Retratos Contados

O que se vende na praia

por Nélson Mateus e Alice Vieira

O que se vende na praia

Querida avó,

Sabes que este neto que tanto te ama pouco descansa.

Quem sai aos seus…

Recentemente, fui recolher a exposição do Ruy de Carvalho a Paço de Arcos. Como estava perto, tentei pôr a leitura em dia junto ao mar.

Passaram por mim tantos vendedores a apregoar a viva voz «Olhá bolinhaaaaaa» que, confesso, tive dificuldade em concentrar-me na leitura.

Tu, que tens resposta para tudo, sabes dizer-me de onde veio este hábito de comer bolas de Berlim na praia?Confesso-te que não entendo o ar de espanto dos outros quando lhes digo que nunca comi bolas de Berlim na praia!

Serei algo semelhante a um extraterrestre?

Recentemente li um artigo onde dizia que, após irmos a banhos de mar, o nosso corpo fica com uma pequena camada de sal e ficamos com um travo salgado na boca, o que torna o sabor de um bolo doce ainda melhor. E que este contraste de sabores nos desperta o apetite pela bola de Berlim.

Não sei se tem cabimento científico. Existem tantos bolos com carradas de açúcar em cima, porquê este em particular?

Eu, que não vou em modas, gosto de comer coisas do comércio local de onde estiver.

Quando estou na Ericeira, como Ouriços da Casa Gama, Queques e Pães de Deus do Pão da Vila.

No Rio de Janeiro, onde já fui à praia várias vezes, encontra-se vendedores de mais variados produtos no areal. Mate Leão (um chá), Biscoitos Globo, espetadas de fruta, a famosa água de coco, cochinhas de galinha… Mas o que mais me surpreende é a venda de queijo coalho! Os vendedores andam com o queijo espetado nuns pauzinhos numa mão e com uma espécie de fogareiro na outra onde assam os ditos queijos, pasma-te.

Voltando às bem-ditas bolas de Berlim, julgo que começaram a ser confecionadas em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial pelas mãos dos refugiados judeus tornando-se, rapidamente, num sucesso. Hoje existem com recheios de tudo e mais alguma coisa.

Bjs

 

Querido neto,

Aqui na praia da Ericeira não se vende nada na praia — mas também tem cafés e restaurantes mesmo em frente.

Em miúda ia para a praia do Guincho e claro que aí ninguém ia vender nada — um frio e uma ventania todos os dias e meia dúzia de pessoas (nos dias bons…).O banheiro, o Sr. António, é que vendia peixe acabadinho de pescar à minha tia.

Como estava sempre muito frio, acabávamos por vir para cima, para um pré-fabricado do Sr. Muchacho, onde nos podíamos abrigar. E aí é que eu gostava de estar. Porque também lá estavam sempre uns espanhóis e eu adorava brincar com o filho deles, o Juanito. (Quem me diria a mim que, muitos anos mais tarde, ele seria Rei de Espanha!!).

E como não se vendia nada na praia, a minha tia levava sacos e sacos com comida, e o Sr. António punha lá uma mesa de madeira—e aquilo era com todo o requinte, toalha de mesa, guardanapos de pano, galheteiro com azeite e vinagre e o mais que elas pensavam que era preciso. Claro que levavam sempre uma criada para tratar de tudo.

Depois deixámos o Guincho e fomos para Cascais. Aí sim, vendiam-se bolas de Berlim, batatas fritas e uma coisa que nunca mais vi em lado nenhum: barquilhos.

Como eu não gostava muito que a minha filha, então muito pequenina, se encharcasse de batatas fritas, em casa, sem ela ver, enchia um saquinho de plástico com flocos de aveia. Era em tudo igual a um pacote de batatas fritas. E ela gostava muito. E ia para a praia e dizia às outras crianças que aquelas batatas é que eram boas. E, claro, todas elas queriam batatas iguais às dela… Fartei-me de levar flocos de aveia para a praia—e desapareciam imediatamente…

Depois trocámos Cascais pela Ericeira — mas íamos então para a Praia do Algodio, que ficava mesmo em frente da nossa casa. E aí não havia nada, claro. Por isso nunca fui muito viciada em “comidas de praia”… E vai lá comer uma Bola de Berlim, que estás magrinho…

Bjs

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