Editorial Luz

À grande e à francesa

Uma das maiores figuras do PSG e o seu treinador não contiveram as gargalhadas após terem sido questionados sobre a possibilidade de a equipa optar por viajar de comboio em vez de utilizar aviões particulares em distâncias mais curtas.

À grande e à francesa

Em pleno regresso às aulas, o episódio protagonizado por Kylian Mbappé e Christophe Galtier na conferência de imprensa do jogo da primeira jornada da Liga dos Campeões frente à Juventus foi digno de dois colegas de carteira de escola.

Uma das maiores figuras do PSG e o seu treinador não contiveram as gargalhadas após terem sido questionados sobre a possibilidade de a equipa optar por viajar de comboio em vez de utilizar aviões particulares em distâncias mais curtas.

Face à atual crise energética na Europa, a sugestão partiu depois de uma deslocação Nantes-Paris (380 quilómetros) feita pelo campeão francês no avião particular da equipa após mais um jogo a contar para o campeonato. Confrontados com o facto de uma viagem destas demorar menos de duas horas de TGV – com a proposta de oferta do responsável a contemplar um TGV adaptado às necessidades do PSG -, os dois trocaram olhares, riram e, após recompor-se, Galtier usou a ironia para responder, pondo em cima da mesa a possibilidade de passar a viajar com os seus jogadores nos carros à vela que fazem sucesso nas praias francesas.

Dois meses depois do dramático aviso feito pela Organização não governamental (ONG) norte-americana Global Footprint Network, que no final de julho passado adiantou que a Humanidade esgotava naquele momento os recursos do planeta para este ano, passando desta forma a viver ‘a crédito’ nos últimos cinco meses de 2022, não foi de estranhar a chuva de críticas ao comportamento infantil da dupla. E mais: de acordo com dados disponibilizados na altura, se todos os humanos vivessem como os franceses, o ‘Overshoot Day’, ou seja, quando a pressão humana excede as capacidades regenerativas dos ecossistemas naturais, teria ocorrido ainda mais cedo, a 5 de maio de 2022.

Numa altura em que as medidas de combate à crise climática tomam proporções cada vez mais drásticas (França tornou-se, aliás, o primeiro país da Europa a banir anúncios a combustíveis fósseis), foi da cidade holandesa de Haarlem que chegou na última semana mais uma medida inédita. Nos arredores de Amesterdão, Haarlem será a primeira cidade no mundo a banir anúncios a carne em espaços públicos, já a partir de 2024. Em Portugal, a polémica mais relacionada com o tema estalava há precisamente três anos após a Universidade de Coimbra retirar do menu das cantinas a carne de vaca. E uns anos antes já alguém avisava que talvez não fosse possível comer carne todos os dias.

A única diferença é que há 10 anos o motivo para tal impossibilidade não eram as alterações climáticas. Mas ajuda a perceber que, tal como Mbappé e Galtier, todos podemos ser inoportunos pelo menos uma vez na vida.

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