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Alfabetos e analfabetos

Em Alfabetos, Claudio Magris cita cerca de 700 autores – e de alguns revela um conhecimento profundo. Como o conseguiu? Confesso que, perante tanto conhecimento, me senti um pouco analfabeto.

Alfabetos e analfabetos

A lguns livros, por serem mais longos ou mais densos, exigem uma dedicação quase canina. Normalmente, essa dedicação compensa, mais não seja pelo sentimento de dever cumprido. Há aquelas páginas difíceis de atravessar a que poderíamos chamar ‘o cabo das tormentas’. Mas depois entramos em velocidade cruzeiro e acabamos por chegar sem incidentes a bom porto, ou seja, à última página.

O ‘cabo das tormentas’ de Alfabetos, livro de ensaios de Claudio Magris publicado em 2013 pela Quetzal, é um capítulo longo, de cerca de 40 páginas, intitulado ‘Praga ao Quadrado’. Para todos aqueles que já calcorrearam as pontes, ruelas e tabernas da antiga capital da Boémia, que apreciam a estranheza da escrita de Meyrink e de Kafka, trata-se de um título repleto de encanto e mistério, que promete revelações surpreendentes. Na realidade, a grande surpresa é o tom um tanto exaustivo, e a insistência naquilo a que Magris chama «literatura de fronteira».

Se procurávamos captar o carácter e o segredo de Praga, somos rapidamente desenganados: esse carácter é intrinsecamente fugidio, híbrido e até paradoxal. Deixo uma frase que me parece constituir um bom exemplo do estilo por vezes complicado de Magris, que funciona quase como um jogo de espelhos: «O mito de Praga é nostalgia da nostalgia, saudade no papel da imagem do papel, então já rasgada da História, da própria realidade nunca possuída».

Mas, como dizia antes, se vencermos o cabo das tormentas somos plenamente recompensados. Ou ainda melhor: se decidimos perseverar durante a borrasca é porque sabemos que a qualquer momento podemos encontrar, como me dizia um escritor amigo, ‘uma pepita no meio da lava’.

É o caso desta passagem notável de Magris sobre a guerra: «No romance de Stendhal [A Cartuxa de Parma] a batalha não parece obedecer a planos estratégicos justos ou disparatados, não parece conhecer ordem ou racionalidade. Tudo é caótico, desnorteado, casual, os soldados correm numa direção, mas poderiam correr na direção oposta, não há uma perspetiva superior que abranja o quadro geral e se sobreponha à perspetiva do soldado que, estirado na terra para fugir às balas, só vê diante de si lama e colunas de fumo. […] A guerra não tem mais o perfil de uma totalidade articulada segundo uma lógica própria, como no grande livro de Von Clausewitz, que faz dela o espelho de um mundo racionalmente compreensível. A bela ordem das paradas perde-se na batalha e reconstitui-se, escreve Rezzori, na simetria dos túmulos e das cruzes alinhadas nos cemitérios».

Embora italiano, a grande especialidade de Magris é a cultura centro-europeia, o que decorre de ter nascido já lá vão 83 anos em Trieste, uma cidade junto à fronteira com a Eslovénia, mais próxima de Ljubliana do que de Veneza. Foi professor de literatura alemã e não é difícil perceber que o seu coração pende sempre mais na direção do centro e Leste da Europa do que para o outro lado.

A sua erudição é impressionante. Pelas minhas contas, em Alfabetos cita cerca de 700 autores – e de alguns revela um conhecimento profundo, que não se resume a uma ou duas das obras mais conhecidas. Como o conseguiu? Confesso que muitas vezes durante a leitura, perante tanto conhecimento, me senti um pouco analfabeto.

Mas, para que não pensemos que se trata de um daqueles eruditos aborrecidos, termino com uma pequena história que revela que Magris também aprecia o sentido de humor. O protagonista é um alfaiate judeu a quem recriminam por ter demorado meses a fazer um par de calças. Ao Senhor, dizem os queixosos, «haviam bastado seis dias para criar o mundo». O alfaiate não se atrapalhou: «Sim, mas francamente, vejam como é feito o mundo e como são feitas estas calças»!

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