoio mais veemente à Ucrânia, além de gafes ocasionais, como a sua recente recusa em dizer se o presidente francês, Emmanuel Macron, um vizinho e próximo aliado, é um ‘amigo ou inimigo’”, terminando o The Guardian com “Truss deu muita importância ao protocolo da Irlanda do Norte (...) mas com tantas outros crises a enfrentar, e a disputa pela liderança terminada, Truss pode decidir que uma guerra comercial também não é aquilo de que ela precisa”. De acordo com informação disponibilizada online pela Comissão Europeia, este acordo, de 1998, “evita uma fronteira física entre a Irlanda e a Irlanda do Norte, permitindo, assim, o bom funcionamento da economia de toda a ilha e salvaguardando o Acordo de Sexta-Feira Santa (Acordo de Belfast) em todas as suas dimensões” e “garante a integridade do mercado único de mercadorias da UE, a par de todas as garantias que oferece no domínio da proteção dos consumidores, da proteção da saúde pública e animal e do combate à fraude e ao tráfico”.

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