Opiniao

Comunicar é uma arte, governar é outra!

Um dos mais recentes exemplos de como a comunicação é quiçá mais importante do que governar, é o recente caso das pensões, em que o anúncio desastroso do primeiro-ministro que, ao não reconhecer inicialmente (e explicar) o respetivo corte a partir de 2024, se tem tornado um flagelo para a popularidade, quer do Governo quer do próprio António Costa. 

Comunicar é uma arte, governar é outra!

Saber comunicar é uma arte que não está ao alcance de todos. Por isso, não surpreende que existam tantas agências de comunicação que se encarregam de, com mestria, transmitir as ideias dos seus clientes e, quantas vezes, defender os mesmos em imbróglios altamente delicados, como sejam processos legais e outros. 

Em junho deste ano, soubemos que o Governo contratou um novo Diretor de Comunicação (João Cepeda) para um dos cargos mais importantes para este PS que nos governa há 7 anos com diversos assessores comunicacionais espalhados por diversos ministérios, mas finalmente agora a funcionar de forma coordenada (ou pelo menos com condições para isso).

O cidadão normal já se tinha apercebido de como estes cargos de diretores de comunicação são importantes, sobretudo os mais atentos ao futebol deste país (uma larga maioria dos cidadãos), em que os 3 (três) grandes têm equipas pagas a peso de ouro para dirigir as guerras e guerrilhas comunicacionais que infestam o futebol. Não tem sido grande exemplo, como se nota pela permanente crispação entre estes clubes que dedicam rios de dinheiro a fomentar a maledicência e a alimentar ódios, destruindo o ambiente do futebol em Portugal.

Regressando ao Governo (porque o futebol não é para aqui chamado), desde há muito que a comunicação é considerada como absolutamente essencial e, assim, não surpreende que o ‘Zé Povinho’ seja onerado com mais estes custos dos que, não ajudando a governar, são essenciais para suprir as diversas lacunas comunicacionais, por vezes desastrosas dos nossos governantes. 

Um dos mais recentes exemplos de como a comunicação é quiçá mais importante do que governar, é o recente caso das pensões, em que o anúncio desastroso do primeiro-ministro que, ao não reconhecer inicialmente (e explicar) o respetivo corte a partir de 2024, se tem tornado um flagelo para a popularidade, quer do Governo quer do próprio António Costa. 

Pressurosamente, já certamente ‘com o dedo’ do diretor de comunicação, saltaram à liça Vieira da Silva, referindo a necessidade de se mudar a fórmula atual de cálculo das reformas que perdura desde os seus longínquos tempos de ministro de Sócrates em 2007, bem como Ana Mendes Godinho, lançando o tema da sustentabilidade, como fator aterrador e inibitivo da atualização a fazer de acordo com a atual fórmula.

Assim, foi introduzido o tema da sustentabilidade que, pela sua relevância estrutural, se pretendeu que ajudasse a fazer as pessoas esquecer a realidade de um corte nas pensões de Eur 1000 M (só em 2024, sem contar nos anos seguintes, pelo efeito da diminuição da base de cálculo em 2023) que largamente ultrapassa o corte de Eur 600 M do tempo de Passos Coelho, num Governo espartilhado pela troika que o PS se viu obrigado a chamar e a aprovar o respetivo memorando de entendimento. 

Pressionado pelo Parlamento, dadas as faltas de suporte e respetivos detalhes a sustentar a afirmação de Ana Mendes Godinho, lá foram entregues rapidamente uns cálculos que, de imediato toda a oposição se tem entretido a criticar, pelas imprecisões existentes nas contas apresentadas, em que se privilegiou apresentar o impacto dos aumentos da inflação estimada em cerca de 7,4% em 2022 e que esgotaria a almofada das pensões por 2040 em vez de 2050 e os saldos negativos já em finais da corrente década (em vez de por volta de 2030, como se refere no OE apresentado em abril passado).

Entre as observações pertinentes efetuadas, sobressai não se ter considerado (i) o aumento de contribuições de 2022, que se estima em Eur 1,27 MM, resultante de mais emprego ou melhores remunerações; (ii) o efeito, em 2022, das reduções no Subsídio de Desemprego em consequência do acréscimo do emprego (a execução orçamental a julho 2022 refere uma diminuição de 23,4% face ao mesmo período de 2021), o qual, projetado a dezembro, daria uma poupança de cerca de Eur 300 milhões; (iii) o efeito positivo do infeliz aumento da mortalidade tão discutido nos últimos meses que afeta sobretudo os pensionistas (até já se fala na possibilidade de antecipar uns meses na idade de acesso à reforma). 

Mas, porque justiça tem de ser feita, ninguém também ainda antecipou os efeitos, de sinal contrário: (i) nos Indexantes de Apoios Sociais (IAS) resultante da inflação em 2023; e (ii) da recessão para 2023 e anos seguintes, que irá ter graves implicações no subsídio de desemprego e prestações sociais, não sendo por acaso que o Presidente Marcelo já ande ‘a martelar o juízo’ a Costa para se conhecerem as projeções e que Costa lá vai adiando, dizendo que a data de apresentação do OE 2023 será a 10 de outubro. 

Resumindo, ao introduzir o tema da sustentabilidade, o Governo tentou camuflar o tema do corte nas pensões. Mas, tal como está a suceder com o desastre de gestão no SNS em que beneficiários de seguros de saúde têm aumentado significativamente, uma das possíveis consequências deste susto que os ‘experts’ de comunicação pregaram aos atuais e futuros pensionistas será a (forte) probabilidade dos portugueses da classe média passarem a considerar os planos privados de pensões, certamente com as seguradoras já a ‘esfregar as mãos de contentes’ pelo potencial do bolo que lhes poderá vir a cair no regaço. 

Aguardemos o evoluir das sondagens, mas já se nota e bem o descalabro desse momento, nas últimas divulgadas, pela subida do PSD já a escassos 6 pp de um PS em queda (sustentada). Porque há uma realidade incontornável: os políticos parecem esquecer-se que os profissionais da comunicação são mesmo bons naquilo que fazem, só que, não sendo políticos, pode vir a haver um efeito ‘boomerang’ das mensagens transmitidas.

P.S. – o Governo já percebeu que há um choque entre o ministro da Economia (Costa Silva) e o das Finanças (Medina), a propósito do IRC, que os profissionais da comunicação não conseguirão disfarçar. Um percebe da realidade das empresas e da economia e o outro, tendo como instruções de Costa apertar o cinto, digno sucessor de João Leão, dificilmente cederá no aliviar do IRC. Aguentam-se os 2 (dois) no executivo?

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