Opiniao

Seletividades democráticas

Diga-se que, internamente, é compreensível o fulgor que a nossa extrema-direita estará a sentir face ao panorama internacional, mas dificilmente destes resultados se conseguirá extrapolar uma reação em cadeia pelos restantes países. O circunstancialismo é, por demais, particular. 

Seletividades democráticas

Por Raquel Paradela Faustino, jurista e membro da Direção Nacional do CDS-PP

Devemos respeitar a eleição de José Manuel Pureza (BE) e de António Filipe (PCP), como Vice-Presidentes da Assembleia da República, tal como também deveria ser evidente que devemos respeitar a eleição de qualquer outro deputado de um partido que mereceu os votos dos cidadãos portugueses. Não existem votos menores e o critério de eleição tem de ser único e transversal, independentemente da força política em apreço. 

Da mesma forma que aceitamos, e bem, partidos de extrema-esquerda, a mesma aceitação e tolerância deve vigorar quanto aos outros lados da bancada. 

Há duas semanas na Suécia, numa votação renhida, o partido nacionalista anti-imigração Democratas da Suécia (SD), dirigido por Jimmie Akesson, conseguiu ser o segundo mais votado, e, com a sua coligação de direita, que inclui os partidos Moderados, Democratas Cristãos e Liberais, alcançou uma maioria parlamentar, com 176 assentos contra 173 de centro-esquerda.

Neste domingo Georgia Meloni, também ela com um partido nacionalista anti-imigração, conseguiu 26% dos votos, o que significa que a sua coligação de direita, que conta com a Liga Norte (de Direita) de Matteo Salvini e o Força Itália (Conservador) de Sílvio Berlusconi, terá 237 cadeiras na Câmara dos Deputados num total de 400.

E estas eleições são igualmente de se respeitar, nomeadamente pela comunidade internacional, que tem o dever de reconhecer os resultados eleitorais com o mesmo fair play com que reconhece a eleição de partidos de outras cores políticas. 

Diga-se que, internamente, é compreensível o fulgor que a nossa extrema-direita estará a sentir face ao panorama internacional, mas dificilmente destes resultados se conseguirá extrapolar uma reação em cadeia pelos restantes países. O circunstancialismo é, por demais, particular. 

Por um lado, a Suécia foi palco nos últimos anos de um aumento extraordinário da violência entre gangues, o que aliado a uma crescente imigração, que não encontrou uma correspondência em termos de processo de integração na sociedade, tem causado significativos distúrbios sociais, num dos países mais seguros do mundo. Nesta campanha legislativa, os temas em destaque foram a criminalidade, a imigração e a prestação de cuidados de saúde nacionais. Nem a adesão à NATO foi objeto de debate, o que, face ao contexto atual, acaba por ser significativo. 

Em Itália, por seu lado, discutiu-se a segurança pública, as políticas de bloqueio à imigração descontrolada e a crescente islamização da sociedade.

Ainda assim, e para sossego da nossa comunidade internacional, em ambas as eleições, os partidos de extrema-direita são temperados por partidos moderados. Na Suécia, os SD estão coligados com os Moderados e os Democratas-Cristãos, enquanto que, em Itália, o equilíbrio acaba por ser assegurado pelo neoliberalismo de Berlusconi.

Esta é a beleza da democracia. O espelho do desempenho dos políticos, em sede eleitoral, e daquelas que acabam por ser as preocupações atuais e prementes dos cidadãos.

A respeito da eleição de Meloni, a primeira mulher eleita para liderar um governo italiano, lamenta-se a ingerência e as declarações da não democraticamente eleita Ursula von der Leyen, muito pouco respeitadoras de um resultado eleitoral livre e democrático, bem como a falta de reconhecimento e aprovação por parte dos movimentos feministas.

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