Hélder Martins. Presidente da AHETA

'Algarve esteve quase esgotado e não foi um grande problema estar mais caro'

Empresários tiveram de repercutir aumentos de custos e, mesmo assim, houve quem não estivesse com a sua oferta em pleno devido à falta de mão-de-obra. Portugueses, mais uma vez, ‘salvaram’ o verão.


Por Daniela Soares Ferreira e Sónia Peres Pinto

O Algarve voltou este verão a suspirar de alívio, depois de alcançar a tão desejada retoma?
Neste momento, ainda há várias unidades com ocupações acima de 90% durante a semana e quase nos 100% aos fins de semana. Setembro também teve uma excelente ocupação e outubro vai seguir o exemplo. Depois entramos nos produtos mais sazonais, como é o golfe, os congressos, mas que não tem a mesma capacidade, em termos de quantidade, que tem o verão. É verdade que dá para respirar um pouco, mas não dá, claramente, para resolver os problemas dos dois anos em que parámos e que deixou as tesourarias das empresas completamente destruídas. No entanto, sair de um período tão grave como foi este da pandemia, e rapidamente recuperarmos e ultrapassarmos números do melhor ano turístico de sempre, é qualquer coisa que temos sempre de saudar. Mostra a resiliência que existe no turismo. O balanço que podemos fazer deste verão é de uma excelente ocupação. Quanto aos clientes há uma nota que surge sempre que é o aumento de preços. Esse foi um dos dilemas que tivemos que lutar mas o que sentimos, de grosso modo, é que os clientes diziam que estava mais caro – aqui e em todo o lado – mas que puderam finalmente fazer férias. Não creio que tenha sido um grande problema pelo facto de o Algarve estar mais caro. Está o Algarve e está todo o mundo. 

E as empresas também sentiram esse aumento de preços..
Para as empresas esse foi outro problema acrescido porque tiveram de incorporar esses aumentos nos custos. Há preços que conseguimos aumentar, outros não. Mas não devemos só chorar, devemos ser positivos. O Algarve fez um excelente verão em termos de ocupação e voltou a estar na mente das pessoas, essencialmente dos portugueses.

Era previsível este crescimento?
Tão grande, não. Esperávamos crescer e hoje a procura faz-se, cada vez mais, sem grande antecedência. Já ninguém reserva com meses de antecedência. As pessoas esperam pela oportunidade, discutem o preço. Era expectável que crescêssemos. Todos diziam que 2023 é que ia ser o ano, agora já se diz que será 2024. Havia procura e também interesse, por parte dos parceiros. Confesso que não esperava tanto, mas quem foi responsável por este aumento significativo foram os portugueses. Já que houve mercados essenciais para o Algarve que baixaram no verão. Foi o caso do Reino Unido e da Alemanha e são mercados extremamente importantes fora do pico do verão. No pico do verão os portugueses sempre preferiram o Algarve. Também temos de ter em conta outros fatores, como o problema dos aeroportos. Por exemplo, vou para o aeroporto e não sei se chega a mala, se tenho voo, etc. 

Mas a quebra destes dois mercados deveu-se apenas à instabilidade que se viveu nos aeroportos?
A isso e à situação interna. Neste momento fala-se que a Alemanha poderá entrar em recessão e os alemães são, na minha opinião, os povos que mais se acautelam. Ou seja, antes de acontecer alguma coisa começam logo a retrair. Já o mercado inglês, com os problemas que tiveram nos aeroportos, a par da baixa da libra, ressentiram-se. É evidente que, quando assistimos ao Brexit pensámos que iríamos ter uma quebra muito grande no mercado inglês e esse mercado acabou por subir. Está a dar bons sinais, mas também temos que pensar que poderá haver uma tendência de diminuição. Por outro lado, a nacionalidade que mais emergiu foi a americana, apesar de não haver voos para o Algarve. Têm de vir para Lisboa, esperar três ou quatro horas para chegar ao Algarve. E também temos mais americanos a comprarem casa. Se tivéssemos um voo que facilitasse um bocadinho mais a chegada dos americanos ao Algarve ainda seria melhor. Ninguém gosta de atravessar o Atlântico durante a noite e depois ficar 4h no aeroporto de Lisboa, sem contar com os atrasos.

Falou no aumento de preços. Era inevitável repercutir os valores?
Deveu-se a tudo o que comprámos. Em primeiro lugar, energia, que é o aumento mais dramático. Dependemos da energia, desde que abrimos a porta ao cliente até a fecharmos. Há aumentos brutais nesta matéria e não estávamos preparados para isso. Consequentemente a isso assistimos ao aumento dos transportes, dos produtos alimentares. Isto é, tudo o que comprámos, desde a simples folha de papel higiénico, até à alimentação, passando pelos combustíveis, tudo aumentou brutalmente. E com aumentos na ordem dos 15%, 20%. E, com isso, não havia outra solução a não ser vender os quartos e incutir esse aumento. Em grande parte conseguiram-se incutir, mas não se conseguiram todos.

As medidas anunciadas pelo Governo para apoiar as empresas foram suficientes?
Não. O Governo devia, como outros países fizeram, mexer em dois impostos principais que era o IVA e o IRC e os impostos sobre o trabalho. O Governo vir dizer que se deve aumentar os salários, é uma parte, mas nós respondemos que era bom que o Governo pensasse também em baixar os impostos porque a carga fiscal é outro parceiro com que temos que lidar que é assustador. Muitas das medidas – temos de dizê-lo – durante a pandemia foram fundamentais. Se não fossem as medidas que rapidamente apareceram e resolveram o problema das empresas teríamos fechado, com exceção dos grandes grupos que tinham uma estrutura financeira muito sólida. Neste momento, o que achamos é que muitas dessas medidas configuram em financiamento. As empresas não precisam de mais financiamento para se endividarem mais. Precisavam, eventualmente, de ter um sinal como se assiste em outros países, de uma redução ao nível de carga fiscal, para terem alguma folga. Na questão dos salários – que já aumentaram bastante este ano e temos de aumentar mais no futuro – é igual. Se houvesse uma diminuição dessa carga fiscal quer sobre o trabalhador, quer sobre a empresa, seria muito mais fácil fazê-lo. Vamos esperar que haja essa sensibilidade.

O ministro da Economia tem falado sobre essa necessidade mas o ministro das Finanças está menos sensível O que espera do próximo Orçamento do Estado?
O ministro da Economia fez algumas declarações muito interessantes nessa matéria, mas vieram logo uma série de players dizer: ‘Atenção, quem é este senhor que está a falar aqui? Não é isso que está previsto’. Gostei de ouvir o discurso do ministro da Economia que tocou exatamente nesses pontos, mas não tenho esperança que isso seja repercutido em grande medida no Orçamento. Vamos ver o que vai acontecer mas era bom que o Governo desse um sinal porque os dias que vêm aí não são, claramente, dias de muito sol. São dias de sol com algumas nuvens. E temos que enfrentar esse período, não sobrecarregando mais as empresas com mais financiamentos porque os financiamentos têm que se pagar. Também não queremos só subsídios, queríamos era um aligeirar de algumas medidas, de algumas decisões, que pudessem resolver esse problema.

E quando a inflação que não para de subir e quando o BCE já acenou com mais duas subidas de juros. A retoma poderá ser comprometida?
Vai comprometer. O que achamos é que vai haver uma desaceleração. E depois o crescimento vai ocorrer em 2024. O que podemos vamos fazer em relação a isto? Vamos ter de aproveitar estes períodos para nos prepararmos melhor, para termos a questão dos recursos humanos tratada, a formação, a requalificação das unidades hoteleiras para que possamos, assim que a atividade voltar a acelerar – espero que volte rapidamente – estarmos preparados para isso.

E, nessa altura, as receitas dos hotéis conseguem compensar os aumentos de custos?
Não conseguem totalmente. Vamos chegar ao final do ano com um aumento significativo de receitas, mas também com um brutal aumento dos custos que as empresas vão ter, logo, os resultados serão piores. No entanto, não serão piores do que na pandemia. O que aumentámos em termos de ocupação em relação a 2019 não vai ser equivalente ao que vamos aumentar em proveitos. Mas isto é um fator externo que aparece e temos que lidar com isso, não vai compensar estes dois anos de pandemia e demorará algum tempo até conseguirmos acomodar esses prejuízos todos que tivemos na tesouraria e na estrutura das empresas.

Terminada a época alta há também a época do golfe. Esperam-se muitos turistas? 
Sim, a época do golfe creio até começou mais cedo este ano do que no ano passado. Já é normal ver-se, em alguns destinos mais característicos do golfe, os restaurantes cheios, os campos de golfe também. No ano passado tivemos o melhor ano de sempre em golfe. Houve clientes que não conseguiam hora para jogar golfe e tinham de ir jogar de madrugada. A crise foi muito grande mas o destino não sofreu com a crise, o que sofreu foi o negócio. Os campos de golfe continuam a ter a mesma qualidade e os hotéis também. Houve até quem tivesse oportunidade para se requalificar. O golfe é uma indústria muito importante para o Algarve mas é sazonal e é localizado. Ou seja, hoje praticamente todo o Algarve de uma ponta à outra tem golfe mas há destinos mais fortes do que outros. Outra área que está a crescer extraordinariamente é a questão dos congressos. É normal que os congressos reajam dois anos depois porque marcam-se, pelo menos, de um ano para o outro. O que se viu neste primeiro período até ao verão, e até mesmo após, é que os espaços que trabalham com congressos não têm disponibilidade de dias. O Algarve está a trabalhar bem também em outras áreas, como o turismo ativo, de natureza, náutico, etc. Agora é evidente que temos de ser realistas. Temos um pico brutal no verão e depois temos a sazonalidade que é complicada para tudo: para o negócio, para o emprego...

A realização dos grandes prémios dá outro dinamismo?
Dá dinamismo e dá imagem à região e isso é importante. Temos condições climatéricas boas na época baixa e a possibilidade de grandes realizações, quer no autódromo quer noutros espaços. Há unidades hoteleiras de topo no Algarve que, na semana a seguir à Fórmula 1, tiveram a melhor semana de faturação de sempre, porque os pilotos ficaram cá e muitas das equipas também. Estamos na expectativa de poder voltar a ter Fórmula 1, temos o Moto GP e um conjunto de outros eventos. Embora defenda que o Algarve deveria ter um calendário de eventos mais regular. 

A ideia é o Algarve ser cada vez mais diversificado e não ser apenas sol e praia?
Sim. Tenho um pequeno hotel com 28 quartos que está no interior. No ano passado tive 96% de ocupação em agosto e 80% e muitos em setembro. Há muita gente hoje que prefere estar num sítio mais isolado, prefere estar na natureza. Há uns anos atrás era impensável dizer que se ia fazer um hotel rural no interior porque era considerado uma loucura. As pessoas queriam sol e praia puro e duro. O que acontece no inverno aos hotéis de sol e praia? Os hotéis não tanto, mas muita da oferta das camas classificadas no Algarve são apartamentos turísticos que estão virados para o período de verão. No concelho de Loulé, por exemplo, há um festival de caminhadas numa aldeia do interior e atrai centenas de pessoas.

Nesta altura de guerra, o Algarve pode estar a receber mais pessoas pela distância geográfica?
Sim, acaba por mexer um bocadinho. Quando houve a guerra do Golfo, o Algarve foi beneficiado, porque estamos no extremo e não somos, teoricamente, tão afetados. Não devemos regozijar-nos com o mal dos outros. Este ano, perdemos apenas um voo que tínhamos para o Algarve de Kiev mas não era um voo turístico, era essencialmente para imigrantes ou residentes no Algarve. Em relação ao resto, não sofremos grande impacto. Temos noção que, durante o verão, ou no pré-verão, tivemos alguma deslocalização de clientes essencialmente da zona da Turquia que vieram para o Algarve pela proximidade que tinham do conflito. O que era extremamente importante e não o fizemos durante o período da pandemia era ter havido uma pressão grande, quer das empresas, quer das entidades para requalificar os hotéis. Houve outros destinos internacionais que o fizeram. E, quer queiramos quer não, temos que nos reinventar, os hotéis têm que se adaptar. Um hotel com x anos, tinha duas ou três tomadas de eletricidade. Hoje tem que ter 10, tem que ter USB. Temos de nos adaptar a essas questões e nada melhor do que estes períodos ou de época baixa ou de crise para o fazer. 

A maioria dos hoteleiros optou por fechar totalmente?
Muitos deles fecharam.

Por terem problemas financeiros?
Sim, porque o hotel tem uma estrutura de custos fixa e um quarto de hotel não é como uma garrafa de vinho. Se não vender a garrafa de vinho hoje, vendo amanhã. Um quarto de hotel se não vender hoje, já não o vendo. Quando essa estrutura de custos não é acompanhada por uma estrutura de receitas, as coisas começam-se a desequilibrar muito e as pessoas assustam-se. O apoio que tínhamos era muito importante mas não resolvia tudo. Os hoteleiros tiveram que ir ao fundo do baú à procura de reservas ou tiveram de fazer mais financiamentos para conseguirem preencher essa lacuna. Agora, o cashflow das empresas cresceu significativamente: vendemos mais caro e vendemos muito. E isso permitiu atenuar um bocadinho. Acabaram as moratórias, que também foram importantíssimas, mas houve um conjunto de financiamentos chamados mesmo covid que estão a começar a entrar agora no princípio da época baixa. A partir de agora vamos ter de pagar esses valores. E receio que agora haja, outra vez, este inverno, muita gente a perder o sono por estas questões. E note-se aqui -– e temos que dar o mérito a quem decide – houve uma preocupação do Governo de não deixar cair as empresas. Isso é extremamente importante.

Um dos problemas é a falta de mão-de-obra. Como é que o turismo vai sobrevivendo?
Esse é um problema do turismo, da agricultura, da saúde e de todo o lado. No turismo é preocupante. A AHETA juntamente com outras entidades, como a Região do Turismo, estamos a fazer um debate interno para perceber o que temos de fazer para tornar mais trendy, mais motivador, trabalhar no turismo. Há questões importantes. O salário é uma delas mas não é só. A questão dos horários, a questão das pessoas que na pandemia se habituaram a almoçar em casa, a jantar em casa, estar com os filhos. E, no turismo, obrigatoriamente tem que se trabalhar por turnos e há múltiplas atividades que trabalham de segunda a segunda. Perdemos muita gente e este ano já pagámos mais caro, mais 15% ou 20% ou mais, no Algarve ainda mais, para ter recursos humanos.

Qual é o ordenado médio?
Depende. A nível de cargos de direção, de chefia, não estamos a pagar tão mal. A nível de situações de não chefia estamos a pagar menos e vamos ter de subir. Não podemos oferecer hoje 700 ou 800 euros para uma pessoa ir trabalhar porque o custo de vida aumentou muito mais. Podemos dizer que não somos responsáveis por isso e depois, lamentavelmente, há pessoas que não aceitam trabalhar porque recebem o subsídio de desemprego e trabalham por fora. E há claramente muita gente que faz isso. O Instituto de Emprego sabe disso e há fiscalização sobre essa matéria. Mas, por exemplo, no início deste verão havia cerca de 6.500 pessoas inscritas no Algarve na área do turismo. Fizemos um projeto-piloto com as associações, empresas e Instituto de Emprego, e só contratámos oito ou nove. Algumas delas não chegaram a assinar contrato.

Já tinha dito ao Nascer do SOL que não conseguiam contratar chefes...
Exatamente. Há uma série de cozinheiros inscritos. Hoje, cozinheiro ou chefe, é das profissões que mais se procura. Houve pessoas – não estou a dizer nessa área – que quando foram contactadas pelo Instituto de emprego diziam que só podiam ir à segunda-feira. Porquê? Porque estão a trabalhar. Ou só podiam ir depois das 20h. E houve pessoas a quem foram feitas entrevistas, reuniam condições, foi-lhes dito que sim, mas por terem que trabalhar à noite não aceitaram. Houve hotéis onde foram selecionadas pelo menos 60 pessoas para uma área – housekeeping –, apareceram 10 e nenhuma aceitou. Conclusão: estas pessoas não querem trabalhar no turismo. A solução ideal não é ir buscar lá fora porque são pessoas que não têm os nossos costumes, se calhar são de outra religião, de outra língua. É complicado mas temos que ter braços. Este ano chegámos a ter hotéis a precisar de quatro, cinco pessoas para copa e não tinham ninguém. 

É preciso subir ainda mais os ordenados?
Há uma questão que os empresários têm de mudar, ou seja, quando fazem uma oferta e dizem que pagam 705 euros, que é o salário mínimo, não podem estar à espera de terem muitas respostas. O que é que os empresários fazem normalmente? Dão aquele valor base, mas consoante as capacidades e o curriculum das pessoas depois discutem o valor, o que acho mal. Entre dizer que oferecem 700 euros ou dizerem 800, 900 ou mil euros, que é o que acabam por pagar, porque não dizem logo que oferecem mil? 

Algum hotel deixou de abrir por falta de trabalhadores?
Não porque as unidades hoteleiras têm uma parte significativa dos seus recursos humanos a contrato sem termo. Mas no pico de agosto vi isso em Lagos, em que hotéis com dois pisos só abriram um. Têm um piso a mais mas não tinham equipa. E em outros hotéis deixaram de vender quartos porque não tinham equipa. Isso ainda hoje acontece. Imagine, tenho x pessoas, tenho 20, 30, 50 saídas – e as saídas são feitas normalmente às 12h – e às 15h tenho clientes para entrar, se não tenho capacidade para limpar esses quartos, a solução foi deixar alguns para ‘vender’ no dia seguinte. Houve prejuízo nessa matéria. E depois há outro problema que se chama alojamento. Antigamente íamos buscar pessoas ao centro, ao norte, ao Alentejo, que vinham para o Algarve, agora o alojamento tem um preço proibitivo. As pessoas querem arrendar os apartamentos aos turistas e fazem um contrato de arrendamento até maio e, a partir daí, não querem. Portanto, um casal que vá hoje para o Algarve sujeita-se a pagar, se calhar, por um T1, 700 ou 800 euros. Para fugir a isto vai morar mais para o interior mas depois paga a gasolina. Não é apelativo. Depois tem filhos e há creches e jardins de infância que fecham em agosto. Se vai tentar ter lugar na escola, pode não ter. Não é apelativa essa parte. Defendemos que o hotel A ou B possa ser autorizado numa zona fora da costa construir habitação para os seus funcionários. E até aceitamos que essa construção tenha uma limitação de não poder ser vendida durante 50 anos. Ou que só possa ser utilizada para aquele fim. E aí o hotel tem um shuttle para ir buscar os empregados. 

Isso já acontece?
Um grande grupo hoteleiro do concelho de Albufeira tem um autocarro diariamente a ir para Aljustrel buscar pessoas para trabalhar. Estamos a falar de mais de 100 quilómetros de viagem. Esta é a realidade. O que aconteceu? O Governo encomendou à Organização Internacional das Migrações um estudo sobre migração com dignidade. Fui a Marrocos, a Cabo Verde e vai haver uma outra viagem à Índia. E isto estende-se aos PALOPs. Existe um acordo de livre circulação, em que houve uma alteração à lei dos estrangeiros. Este pode pedir um visto para vir a Portugal à procura de emprego. E tanto em Marrocos como em Cabo Verde há uma grande taxa de desemprego. Tenho ideia que, em Cabo Verde, o desemprego anda na ordem dos 15/20%, mas a maior parte destes desempregos são jovens dos 18 aos 25 anos. Há uma articulação entre o Instituto de Emprego de cá e de lá e a ideia é dizer quantas pessoas precisamos para identificarem as pessoas e podermos entrevistá-las. Aliás, vamos ter uma Feira de Emprego em Cabo Verde, em outubro, onde vai estar a ministra e depois as instituições normais, como as escolas de hotelaria, poderão dar formação até à altura da vinda para cá. Marrocos também se mostrou disponível e, neste caso, põem as pessoas no barco, na fronteira e, a partir daí, somos os responsáveis. Onde é que isto entronca? Noutro problema que se chama vistos. Nestes países, os nossos consulados emitem quatro a cinco vistos por dia. Imagine chegarmos lá e dizermos que queremos trazer 500 pessoas. Vamos ver como é que isto se operacionaliza. Mas esta é uma possibilidade. É a melhor? Não é.

Além do problema da língua...
Em Cabo Verde não existe este problema, mas em Marrocos sim. Não podem trabalhar em front office porque dificilmente falam português, mas temos uma grande necessidade no backoffice. A ideia é que estas pessoas possam chegar em março e terem um mês de adaptação no posto de trabalho, de formação, para em abril, quando começar a fervilhar a época já termos empregados. Por um lado, gostaríamos de não chegar à situação deste ano, que foi de deixar de faturar tendo procura por não ter recursos humanos. Por outro lado, estas pessoas têm de vir com dignidade e voltamos à questão de onde é que as alojamos. Mas é um problema que vai continuar.

E implica um edificado novo?
Ainda esta semana estive num aniversário de um hotel e disseram que já tinham arrendado três apartamentos para pôr pessoas. Por exemplo, por detrás de Faro existe São Brás de Alportel, que é hoje uma vila dormitório, onde todos os apartamentos estão arrendados. Confesso que não tenho nenhuma solução milagrosa. O pagar mais é uma parte importante, a estabilidade é outra e a forma como trabalhamos e como envolvemos as pessoas é outra porque dizem que saíram milhares de pessoas do turismo e querem fazer outras coisas. Quando cheguei a AHETA coloquei um anúncio a dizer que precisava de uma pessoa para trabalhar das 9h às 18h de segunda a sexta-feira e tive dezenas de respostas. Tive de fechar o anúncio no dia a seguir. Quando é para o turismo não tenho tanto.

Por causa dos horários desregulados?
Por causa do horário desregulado e há coisas que os espanhóis fazem que nós não fazemos. Estes têm contratos intermitentes que funcionam perfeitamente. Nós temos uma coisa mais ou menos parecida, mas que não funciona. O que se faz em Espanha? Contrato um trabalhador, ele é meu funcionário sem termo, mas como tenho sazonalidade – em Espanha fecham completamente – durante dois ou três meses que estou fechado recebe da Segurança Social e se durante esse período em que estou fechado tenho o fim de ano então nessa altura tem de trabalhar. Nesse período que trabalha recebe de mim, o que revela que a pessoa está desempregada durante um período de tempo, mas sabe que tem um emprego fixo e sabe que no dia x volta ao mesmo sítio. Isso dá estabilidade, pode organizar a sua vida. Esta poderia ser uma solução. O Instituto de Emprego prometeu, de alguma forma, que iria rever esse modelo que existe, pelo menos, no Algarve para ver como o poderia tornar mais apelativo. Esta quinta-feira assinámos um acordo com a Universidade Aberta, já assinámos com outros para termos formação qb. Ninguém pode dizer que gostava de ter formação e não tem. Hoje há pessoas que dizem que vem aí a modernização tecnológica e que resolve tudo, mas não resolve. Hoje consigo ir a alguns hotéis em Portugal, em que faço a reserva online, faço o check-in online, até posso abrir a porta com um código, faço o check-out e não contacto com ninguém. Mas o modelo de negócio no Algarve não é bem esse. No meu hotel, o que os clientes mais valorizam é o contacto com a minha equipa e a simpatia. Quando os contrato digo logo que têm de sorrir porque ainda não pagamos impostos. 

Outro problema que o Algarve se depara e não só diz respeito à seca..
O risco existe e segundo a APA se não chover – acredito que vá chover – só temos água para consumo humano até outubro do próximo ano. Tem havido uma sensibilização para que as empresas reduzam o consumo e transferimos essa mensagem para os nossos clientes, o que foi bem aceite. Há questões que o cliente faz no hotel e não faz em casa, como acabar de tomar banho e deitar a toalha para o chão, quando pode ser usada mais do que uma vez. Quando explicamos isso ao cliente ele percebe isso porque entende que não é só para pouparmos dinheiro. Se visse que era por uma questão meramente financeira não aceitaria. Todas as unidades estão a pôr redutores nas torneiras, nos chuveiros para tentar reduzir o consumo de água. No entanto, este é um problema mais do Barlavento do que do Sotavento. Há barragens no Barlavento que estão completamente abaixo daquilo a que se chama quota normal. No Sotavento, as coisas não estão tal mal, porque felizmente há uns anos mereceram investimento e, por outro lado, existe uma ligação de um lado ao outro do Algarve e se falta água deste lado posso ir buscar aquele. Mesmo assim é um problema preocupante e se o inverno não for normal e já há quatro anos que não o é vamos estar todos concentrados nesta questão: como poupamos água. E o problema é outro. Em setembro de 2005, estávamos a passar pelo mesmo e, desde aí até agora, pouco se fez. Por exemplo, Espanha tem uma série de estações de dessalinização e em Portugal nem sequer temos projetos. Estamos agora a fazer esse projeto, mas ainda não sei se definiram onde fica, mas que, em condições ideais, estaria pronto em 2027. No entanto, diria que com estudos de impacto ambiental, com reclamações de concursos poderá ser em 2030. Vivemos um horizonte de sete ou oito anos, quando temos um problema complicado e quando temos de ir buscar água ao mar. Houve empresas que fizeram esses processos, como o Pestana que teve mil dificuldades para conseguir implementar uma dessalinizadora. Há outras empresas que também têm à sua escala.

Esta poderá ser uma solução para jardins públicos e campos de golfe?
Para os campos de golfe há outra solução melhor: em 2024, a esmagadora maioria dos campos deverão ser regados com as águas das ETARs. Essa é uma decisão espetacular e, neste momento, há um ou dois a fazer isso. É o caso do campo de golfe dos Salgados e o da Quinta do Lago. Mas as ETARS têm de estar preparadas para isso, porque permite uma redução de 6% no consumo de água. Agora fazer uma nova barragem não está no horizonte e esbarra em milhões de problemas ambientais. A solução terá de passar por estas duas vias e há dinheiro do PRR. 

Outra dor de cabeça é a Nacional 125...
Esse é outro problema, sem esquecer que as obras de Olhão a Vila Real de Santo António nunca foram feitas. Apesar disso e apesar de termos sido o último destino a ter uma autoestrada – primeiro só chegava a Setúbal, depois a Marateca, etc. – mas as pessoas sempre foram para o Algarve e ficavam em filas. Temos de cuidar melhor desta criança porque não somos um destino de muitos anos, para isso, temos de melhorar alguns destes pormenores. O turista aterra no aeroporto de Faro – o aeroporto tem feito um trabalho excelente – mas depois entra na estrada e tem de encontrar um destino bonito. Nas rotundas da 125 só falta pôr lá os burros a pastar, porque não são tratadas. E a Via do Infante não é alternativa, sem falar na forma como se cobram as portagens. Por exemplo, na Páscoa, o mercado espanhol é extremamente importante, mas chegam ali e ficam horas à espera para pôr um cartão. Se apanhar uma multa em Espanha na semana a seguir tem a conta em casa. Lutamos contra isso, mas há sempre alguns entraves. Mas sejamos positivos.

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