Opiniao

Estar grávida, quer dizer morrer, ou sermos mães numa esquina qualquer?

Existe uma linha ténue entre viver e morrer. O que não pode existir é uma linha ténue entre estarmos na União Europeia ou sermos de facto um país de terceiro mundo.

Estar grávida, quer dizer morrer, ou sermos mães numa esquina qualquer?

Era uma vez uma mulher chamada Maria. A Maria teve uma gravidez desejada. Antes de sequer saber que estava grávida, já fazia uma data de testes, pois sonhava com esse dia. E foi precisamente no dia em que decidiu parar de fazê-los, que a sua mãe lhe disse que tinha engravidado. Sem querer bem acreditar, correu para a farmácia e a seguir para a casa de banho mais próxima, pois não estava em casa e confirmava-se, estava mesmo! Então, preparou-se o quarto, os cheiros já existentes a bebé, a quantidade interminável de fraldas, o despertar para uma realidade alternativa. Nunca irá esquecer quando ouviu o coração bater pela primeira vez. Um coração dentro de outro. A barriga que crescia desmedida. As formas desenhadas em si que pareciam areia movediça. Também não irá esquecer os enjoos, a prisão de ventre, e a falta de posições para dormir! Não vai esquecer a retenção de líquidos, as dores que sentia nos braços, uma espécie de moscas que via no escuro quando ainda era dia, e o elefante que sentia no peito. A Maria relatava todos esses problemas, mas a médica que a seguia não ligava. Não encontrava nada. Dizia, que era nervos, birra, stress. A verdade é que isso continuou. Entretanto, a Maria ia-se aguentado e a bebé que já se sabia que era uma rapariga! Uma rapariga, também! Era isso mesmo que queria! Comprar os detalhes, vestidos e babygrows. As mantas cor de rosa. Os produtos para o banho e própria banheira, tudo de uma fragilidade extrema, demonstrável da nossa condição, enquanto seres humanos. No entanto existia algo que não a deixava, que a assombrava. Todos os dias, a ansiedade aumentava, com o fecho e abertura de urgências. Idosos 24 horas deixados numa maca. Outros que iam para casa com indícios de AVC.

A Maria não podia pagar consultas num hospital privado. Muito menos ter a sua bebé num. E as suas sensações continuavam. O estado emergente de Maria também se alterou. Podemos dizer que mudou. Deixou de desfrutar deste momento da sua vida, não por ser difícil, mas por ser pouco seguro para si e para a sua filha.

A Maria foi das poucas grávidas que se conseguiu safar com uma pré-eclâmpsia tardia, quase a evoluir para um síndrome de Hellp. No entanto, esse episódio não saiu sem custos demasiado altos. Cuidados intensivos. Dois anos de recuperação e sonhos que se perderam lá mesmo no fundo, dentro de si, sonhos que jamais se alcançarão e uma saúde, essa sim que não se compra. Podemos dizer que se a sorte estivesse para venda ela a comprara, porque no dia que foi para as urgências do seu hospital ele estava encerrado e teve que fazer mais 50 Km até ao próximo.

Existe uma linha ténue entre viver e morrer. O que não pode existir é uma linha ténue entre estarmos na União Europeia ou sermos de facto um país de terceiro mundo. Não podem todas as grávidas ser a Maria? Ou seja, nem todas as grávidas vão ter pré-eclâmpsia! E todas as outras condições e problemas causados na gravidez? E mesmo sem eles devemos ter os nossos filhos numa esquina a caminho de uma urgência aberta?

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