Desporto

Casa Pia. Ramos Dias - Grande Ganso

Esta época, os gansos já contam com três vitórias. Na sua única anterior presença na I Divisão (1938-39), só tinha conseguido uma, frente ao Barreirense.

Casa Pia. Ramos Dias - Grande Ganso

DR  


Ora bem, quem diria? Vamos para a sétima jornada do Campeonato Nacional e o recém-promovido Casa Pia surge em sexto lugar, para já à frente do Sporting, por exemplo, com dez pontos em seis jogos, fruto de três vitórias e um empate (aos quais se soma uma única derrota - neste caso não devia ser somar mas subtrair, mas pouco importa). Histórico! Sim. Aliás, reparem neste pormenor: os gansos só estiveram na I Divisão durante uma época da sua vida, a de 1938-39. Um desastre total, há que dizê-lo sem rebuço. Em 14 jornadas (participavam apenas oito equipas) somou dois pontos. Uma vitória e treze derrotas! 12 golos marcados e 56 sofridos. Goleadas terríveis, terríveis!, como bradaria o conselheiro Gama Barros do divino Eça. 1-10 com o Benfica; 0-10 com o FC Porto; 1-7 com o Belenenses! Uma defesa de papel vegetal.

Domingo, o Casa Pia recebe o Famalicão, e muitos apostarão na vitória dos alegres gansos de Filipe Gonçalo Pinto Martins, de 44 anos, ainda sem experiência de divisão principal mas que tem vindo a construir uma equipa tão rija como a carapaça de uma daquelas tartarugas gigantes das Ilhas Galápagos. Para já, as vítimas foram o Boavista, o Vitória de Guimarães e o Paços de Ferreira (estes dois fora). E quando se se fala em fora é, mais ou menos, um pleonasmo. Porque, objetivamente, o Casa Pia joga sempre fora pois o Estádio Pina Manique parece não ter condições para receber jogo da Liga, isto é, vamos lá chamar os bois pelos nomes, jogos que tenham de ser transmitidos pela televisão com o maior número de câmaras possível. 

A proeza de Ramos Dias
Há 84 anos, que era onde eu queria chegar, o Casa Pia tinha como casa o Campo do Restelo. Não, nada de confusões. Não era o Estádio do Restelo que só foi inaugurado no dia 23 de setembro de 1956. Ficava no Restelo, bairro nobre de Lisboa, numa altura em quea Associação de Futebol de Lisboa assentou que cada clube devia ter as suas próprias instalações, mas nas traseiras do Mosteiro dos Jerónimos, não na altiva colina que faz do outro Restelo o estádio com a vista mais bucólica de Lisboa. Foi então aí que, no dia 26 de março de 1939, os  gansos obtiveram a sua primeira vitória para o Campeonato Nacional de Futebol. Adversário:Barreirense, que terminaria em sexto com dez pontos.

Jornada número dez: os adeptos casapianos já tinham percebido que a equipa do seu coração iria direita de volta para a segunda e não fizeram um esforço por aí além para estarem presentes, pelo que as bancadas estavam semivazias.  Para ajudar à modorra desse início de  primavera, os jogadores de ambos os lados levaram o assunto mais como um treino do que como um jogo a doer. Durante minutos e minutos a fio foram trocando a bola lentamente, sem movimentos agressivos, desinteressados pelas balizas  alheias. Finalmente, após um quarto de hora de insuportável pasmaceira, houve um homem que se revoltou contra o estado em que as coisas tinham caído: chamava-se Manuel Ramos Dias, era avançado, tinha 23 anos e um espírito combativo como poucos. Havia quem dissesse que encarnava o verdadeiro espírito dos gansos, gente pobre que tinha de lutar pela vida num abraço solidário com os companheiros de infortúnio. Diz quem viu que, aos 18 minutos, recebeu um passe de Sérgio, perto da linha de meio-campo, e que arrancou criando desequilíbrios na defesa barreirense, trocando a bola com Carmo antes de voltar a recebê-la já na grande área para disparar com força e colocação. Câmara, o keeper do outro lado, olhou e esteve de acordo. Pois que havia ele de fazer mais se o pontapé fora tão firmemente colocado? Em seguida, voltou tudo ao que estava. Muita gente bocejava.
Intervalo bem recebido para que os cavalheiros presentes fossem matar a sede à conta de uma bela orchata e um regresso em cheio dos gansos que, dez minutos depois, voltava a marcar, de novo por Ramos Dias, com um convincente cabeceamento. Ah! bem-vinda, Dona Alegria! Eis algo que não se tinha visto até então!

Sem resposta para dar, o Barreirense foi dominado mas reduziu, um bocado sem saber ler nem escrever, através de um golo de Preto (como se fosse possível hoje em dia um jogador ter uma alcunha assim!). Mas seria ainda Ramos Dias a fechar a tarde com uma oportunidade desperdiçada que provocou bruás. Seria preciso esperar e bem por novo triunfo na divisão dos grandes.

Os comentários estão desactivados.