Opiniao

Brasil. Nunca uma eleição foi tão clara

Lula entende o Estado como indutor central na geração de emprego e desenvolvimento. Bolsonaro direciona essa aposta mais para o mercado e a livre iniciativa. 

Brasil. Nunca uma eleição foi tão clara

por Cleber Benvegnú*

Os políticos são todos iguais? Os candidatos são todos iguais? Será isso mesmo ou essas sentenças são apenas um lugar-comum para fugir da responsabilidade de distinguir um e outro. 

Claramente, caro leitor, a segunda opção contém a razão: nem todos são iguais; não raras vezes, são inclusive muito diferentes.  

Os cerca de 30 dias faltantes para a grande eleição presidencial brasileira são suficientes para, clara e tranquilamente, estabelecer essas distinções. E não se trata de tarefa tão difícil. As diferenças são nítidas, ao menos entre os candidatos mais conhecidos. 

Privatizações, por exemplo: Lula pensa uma coisa e Bolsonaro completamente outra. Um é estatista, o outro é privatista. O primeiro criou estatais, enquanto o segundo extinguiu. Maior ou menor intervenção do Estado na economia? O petista defende esse ativismo, enquanto o direitista fez uma série de desregulamentações em setores econômicos. A autonomia do Banco Central, aprovada na gestão Bolsonaro, é um marco dessa mudança. 

A reforma trabalhista é outra divergência gritante. O PT votou contra as mudanças apresentadas durante o governo Temer - e Lula agora promete inclusive revogá-las. Já Bolsonaro manteve e sinaliza ampliá-las. Um entende que se trata de garantir direito aos trabalhadores, ao passo que o outro vê na alta carga trabalhista a perda e a retração da geração de empregos. 

Lula entende o Estado como indutor central na geração de emprego e desenvolvimento. Bolsonaro direciona essa aposta mais para o mercado e a livre iniciativa. 

O teto de gastos, outra medida de Temer, é também um divisor de águas. A candidatura petista anuncia sua revogação, pois estaria inibindo investimentos sociais em saúde, educação e demais áreas essenciais. Já o front  bolsonarista, mesmo tendo ampliado os gastos com o Auxílio Brasil - o que, para alguns analistas, rompeu os limites -, propugna manter o teto. 

Mais uma assimetria apresenta-se, limpidamente, no debate sobre a regulação da imprensa e das redes sociais. Ambos candidatos sequer fazem voltas sobre o assunto, são diretos: Lula quer regular, Bolsonaro não quer. Cada um justifica ao seu modo, mas o fato é que, dependendo do presidente eleito, haverá uma ou outra abordagem da comunicação no Brasil. 

A visão e a ação sobre relações comerciais e internacionais também ensejam disparidades gritantes. Lula volta-se para a América Latina e o Caribe, especialmente para nações com amizade ideológica, enquanto Bolsonaro defende um modelo mais pragmático, inclusive com a difusão de acordos diretos e bilaterais. 

Exemplos não faltam. Aborto. O staff do ex-Presidente claramente quer ampliar as possibilidades de aborto legal no país. O do atual presidente, a partir dele próprio, rejeita qualquer ampliação da legalização. Armamento: Lula restringiu, Bolsonaro facilitou o acesso. Um vê incitação a uma cultura de violência, outro vê direito à legítima defesa. 

Haveria ainda uma enorme lista de diferenças a provar, portanto, que os políticos não são todos iguais, muito menos os candidatos a Presidente do Brasil. As contraposições avançam também na lógica de formação de governo e das relações políticas, bem como no campo ético, nas relações pessoais e na postura. 

Poderá entender o leitor que, ao traçar esses comparativos, terá ficado clara a minha escolha. Pode ser que sim, mas percebam que listei apenas fatos - e é isso que esse ensaio quer ressaltar. São concretudes. Assim sendo, a escolha de um ou outro caminho, ou ainda de um terceiro, deverá ser exercido individual e soberanamente por cada brasileiro - que irá formar a maioria democrática do país. 

A questão é: não há escudos, desculpas para lugares-comuns, confortos retóricos, clichês, alegada confusão ou outra manobra intelectual capaz de eximir cada brasileiro de exercer essa escolha. As diferenças, como procurei mostrar, estão postas. E agora é o povo quem decide o caminho pelo qual quer construir o país nos próximos quatro anos. 

 

*Jornalista, advogado e empresário - sócio-fundador da agência de reputação Critério. Analista de rádio e jornal, também foi Secretário-Chefe da Casa Civil do Rio Grande do Sul e Secretário da Comunicação do Estado do Rio Grande do Sul

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