Sociedade

Wiriyamu: O regresso de um comando

Vinte e cinco anos após o massacre em Wiriyamu e duas aldeias próximas, Felícia Cabrita volta a Moçambique em 1997 e leva uma companhia especial: o ex-alferes comando Antonino Melo, que liderou a força que praticou os crimes, cumprindo ordens. É um reencontro terrível com o passado. O militar descreve ainda as duras provas a que os comandos eram sujeitos na instrução, e explica como eram «treinados para matar».

Wiriyamu: O regresso de um comando

Em menino ajudava à missa. Mais tarde foi escuteiro. A igreja ficava mesmo em frente da sua casa: um rés-do-chão pintado de verde, com o toque algarvio da platibanda. Jardim cuidado na entrada, e um quintal com uma bananeira onde inventou os primeiros perigos da vida. O número 136 da rua Comandante Diogo de Sá, um cantinho da classe média portuguesa numa cidade de uma colónia africana: Beira, segunda capital de Moçambique.

O padre Vasco Fernandes era o seu confidente. Quando tinha dúvidas procurava-o, como daquela vez em que, curioso do corpo feminino, lhe pediu um livro sobre sexualidade. No entanto, sempre foi tímido, silencioso com as mulheres. Nenhuma pinta de namoradeiro. Fez o liceu sem perder um ano, nem mau nem bom aluno.

Anos sessenta, tempos de mudança; mas de independência nunca ouvira falar. Que aquela terra era sua, ai isso era. Chegou lá aos quatro anos. Vinha das bandas de Águeda, filho de gente operária, no atropelo da fortuna.

 Quando entrou no segundo ano de engenharia, chegou a sua hora. Assim se dizia quando um mancebo era chamado para a tropa. Tentou escapar, claro. A família meteu cunhas. Nada feito. Talvez conseguisse ser amanuense e fazer a guerra de caneta em punho. Também nada feito. Sem querer, acertou no inferno, perdeu a paz. Tinha vinte anos e dotes para tropa de elite – é selecionado.

Em 1972, vésperas de Natal, dirige a 6ª Companhia de Comandos na ‘Operação Marosca’. E num dia matou...matou. Matou para cima de três centenas de pessoas. Página negra da guerra colonial, que ficou na história como o ‘massacre de Wiriyamu’. Passados 25 anos, Antonino Melo regressa à aldeia que arrasou. Na bagagem, leva uma fotografia do terror de que foi protagonista; e a coragem, surpreendente, de quem quer fazer História e abraçar-se ou morrer às mãos de quem destruiu.

 

Regresso a África

Quando o avião levanta voo, Antonino finalmente acredita. Ia ver a sua terra. Nunca sentiu Portugal como pátria. Aterrou em Maputo com a cara colada à janela e o corpo roído de excitação. No rosto, uma expressão infantil; nos olhos, a inquietação. Só o corpo direito, passo de marcha, cabeça levemente erguida, denunciam a postura de comando, quer dizer, ex-comando. Desde que aceitou o convite para voltar a Wiriyamu, perdeu o sono. Acordava a meio da noite, aflito. Num sonho, embrenhara-se na selva, perdera-se. Andava à caça, aparecia um leão, trepava para uma árvore. Escondia-se. Já não conseguia adormecer. As imagens da tragédia daquele dia 16, enterradas anos a fio no arquivo da memória, projetam-se a cores numa máquina enferrujada, que perdeu a tecla stop.

Aos sábados deve haver sempre sol. Aquele começou com tiros e acabou em chamas.

Antonino salta do helicóptero, logo seguido pelos outros elementos do grupo, 25 homens. Os Fiats, contrariando as ordens, tinham feito bombardeamentos na periferia da aldeia. Os dois grupos de comandos que, dois dias antes, haviam sido lançados em duas aldeias próximas de Wiriyamu para cortar a fuga à população e aos elementos infiltrados da Frelimo, protegem-se das bombas. Um dos comandos berra: «Filhos da puta! Estes gajos querem-nos matar a nós ou aos turras?» O alferes que está em Chaola iça numa árvore um pano vermelho, para lembrar à força aérea que também estão na zona. Antonino comanda a companhia, por desígnio do destino: quando o comando da zona operacional de Tete decidira a operação, o capitão estava com hepatite. Era a primeira vez que faziam uma aproximação a uma base com a ajuda dos Fiats. Colunas de fumo erguiam-se do mato. O jovem alferes avança com uma expressão neutra. Os aviões tinham lançado a confusão, mulheres e crianças fogem espavoridas sem adivinharem o que estava para vir. Antonino vê-se à rasca para os travar. Ordena aos seus homens que os agrupem. Tinha-se transformado num instrumento bem oleado da máquina de guerra. E a mãe que tinha chorado quando ele partira para a tropa, receosa pelo filho único, aconselhara-o: «Tem cuidado com a chuva, vê lá não te constipes!».

 

O horror - 1

Apenas acabava de começar. Enquanto os dois elementos da DGS que o acompanhavam iniciam o interrogatório, dá ordens para que se monte a segurança à volta do aldeamento. Um eventual ataque do inimigo só podia vir de fora. E os soldados que vão para a orla do mato são os que têm mais oportunidades para improvisar. Porque quando se chama a morte dá-se uma vertigem febril.

Os outros soldados revistam as palhotas e separam os homens mais novos dos outros. Era sempre sobre aqueles que caíam as suspeitas de serem ‘turras’.

‘Tinta’ tinha o azar de ser novo e é dos primeiros a ser interrogado. Que não, nada sabe sobre a Frelimo, repetia com as pupilas dilatadas de quem encontra o fim. Chico Kachawi, o negro da DGS, grande e musculoso, feições angulosas e coléricas, esmaga-lhe o crânio com um pau. Pisa-o depois de morto para gáudio da tropa, que promete rebentar de tanto riso. Chico era o estratego mais apaixonado e foi quem disparou o primeiro tiro. «Mata a gazela», espicaçava os soldados, enquanto as vítimas tentavam fugir.

As mulheres não eram poupadas. Primeiro violadas e depois abatidas, como em todas as guerras. «Vais com a barriguinha cheia», diziam os valentes quando largavam o gatilho. Dukiria foi uma entre muitas, mas conseguiu sobreviver. Depois de ‘Tinta’, o marido, ter sido abatido, cinco homens empurraram-na para o meio duns arbustos. Serviram-se, e o último roubou-lhe as missangas que usava à cintura e colocou-as ao pescoço, como um troféu.

Antonino andava de um lado para o outro, dava ordens, zelava pela segurança dos seus homens. Espiava as caras dos que o rodeavam, à procura de informações. Não podia ver tudo o que se passava. A ação desenrolava-se simultaneamente em três aldeias. Partira contrariado para aquela operação. Não gramava trabalhar com a PIDE, as informações que lhe davam a maior parte das vezes não levavam a nada. Mas um comando nunca discute uma ordem. A companhia tinha sido enviada, pouco tempo antes, para o rio Mazoe, a poucos quilómetros de Tete, para dar cobertura ao material chegado da África do Sul e do Malawi, destinado a Cahora Bassa.

 

‘Abater tudo o que mexe’

Desde que começara a construção da barragem, a Frelimo concentrava os seus esforços naquela zona. Raimundo, mais conhecido por Dalepa, ou ‘bicho que fede’, é o comandante escolhido pela guerrilha. Acabaria por morrer por um desgosto de amor, mas antes fez a vida negra aos portugueses. Um avião dos Transportes Aéreos que sobrevoava Wiriyamu e Juwau é atingido. E Joaquim Sabino (ver edições anteriores), inspetor-chefe da DGS, recebe informações de que esta zona é um santuário da Frelimo. Ainda por cima, um grupo da 6ª companhia sofre uma emboscada e um furriel fica com a bacia esmagada. Isto atiça os militares ao ajuste de contas. A ‘Operação Marosca’, que já há algum tempo vinha a ser preparada, precipita-se. Antonino é chamado à ZOT pela segunda vez. A estratégia é delineada e as ordens são claras. «Abater tudo o que se mexe, não deixar ninguém vivo, limpar a zona». O alferes executou a operação como uma máquina cega.

Na retaguarda, fora do alcance da mira do comandante, os militares eram excitados pelos impulsos mais extravagantes. Caprichava-se na escolha da morte. As mulheres são usadas sem pudor. Os homens caem à paulada, pisados, outros a tiro. Um soldado de Tete, mais audaz, matava as crianças à faca. Atirava-as ao ar como a uma bola de trapos e acabava com as suas graças na ponta da lâmina. Os que tentavam fugir eram abatidos a tiro. Também juntam homens e mulheres em filas, colocam-se em cunha, e berram: «Batam palmas para se despedirem da vida!». De seguida disparavam. Os corpos que caíam produziam um barulho surdo. Depois cobriam-nos com mato e lançavam o fósforo. As crianças pareciam línguas de fogo entre o fumo.

 

O horror - 2

Pendurada ao pescoço, Antonino traz sempre uma cruz de prata enrolada a trouxe-mouxe num fio de paraquedas. Era católico, sempre rezou. Mas desde que entrara para os comandos perdera a prática. Se a mãe o visse nestes preparos…

 Os homens avançavam à voz de comando. Aquilo era um alvo. Sim, não era propriamente a base tipo, com trincheiras, esconderijos subterrâneos. Mas não havia forma de recuar. Eram aldeias que, segundo a Pide, abrigavam a guerrilha, ponto final. Metiam dez, talvez quinze pessoas numa palhota – é difícil precisar, porque foi tudo muito a correr –, e quando ficava cheia lançavam as granadas e fechavam a porta. Ouviam-se primeiro uns gritos desesperados, depois silêncio quando as granadas rebentavam, o teto subia, caía, a palhota incendiava-se. De novo gritos, choro. Poupavam-se balas. Morriam queimados. Às vezes, a porta abria-se, alguém tentava fugir. Tiros. «Nestas operações, matar um ou vinte é indiferente». Depois de desencadeadas, é para cumprir e seguir em frente. Tudo a eito. A mesma expressão neutra. Eliminar homens ou mulheres é indiferente, as balas também são cegas. Para as crianças, a mesma sorte: vivas, são uma fonte de informação para a guerrilha.

A confusão e a violência continuam, solícitas com a euforia da morte. O alferes brinca: «Quem quer casar comigo?», De repente sai uma menina de uma palhota. Ajoelha-se e agarra-o pelo camuflado.

Não sabe ao certo o que ela lhe disse, falava em dialeto. Talvez, «Salva-me!»... Não! Tem a vaga ideia de que ela murmurou: «Não me mates!». Nessa altura, quando sentiu as mãos pequeninas a segurarem-no e olhou para baixo, percebeu que não teria mais de cinco anos. Mandou-a partir com a mãe. Durante anos esteve convencido de que elas é que o tinham denunciado. Com o tempo havia de esclarecer a questão.

 

De volta a Moçambique

Mal sai do aeroporto, em Maputo, procura cheiros, edifícios, restaurantes do seu tempo. Os empregados parecem ter congelado na mudança. «O que é que o patrão quer?», inquirem subservientes. ‘Então e a revolução?’, indigna-se ao descobrir o vocabulário do seu tempo de colono. Pouco ou nada lhe diz a capital, a não ser recordações da lua-de-mel, já depois da independência, quando ainda nem pensava fugir.

Antonino encontra-se com antigos subordinados, confirma fidelidades da tropa, mas é impossível recuar a esse tempo com a displicência da juventude. Descobre mentiras e empecilhos que travam a história. Já que vai meter a mão na merda, desta vez que seja para sempre, pensa. Com Baúque, antigo furriel, e Silva, da mesma patente, recordam alegrias e tristezas: colegas que entretanto morreram na miséria; o Faria que fugiu para a África do Sul e se alistou como mercenário e assim morreu. Quem lhes disse que tinham de defender a pátria, quem lhes sobrecarregou a consciência com este cheiro de morte? Verdade seja dita que nenhum deles estava calhado para a guerra, muito menos para comando. Mas a Baúque, negro de Maputo, nem lhe passou pela cabeça fugir. Se não fosse à tropa, não arranjava ocupação, ficava-lhe barrado qualquer emprego digno. Quando lhe sai na rifa aquela especialidade, não teve pudor em anunciar aos superiores a falta de vocação. Tinha medo. Era arriscado aquele ofício. Mas o capitão Belchior avisa-o. «Com ronha ou sem ronha vais parar aos comandos». Depois da independência, o capitão pôs-se a milhas, mas ele ficou a responder pelos seus crimes de guerra. Samora Machel leva a julgamento todos os africanos que colaboraram com os colonos. Sorriso descarado de quem faz o que quer das massas, óculos escuros, o novo Presidente da República Moçambicana inicia o interrogatório com um alerta: «Quando libertámos Moçambique, os comprometidos com os colonialistas ganharam também uma pátria... Só os homens pequenos fazem vinganças... Mas só conhecendo o passado faremos a perspectiva do futuro».

 

Depois da independência

Baúque, entre outros, narra o massacre de que foi ator, especifica as ordens, enumera nomes de superiores da ZOT. Depois do julgamento, passou um mau bocado. Noutras ex-colónias a coisa fiou mais fino, muitos foram fuzilados. Ele viu a sua fotografia exposta no local de trabalho e no bairro onde vive: «Era uma forma de as pessoas nos controlarem e de sermos reintegrados na nova sociedade».

Antonino segue a meada atento, mas tem o coração cheio de pressa para reencontrar o passado. Interroga-os. «A mim disseram-me que estava a defender a pátria e estava mesmo convencido disso. Quando matámos aquelas pessoas não tínhamos noção do que fazíamos», responde Baúque, sem necessitar de postiços. Antonino concorda. Wiriyamu, na altura, foi uma operação igual a tantas outras, o número de vítimas é que foi diferente. Freitas opõe-se, tinha-se mantido durante longos minutos sem falar, muito quieto. Larga agora sentenças de uma lucidez insólita, incapaz de recuar no tempo: «Já na altura tínhamos a noção de que aquilo era um crime, uma chacina de inocentes». Antonino entristece, fica crispado, sente que o medo ainda domina o antigo furriel, que lhe eriça a pele. Entende. O outro ainda lá vive. Mas a tolerância não o trava, quer ir ao fundo da tragédia: «Nós na altura pensávamos todos da mesma maneira, ele está a falar para a plateia».

 

Na instrução

Recordações enroscam-se noutras. Tem vontade de gritar ao tempo que guine atrás. Na recruta, era um jovem inocente saído da faculdade. Vivia com o alívio próprio dos rapazes. Se o tempo tivesse saltado ali… Não adivinhava os sarilhos que o esperavam, os perigos que teria de vencer. O sangue que faria rolar.

E que raiva quando recorda o primeiro dia de instrução! Um grupo de indivíduos, comandos de tarimba, calças camufladas, blusa branca, trombas cerradas, cumprimenta-os aos berros: «Está a formar, suas Amélias!». Pernas abertas o mais possível, braços cruzados atrás das costas, peito para fora, queixo levantado, olhos colados no céu. Eram dez da matina, o sol já queimava. O jovem alferes não estava habituado a esta posição. Passados 5 minutos, começa a sentir as pernas bambas, mais cinco e as pernas doem, ao fim de vinte é insuportável. Com subtileza, tenta aliviar a dor fechando um pouco os joelhos. Castigo: flexões, cambalhotas, cangurus, correr até uma viatura e dar vinte cabeçadas num pneu. Caminha com os pés e as mãos no chão e grunhe como os porcos. Onze horas, meio-dia, de comida nada, nem uma gota de água, nem uma brisa. Uns desmaiam. E ele: «Porra! Por que é que não fugi à tropa?».

O ponteiro do relógio a girar bêbado, as dores nas costas e no pescoço a aumentarem, as pernas nem as sente, perdeu a conta aos que já desmaiaram. Ele não. A cabeça parece uma melancia a rebentar com o calor, a língua seca, os outros a beberem água, os colegas a guincharem: «Somos uns porcos». E a mãe que só o prevenira contra a chuva e as gripes.

 

Uma ilusória ‘salvação’

De repente, parece anunciar-se a salvação. Um antigo colega de liceu, comando feito, aproxima-se com um oficial. Este pergunta: «Instruendo, conhece este nosso comando?». Resposta lógica: «Sim, conheço». Sem querer, abria caminho a novas torturas: «O quê? Tem a ousadia de dizer que conhece este comando?». Paga o destempero com cinquenta flexões. Repetem a pergunta. Mete o pé na argola, de novo: «Não, não conheço». Pobre labrego: «Tem a ousadia de dizer que não conhece um homem que foi seu colega na escola?». De novo, o castigo. Nesta altura já não raciocina, só sente raiva: «Um dia vais pagá-las!». Ainda não descobriu que irá defender com ardor a instituição que nunca falha e talha os homens para serem heróis ou morrerem pela pátria E ele seria igual ou pior do que aqueles que o enxovalharam naquele dia. Mais tarde, já com a boina castanha, repetiria esta cena com um novato seu antigo compincha dos bancos de liceu e que morreria mais tarde na prova de choque da especialidade.

 Antonino mede o tempo com uma serenidade silenciosa, destranca dores antigas. Recorda a mãe do amigo, no funeral, agarrada a ele: «Assassinos, mataram o meu único filho!». Este partia com salvas de tiros e honras militares, e ela, quando tempos antes se despedira dele, provavelmente só tinha pensado no frio, na chuva, nas constipações...

 

‘Estão a gozar connosco!’

O aspirante está para iniciar a prova de choque, ou seja, é um naco de barro que se trabalha, morre ou chumba no curso. Parte com a mochila, ração de combate para uns dias, cantil, 0,75 L de água. Depois de uma viagem não muito longa, chega a um local descampado, onde montam as tendas. Fora recentemente queimado – e a cinza espalhada sufoca-os. Instrução: correr em círculo, sem largar a arma. À ordem do instrutor, atira-se ao chão, rasteja. «Está a deitar! Está a rolar!». E o sol a pique, sem clemência. «Todos a tocar as minhas botas». E eles, enrolados uns nos outros, a esmagarem-se para tocar as solas do instrutor. A língua a colar-se ao céu-da-boca, numa mistura de saliva, pó, cinza e ódio. «Quero água», pensava. Quando acabou a regata, espreita o interior do cantil, vê o fundo, está feito. Os altifalantes instalados na mata anunciam «Coca-Cola fresquinha», «cerveja gelada», ouvem-se os barulhos de água a cair num regato: «Que merda é esta, estão a gozar connosco!». Mal adormece, acorda com rebentamentos de granadas. O pior era a sede. Mais um que desmaia. Se estivesse no lugar dele...

O aspirante ganha manhas para sobreviver. Que desgraça ser desenrascado. Rapidamente aprende a defender-se, já está a competir com o instrutor. O barro começava a ser amassado por mãos de bons artesãos. «Tenho de aguentar». Um dos instruendos é apanhado a comer lama, a enfermaria está apinhada. Uma manhã, quando acorda, Antonino descobre o milagre do cacimbo. Pega na toalha, passa-a pelas folhas, torce-a para dentro de uma lata de conserva. Consegue encher duas latinhas, água com sabor a espuma de barba. Volta a formar, mais umas cambalhotas, já não aguenta. Que bom estar na enfermaria a soro! Mas mal acaba o balão volta à parada. «Não desejo a ninguém o que passei, nunca mais passarei por outra».

 

A ‘semana maluca’

Fim de prova, regresso a Montepuez. Aprendizagem: montar e desmontar a arma, aulas de minas e armadilhas, técnicas de avanço no mato, assaltos a bases, as mais variadas técnicas de combate de guerrilha. À noite, quando chega à caserna, tem na cama folhas de propaganda contra a Frelimo. O inimigo está a querer destruir o país, tem de defender a pátria do invasor.

 Uma das fases mais estranhas do curso foi a semana maluca. Tudo era feito ao contrário. De noite era dia, e vice-versa. Às seis da manhã, o instrutor aparecia de óculos escuros e dizia: «Que sol radioso! Vamo-nos bronzear! Tirem a camisinha para esses corpos apanharem sol!». Dormiam durante o dia, e às vezes aparecia o instrutor de lanterna na mão para fazerem instrução noturna no meio do mato. «Cuidado, vê-se mal, vejam lá onde põem os pés!». Depois punha-os a rastejar no meio de restos de comida podre, tripas de vaca e outras besuntices: «Por isso é que as vossas miúdas agora estão a dormir com outro, não há quem aguente esse cheiro». Antonino entrava na lógica, sentidos embotados, começava a competir com o instrutor, repetia: «Um dia vais pagar, meu cabrão de merda. Sou mais resistente do que tu!».

O aluno de engenharia aprende a montar armadilhas com granadas, a andar num trilho armadilhado. Se falhas, morres: «Não posso falhar! Não posso falhar!». Alguns morriam, claro. A vida militar é assim, não diz nada com nada.

Falta a prova de fogo. Já muitos dos seus colegas ficaram pelo caminho. Quem chora, é eliminado. Antonino aprendeu que há coisas que precisam de ser mantidas trancadas e fora de vistas. Raramente se descontrola. O último exercício era mesmo a sério: tiros reais, granadas no meio do rio, os corpos pareciam atingidos por fortes descargas elétricas. A dada altura, alguém tenta tirar-lhe a arma, enquanto dois o soqueiam. O corpo habituara-se à pressão da G3, e à dor. «Nunca se dá a arma!», tinha aprendido. E assim se conseguiu salvar mais tarde quando, por voltas tortas, os mandaram enterrar os mortos de Wiriyamu, desarmado.

De repente, enquanto o aspirante rasteja por baixo de arame farpado, atiram-lhe um bocado de dinamite a arder. Consegue agarrar o petardo e atirá-lo por cima do arame. Rebenta, metros adiante. «Estes gajos são doidos!». O certo é que chegou ao fim e com distinção. Para mal do seu futuro, para peso da sua alma: «Fomos treinados para matar, sem dúvida nenhuma!». l

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