No meio de nós

Rasgar o coração!

Eu acredito, no entanto, que será o amor que porá termo a todo este sofrimento


Grava-me como um selo no teu coração, como um selo no teu braço, porque o amor é forte como a morte e a paixão é violenta como o abismo. Os seus ardores são setas de fogo, são chamas do Senhor. As águas torrenciais não podem apagar o amor, nem os rios o podem submergir» (Cant 8, 6).

São poucas as pessoas no mundo que leram a Sagrada Escritura, mesmo os cristãos, e menos ainda os que se debruçaram sobre os livros do Antigo Testamento. Este parágrafo anteriormente citado é retirado do livro do Cântico dos Cânticos, que reflete o diálogo entre um amado e uma amada. 

Segundo a tradição hebraica, este livro foi escrito pelo Rei Salomão, filho do Rei David, o grande sábio. A tradição cristã identifica Belém como a cidade onde estes versos foram escritos. Estive nesse mesmo local há três anos – chama-se ‘Hortus Conclusus’. Aí existe uma comunidade de irmãs que acolhem gente que se quer retirar para meditar na sabedoria de Salomão e encontrar-se com a própria Sabedoria que é Cristo.

‘Hortus Conclusus’ significa ‘Jardim Fechado’ e a tradição cristã viu nesta expressão, retirada do livro do Cântico dos Cânticos, uma imagem da Virgindade de Maria, que é como um ‘Jardim Fechado’ onde o Verbo Eterno de Deus entrou sem que se tivesse aberto. 

Esta passagem que citei no primeiro parágrafo é muitas vezes escolhida pelas noivas para ser lida no seu casamento (os noivos habitualmente mandam pouco nesse dia). Fala do amor… o amor que é mais forte do que a morte e de uma paixão que é mais violenta do que o abismo. 

Lembrei-me destas palavras ao ver na televisão milhares de homens a beijarem as suas mulheres, as suas mães e os seus filhos… para irem para a guerra. O coração rasgado de tantos homens e de tantas mulheres, de tantas crianças! 
Será que aqui a morte vai ser mais forte do que o amor? Poderá a morte vencer o amor? Poderá o abismo vencer a paixão? Poderá a morte vencer a vida?

Muitos destes homens que saíram das suas casas, na Rússia, esta semana, caminharão para a morte e abrir-se-á um rio de ódio das mães, das mulheres e das crianças russas contra o povo ucraniano que lhes irá subtrair a vida de milhares de familiares.

Eu acredito, no entanto, que será o amor que porá termo a todo este sofrimento, porque, como diz o livro, «as águas torrenciais não podem apagar o amor». E será assim, haverá dois combates nesta história… por um lado, o combate das armas e das bombas no campo de batalha e, por outro, o combate de milhares de mulheres e de homens que, inflamados de amor, exigirão o fim desta guerra.

Desistir do amor, seria desistir da vida! Porque precisamos de acender uma lamparina e na escuridão buscar o amor! Buscar a única coisa que nos faz viver… uma vez desaparecido o amor da vida do homem, desaparece a razão de viver. Por isso, acredito que, como nos refere Dostoiewski, ‘a beleza que salvará o mundo’ e, na minha opinião, não há beleza alguma que possa estar fora do amor. 

O amor vence sempre! O desejo do amor não desaparece do coração do homem, mesmo no meio de uma guerra. O desejo de amor, há de transformar-se no desejo de paz e do desejo de paz surgirá o fim da guerra…

A seguir!!! A seguir virá o ressentimento e terá de existir muito amor transformado em perdão para curar o passado.
Estou certo que as mães russas conseguirão em batalhas de amor superar o desejo de poder que emana do coração dos homens. 

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