Opiniao

A rainha Isabel II e a múmia de Lenine

Na única coisa que a extrema-esquerda pode cantar vitória é que os britânicos não foram capazes de fazer como os soviéticos que, depois da morte de Lenine, o transformaram numa múmia.

A rainha Isabel II e a múmia de Lenine

por João Cerqueira

As reações à morte da rainha Isabel II de Inglaterra desagradaram à extrema-esquerda que detesta monarcas que não governam enquanto idolatra ditadores que oprimem o seu povo. Então não é que milhões de pessoas no Reino Unido vieram para as ruas manifestar o seu pesar respeitoso pela morte da rainha? Pior ainda, milhões, talvez biliões, de pessoas em todo o mundo associaram-se à última homenagem a Isabel II demonstrando assim a sua admiração por esta personalidade histórica.

Ora isto não deveria ter acontecido. Indiferença, repúdio ou festança era o que se esperava depois da morte de uma rainha que – dizem eles e elas – representava o colonialismo e a injustiça social. O povo, mais uma vez, não reagiu como a extrema-esquerda que se diz representá-lo lhe vem ensinando desde a Revolução Soviética.

O povo é ingrato e os grande educadores sofrem.

Afinal, foi isso mesmo que aconteceu aquando do falecimento do líder revolucionário Fidel Castro. O povo cubano que ele libertou do domínio ianque, ensinou a ler, a deixar de comer e a lançar-se ao mar em boias de borracha não demonstrou tão intenso pesar e admiração quanto os britânicos. E, entre a juventude cubana, houve até quem celebrasse a sua morte. Já em Miami, os cubanos exilados fizeram uma festas nas ruas pela morte do tirano que os expulsara do seu país – ao contrário dos exilados ingleses no Algarve.

E, no resto do mundo, também ninguém se comoveu com a morte de Fidel Castro. Os valores que ele representava – ao contrário dos valores que Isabel II representava – não significavam nada – ou significavam aquilo que não desejam nas suas vidas – para as pessoas. Apenas os partidos comunistas e os comentadores que adoram tiranias marxistas vivendo em países capitalistas lamentaram a sua morte e escreveram obituários ditirâmbicos. Não andaram enlutados com roupas negras por uma questão de recato, mas, numa homenagem íntima e de acordo com o secretismo comunista, é provável que alguns tenham usado cuecas pretas durante um mês.

Apenas na Coreia do Norte, quando morre um Quim, sucede algo que ultrapassa as manifestações mais emotivas dos britânicos e das telenovelas mexicanas. Aí, sim, o povo inteiro desata numa choradeira incontrolável que inunda as ruas e perturba as baleias. Mulheres e homens arrancam os cabelos, rasgam as vestes e só não comem os sapatos porque não os têm. Alguns, se os deixassem, agarravam-se ao caixão e faziam-se enterrar juntamente com o defunto. No entanto, a Coreia do Norte é um país muito avançado que conseguiu transformar o Comunismo numa monarquia e que desde o século passado ensina os cidadãos a substituir o consumo de carne vermelha por insetos, minhocas e ervas daninhas.

Na única coisa que a extrema-esquerda pode cantar vitória é que os britânicos não foram capazes de fazer como os soviéticos que, depois da morte de Lenine, o transformaram numa múmia. Múmia que repousa num mausoléu na Praça Vermelha que continua a ser visitado por saudosistas, arqueólogos, psicopatas e amantes de filmes de terror. A múmia de Lenine poderá, pois, ser mais famosa do que Isabel II daqui a duzentos anos. Aliás, não se percebe por que motivo o PCP não convidou a múmia de Lenine para a Festa do Avante!. Com tantos músicos talentosos, não seria de estranhar se a múmia se levantasse do caixão para dar um pé de dança – por exemplo o Oub’ Lá dos Mão Morta –, regressando depois ao sono eterno. Alguns camaradas talvez vissem nesse fenómeno um sinal premonitório de que o regresso da URSS estava próximo.

Mas nem os britânicos, nem o resto do mundo – incluindo os atuais egípcios – apreciam a mumificação. Por muito bons que sejam os técnicos, os corpos mumificados ficam com um ar apático, não respondem às perguntas, estão sempre a dormir. Os nobres exemplos perduram na memória das pessoas, nos livros e nos registos audiovisuais. Um corpo conservado em produtos químicos cujas vísceras foram limpas como nos frangos do talho talvez não seja a melhor forma de homenagear os seres humanos que respeitamos e «aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando».

Sua Majestade a Rainha Isabel II jamais poderia ser tratada com um frango. Lenine, o pai do terror soviético, sim. Afinal, um homem responsável por milhares de mortos acaba bem num cadáver embalsamado. E foi pena não terem replicado o seu destino em Fidel Castro e outros ditadores. Para que estas múmias continuem a ser louvadas por outras que não têm consciência do seu estado.

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