Cultura

Os ataques aos jornais portugueses

Uma série de ataques informáticos aos jornais portugueses ocorridos este ano permitiu ler nas reacções dos leitores uma crescente hostilidade que deve obrigar a um balanço da própria actividade da imprensa escrita no nosso país.

Os ataques aos jornais portugueses

O início deste ano ficou marcado pelo sofisticado e devastador ataque de um grupo de hackers com reputação internacional ao grupo Impresa, deixando os sites do Expresso, SIC e Blitz indisponíveis por vários dias. No final de Janeiro, o mesmo Lapsu$ Group reivindicou um ataque semelhante ao site do Parlamento português, isto depois de terem alcançado projecção semanas antes do outro lado do Atlântico, com acções semelhantes que deitaram abaixo as páginas de internet de organismos governamentais brasileiros. Mas a primeira vez que se terá ouvido falar deste grupo foi na sequência de um ataque à Electronic Arts, o gigante dos videojogos. Contrariamente ao que veio dizer o grupo Impresa, que aproveitou o infortúnio para uma jogada publicitária, reclamando-se vítima de um “atentado nunca visto à liberdade de imprensa em Portugal”, estas ataques foram motivados, não por um qualquer sentido político ou ideológico, mas com o mero fito de obter lucros, tendo os hackers exigido que o resgate fosse pago em bitcoins. Nas últimas semanas, também os servidores do jornal i e do Semanário Sol foram por duas vezes alvo de ataques informáticos, o que levou, inclusivamente, a que duas edições deste diário não chegassem às bancas. Também, neste caso, os motivos foram da mesma ordem, sendo pedida inicialmente uma soma avultadíssima que revela um desconhecimento total da realidade da imprensa portuguesa.

De qualquer modo, e ainda que seja de ridicularizar a perspectiva desta onda de ataques como uma forma de espectacular sabotagem e tentativa de extorsão, e ainda que a reacção a estas notícias tenha produzido ecos bastante dissonantes, deve reconhecer-se que, tanto no ataque ao grupo Impresa, como naquele que atingiu o i, houve um certo clamor zombeteiro que aponta para uma relação cada vez mais hostil entre os jornais e os leitores, pelo menos a avaliar pelas reacções que se recolhem nas redes sociais. Se, por um lado, o tipo de participação a que nos habituámos nas caixas de comentários fazem qualquer perder toda a esperança num na ideia da constituição de uma esfera pública alargada e racional, é certo que há muito os jornais abdicaram de qualquer esforço de reflectir sobre as suas próprias condições e vícios, sendo há muito reconhecido essa espécie de armistício entre os diferentes órgãos de informação, que raramente se criticam uns aos outros, e ainda menos abrem caminho a um processo de autocrítica, sendo que, em muitos aspectos, o jornalismo que tanto pugna pela transparência consegue ser bastante opaco no que toca a reflectir sobre si mesmo. Há muito que a anunciada morte dos jornais gerou um ambiente bastante confuso em que nem os jornais desaparecem nem se transformam noutra coisa, mas persistem numa espécie de solenidade própria daqueles que assistem a um velório, e que têm dificuldade em relacionar-se com o futuro. Instalou-se um pessimismo de tal ordem que não parece haver saída. Os velhos hábitos linguísticos e culturais continuam a registar o que sucede, mas com aquela atitude de quem parece demasiado debilitado para reflectir a situação em que se encontra, como um velho frente ao televisor que barafusta de tal modo porque, no fundo, não aguenta a dose de realidade a que se vê submetido. E talvez o maior espanto que sentimos seja ao acordar e dar-nos conta que, com todos antagonismos que caracterizam esta época, estranhamente estes parecem não ter causado ainda “uma guerra civil nas almas e nos corpos, unindo-se em vez disso em nós, em cada pulsação, de minuto a minuto em cada batimento cardíaco”, para usar uma imagem do escritor e cineasta alemão Alexander Kluge. Mas se a grande catástrofe vai sendo adiada, parece que vivemos permanentemente à beira de um ataque de nervos, algo de fulminante e que ameaça deitar-nos abaixo. Talvez por isso sejamos cada vez menos receptivos à diferença, cada vez menos tolerantes e capazes de entreter utopias conciliadoras. O ânimo geral exige a guerra, algo que satisfaça esta necessidade de ajuste de contas. Ora, perante esta forma de ruína do espaço público, se Walter Benjamin falou na necessidade de “organizar o pessimismo”, numa entrevista que Kluge deu à revista Electra, lembrou que “quando um teatro arde, há sempre uma saída de emergência. Ser só pessimista não é nada. Não nos podemos dar ao luxo do pessimismo. Por volta de 1900 podia-se ser pessimista, era uma moda. Mas quando o Titanic se afunda e nós estamos no interior dele não nos podemos permitir o pessimismo. Se não temos barcos de salvação, temos de arrancar a madeira dos salões e construir jangadas.”

Perante certas denúncias ou factos incómodos surgidos nos jornais é comum esgrimir-se aquele argumento que infere da pouca relevância do jornalismo ou do seu alcance por efeito da sua feição efémera, dizendo-se que o que aqui se escreve e lê tem tão pouca importância que, invariavelmente, no dia seguinte, as letras como que se dissolvem, enquanto o papel é usado para embrulhar peixe. Se isto hoje já não é bem assim, devido à persistência dos textos na internet, nesse arquivo imaterial e eventualmente perpétuo promete estender o alcance dos artigos de imprensa, não deixa de ser útil lembrar o quanto essa condição efémera sempre foi útil e instrutivo ao processo de renovação e insistência, ao trabalho para fazer relevar certos elementos decisivos nessa busca da verdadeira actualidade. Na prática da repetição, consegue-se, com o tempo, afinar uma espécie de veneno leve e eficaz, uma estratégia implicante próxima da morte por mil cortes. No fundo, de cada vez que se insiste numa certa relação de factos, ele é embalado pelas tentativas anteriores, como se fosse servido por uma propulsão fantasmagórica. Não precisa de grande ênfase, pois, tal como um comboio, pode confiar nas tantas lembranças que foram ficando pelo caminho para ressoarem com ele, à sua passagem. Assim, a efemeridade é um preço, mas é também uma virtude. E vem a propósito lembrar aquela lenda talmúdica referida por Walter Benjamin aquando do anúncio da revista Angelus Novus, aquela que diz que os anjos – a cada momento sempre novos, em legiões infinitas – são criados para, depois de terem entoado os seus hinos na presença de Deus, deixarem de existir e se dissolverem no nada. Mas para que não se pense que estamos a sugerir aqui qualquer relação entre os nossos fins e os das missões celestiais, adiante-se que onde se lê “anjos” podia ler-se “demónios”, pois trata-se menos de uma questão de elevação do que de eficácia, seja para servir de alento à moral seja para dar cabo dela. O que importa mais é uma certa competência para a decomposição das narrativas, da própria História, aquela combinação de factos que nos dá o sentido de sucessão, de desenrolar dos eventos, até porque, como vinca Borges, “mais incrível que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura, a contraditória flor cujos átomos agora ocupam outros lugares e que ainda não se combinaram”. No fundo, se o jornalismo é caracterizado pela precariedade dos seus meios, pela sua insuficiência, pelo ambiente ruidoso e confuso no seio do qual exerce um método de extracção de certos elementos, elege aspectos vulneráveis e procura estender a sua significação, interpretá-los de forma mais vigorosa, pretende com isto tornar claro como o todo pode ser sucessivamente exposto à escala da duração da vida de uma mosca, à escala evolutiva das espécies, dos insectos, dos humanos, das línguas. Na sua ostensiva marginalidade, o jornalista é aquele tem de acatar essa subordinação a elementos que lhe são dados e operar de forma tão discreta quanto possível, estando muitas vezes obrigado a circular no regime da paráfrase, urdindo uma teia de relações algo imprevista, retomando o que antes dele outros deixaram, persistindo a partir do ponto onde algo se frustrou, aperfeiçoando o falhanço. No fundo, aquilo que caracteriza a sua indagação é esse processo detectivesco em que tenta compreender “quais são as condições, as formas, a linguagem necessária para que os factos observados se possam tornar em acontecimentos, em experiências susceptíveis de serem válidas para os contemporâneos, para aqueles que não estiveram lá para as viverem” (Vincent Pauval). O que é fundamental é saber urdir as impressões das testemunhas de modo a que destas se possa construir uma mensagem ou uma notícia, sem contribuir para a propagação de um mito. Ao mesmo tempo, cabe refutar essas noções que anulam a experiência directa, essas narrativas diluentes, e desde logo o jornalista tem a “tarefa de rejeitar o património linguístico morto e de fazer florescer o novo” (Benjamin). Neste ponto, e especialmente na sua faceta de cronista, aquele que escreve nos jornais deve entender que os sentimentos são necessários e, até, indispensáveis, que “essa monstruosa faculdade humana”, como lhe chamou Alexander Kluge, é o facto decisivo para que, na sua interioridade, o homem ser capaz de deslocar montanhas, construir pontes entre tempos distintos. “Uma política suficientemente forte para prevenir as guerras, para prevenir um fascismo, não depois deste ter mostrado a sua fúria, mas antes do seu desenvolvimento, não consigo concebe-la a não ser em posse de todos os seus sentimentos”, escreve Kluge. Para este pensador alemão, podem trabalhar-se os sentimentos, como se trabalha qualquer outra coisa e também as coisas relativas à compreensão. E é fácil perceber como, na tentação de calar o outro, nesta necessidade tão contemporânea de suprir as contrariedades e contradições de um discurso, silenciando ou apagando simplesmente tudo aquilo que possa abalar as nossas convicções, o que se pressente é que os sentimentos estão descontrolados, tomaram conta, com o seu despotismo histriónico e que impede que se cruzem versões alternativas e a relação e o debate sobre certos acontecimentos na esfera pública atinja um nível de complexidade verdadeiramente esclarecedor e que dissuada os agentes políticos ou outros de actuarem de forma impetuosa e parcial, sem prever as ramificações de um gesto mais enfático.  Antes de mais é preciso reconhecer os sentimentos em causa, abrir e aprofundar o seu catálogo, pois, como nos diz Kluge, basta que falte um entre todos, e isso é já um calcanhar de Aquiles. É essencial reconhecer de que forma estas pulsões hoje deturpam o entendimento que fazemos da realidade. E, por isso, em lugar de criar novas ficções, Kluge entende que o dever dos escritores modernos seria escrever por cima de esboços mais antigos, de modo a que, com o tempo, daí resultasse um “desfecho mais feliz das tristes histórias”. Porque este autor reconhece que o que tem vindo a ser posto em causa é a nossa capacidade de apropriação narrativa do mundo, e isto numa altura em que julgávamos ter saído finalmente do perigoso e mortífero século XX, mas nos vemos uma vez mais abatidos entre as ruínas da História, a balbuciar fragmentos desconexos enquanto nos movemos a custo, embaraçados nas redes sufocantes do seu pesadelo. Daí o seu empenho em criar um balanço nunca definitivo dos factos expurgados desse enleio sentimental, demonstrando como contar é uma prática decisiva para vencer a precipitação dos sentimentos que não querem ouvir mais para poderem exercer o seu juízo apressado e definitivo. No fundo, Kluge resiste à generalização e a todas as formas de simplificação grotesca que são o método essencial dos discursos com vista a produzir ânimos de tal modo insuportáveis que exigem ser saciados através de actos brutais. O antídoto para este ímpeto destrutivo passa por verificar constantemente a validade das asserções que contribuem para nos oferecer uma imagem do presente. “Assim sendo, a modernidade não consistiria em algo de novo, mas antes na transcrição de uma história prévia com vista a um fim melhor.” E num momento em que a experiência humana caiu em descrédito por força da concatenação de catástrofes que fez da nossa noção de contemporaneidade como um fôlego sem folga que procura resistir entre abalos e crises consecutivas, incapaz de estabelecer qualquer balanço, Kluge procura reforçar esse resíduo de força interior, cultivar as propriedades mais elementares que constituem o nosso discernimento. Mas para reabilitar os sentimentos, os quais sempre aspiram a um desenlace feliz, é necessário resgatá-los a essa praga dominante nos tempos actuais, às formas de propaganda e a esse “comunismo dos afectos” que tomou conta do espaço público e que tem dirigido as nossas paixões e anseios. Toda a intolerância, intransigência ideológica ou proselitismo que tomou conta dos meios de comunicação de massa deve ser contrariada, e Kluge estabelece os princípios de uma forma de libertação íntima, uma insurreição que obriga cada homem a empenhar-se e, a partir das suas circunstâncias, rejeitar essa continuidade formal das atitudes, essa degradação da realidade por paixões odiosas, que são tão destemperadas e imaturas por procurarem sempre estabelecer uma relação imediata entre certos infortúnios e acção dos elementos mais frágeis da sociedade, que são diabolizados e encarados como meros parasitas. No seu caso particular, este pensador alemão quis voltar a traçar a História a contrapelo, a partir dos seus elementos residuais, seguindo o olhar do Anjo da História, esgazeado perante os escombros, como este é descrito por Benjamin nas suas teses “Sobre o Conceito da História”. Assim, em vez de submeter os factos ou os seus objectos a uma estrutura de conjunto, o cronista procede a um relato que examina sem hierarquizar, entregando-se a “uma densidade narrativa reconhecidamente fragmentária e expansiva de proporções impressionantes”, nas palavras de Vincent Pauval, autor do imprescindível ensaio que serve de introdução ao primeiro dos dois volumes já publicados entre nós (com o selo da BCF Editores) da sua “Crónica dos Sentimentos”. E enfatizamos esta experiência dos factos num momento em que as redes sociais, parecendo ligar as pessoas, na verdade apenas agudizam a sua solidão, na medida em que as encerram em bolhas que permitem que os seus sentimentos mais inoperantes entrem numa sintonia degradante, incapazes de se porem em causa, de se relativizarem, levando os indivíduos a ficarem reféns de projecções teleológicas redutoras senão mesmo imbecis, e a recaírem em messianismos enganadores e a formas de culto pavorosas. Ora, para contrariar esta tendência para toda a cultura noticiosa ser processada por hostes de comentadores que se aplicam a incitar paixões e ódios e a alimentar o patetismo das reacções a certos acontecimentos, produzindo uma indignação frívola e que não chega sequer a compreender o que está em causa, é preciso reforçar aqueles cronistas capazes “de colocar as coisas no seu contexto, de considerar os acontecimentos com o distanciamento da experiência histórica que os precede durante este mesmo século ou, porque não, durante o milénio” (Pauval). No entender de Kluge, aquilo de que as pessoas precisam, nos seus percursos de vida, é de orientação, e os jornais, sendo hoje formas reconduzidas a uma certa marginalidade, devem também estabelecer uma arquitectura paralela e que confronte este regime mediático mais voraz e tão fleumático. A sua relação narrativa fragmentária e expansiva, mas também determinada por essa sucessão de rascunhos, de repetições e insistências, e pagando o preço da efemeridade, situa-a cada vez mais no plano de uma relação alternativa com os factos. Em vez de dirigir os sentimentos do leitor, o que se pretende é que este “se compare, se deixe repelir ou atrair”, funcionando um jornal como um espelho. Entre o tempo já passado e o momento presente, esta forma de crónica expurgada dos excessos emocionais, volta a nutrir-se no terreno da linguagem, contrariando uma relação que privilegia cada vez mais os conteúdos audiovisuais, e entretece, assim, de forma discreta os seus argumentos, devolvendo-nos a uma relação que parece hoje obsoleta: a de ler os factos organizados num texto, desencadeando certas revelações que são sempre mais subtis e complexas do que aquelas que se obtêm através de outras formas de expressão. Há um nível mental de consideração de um texto que exige sempre mais do leitor do que esses conteúdos a que é submetido noutras formas mais velozes e que, em vez de precisarem da sua permissão, do movimento dos seus olhos sobre as letras e de um esforço mínimo de compreensão, lhe sobrecarregam os sentidos. Assim, o que é transmitido pela via da escrita permite sempre introduzir certas epifanias profanas, promessas de despertares face a esse regime contínuo que reduz a atenção a um paciente anestesiado pelos ecrãs, passando a maior parte do dia sujeito a uma forma de respiração assistida. E se a imprensa escrita perdeu a centralidade no que toca à definição dessa corrente subjacente que nos permite dar conta do decorrer do tempo – sendo certo que o tempo não muda por si só –, isto permite-nos reconhecer como o jornalista começa a exercer a sua actividade a contrapelo desse regime que já não depende da atenção mas a domina. Se Benjamin entendeu em tempos que a colaboração regular na imprensa poderia ser uma estratégia de intervenção literária capaz de aproveitar as potencialidades deste meio para prosseguir uma crítica imanente às formas estabelecidas de comunicação e às hierarquias do cânone cultural dominante, hoje, dada a perda de influência do jornalismo na forma de fazer corresponder uma certa noção narrativa à ideia de realidade que vamos criando, este meio não tem outra forma de se reinventar senão uma actividade literária, uma vez que já não lhe resta outra responsabilidade senão em relação à linguagem. Se os jornais continuam a ser um espaço onde se recorre à fraseologia e, através do estereótipo, da falsificação, da tagarelice e da opinião, continua a produzir-se um discurso que corrompe a experiência directa da realidade, aqueles cronistas que sejam capazes de insistir em relatos que se reforcem em enunciados mais factuais, em interpretações lúcidas, e que resgatem a escrita nos jornais desse “teatro da desenfreada degradação da palavra”, serão mais úteis a um esforço de renovar o papel dos jornais. “A construção da vida reside, de momento, muito mais na força dos factos do que na das convicções”, frisa Benjamin logo no arranque de “Rua de Sentido Único”. “E de factos que quase nunca e em lugar nenhum se tornaram base de convicções. Nestas circunstâncias, a verdadeira actividade literária não pode ter a pretensão de se desenrolar no âmbito literário – pelo contrário, essa é a expressão habitual da sua esterilidade.” Como já antes ocorreu inúmeras vezes, estando ameaçadas as formas de expressão escrita, jornalismo e literatura voltam a enfrentar os mesmos desafios e devem, e se esta teria muito a ganhar com o laconismo daquele, os seus efeitos de distanciação que não deixam grande margem para o sentimentalismo, o jornalismo deve aprender com a literatura na forma como esta se situou quase sempre frente à História como a outra face da lua, essa face que se detém na sombra que fica do curso do mundo. Se o rio da História arrasta e submerge as pequenas histórias individuais, se a vaga do olvido passa sobre elas e as apaga da memória do mundo, escrever significa também, como lembra Claudio Magris, caminhar pela margem do rio, contrariar a corrente, repescar existências naufragadas, encontrar peixes enredadas nas margens e embarcá-los numa precária arca de Noé de papel. O papel que embrulha os peixes no dia seguinte, pode ir perdendo o seu carácter noticioso ao mesmo tempo que vai apurando a sua força de resistência que se estriba no rechaço do falso realismo, esse que confunde a fachada da realidade com toda a realidade, esse que, “privado de todo o sentido religioso do eterno, absolutiza o presente e não acredita que este possa mudar, tachando de ingénuos utopistas aqueles que se empenham em mudar o mundo” (Magris). Assim, numa altura em que a tentação de contrariar uma certa versão dos acontecimentos passa por silenciar, atingir por meios informáticos os órgãos de comunicação e, deste modo, silenciá-los, é preciso lembrar como isto são práticas típicas do totalitarismo, esse que a todo o momento ataca o esforço de se resgatar um sentido mais complexo, aquele que se alcança por meio da composição lúdica da história em combinação com os elementos factuais, abrindo caminho a variações e a efeitos que suscitem a perplexidade e impedindo que prevaleça uma versão definitiva, uma narrativa petrificada da nossa compreensão do mundo.

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