Opiniao

Retratos Contados da República

Que as pessoas não saibam os feriados religiosos ainda aceito. Para mais vivemos num Estado Laico. Agora não saberem, nem quererem saber, o que se celebra nos feriados nacionais, já me parece ignorância a mais.

Retratos Contados da República

Querida avó,

Na passada semana falámos da monarquia, a propósito da morte de Isabel II, Rainha de Inglaterra. Hoje apetece-me celebrar a república, que completa 112 anos no próximo dia 5 de Outubro.

Fico horrorizado sempre que vejo reportagens neste feriado (e noutros), e os entrevistados não sabem o que se celebra.

Tanto que os nossos antepassados lutaram pela república, pela liberdade, e por outros valores, para muitos hoje preferirem viver na ignorância.

Que as pessoas não saibam os feriados religiosos ainda aceito. Para mais vivemos num Estado Laico. Agora não saberem, nem quererem saber, o que se celebra nos feriados nacionais, já me parece ignorância a mais.

Tu, que não és de ficar de braços cruzados perante tanta falta de conhecimento, escreveste o belíssimo livro Diário de um adolescente na Lisboa de 1910.

Neste diário, Joaquim José (personagem principal do livro) é um jovem lisboeta de 14 anos em 1910. Pai republicano, avó monárquica, criada com namorado da Carbonária e aluno de um dos homens que mataram D. Carlos e D. Filipe, facilmente se compreende a confusão que vai na sua cabeça. O seu diário é o registo bem-humorado desses dias de sobressalto que vão dar ao 5 de Outubro.

Sei que não gostas de falar dos teus livros. Mas eu gosto! E aconselho este livro a todas as famílias. Desta forma, novos e velhos, ficam com uma ideia muito fiel de como se vivia em Lisboa no tempo da monarquia.

Não fosses tu uma grande jornalista. Passaste meses a fio a pesquisar para que este relato fosse o mais verdadeiro possível.

Outra coisa que me deixa de cabelos em pé é quando dizem que o último rei de Portugal foi D. Carlos. Como se a monarquia tivesse acabado no dia do regicídio.

Sabes que tenho um carinho especial por este livro. Foi o primeiro livro teu que li. Estava eu a caminho de Paris.

Viva a República!

Bjs

Querido neto,    

Lembro-me de ter ido há muitos anos a uma escola, num dia 25 de Abril, e de ter perguntado a um miúdo se sabia o que tinha acontecido no 25 de Abril e ele responder «Eu acho que foi o 5 de Outubro!».

Cheguei a casa furiosa e logo ali decidi escrever um livro para jovens sobre o 25 de Abril e outro sobre o 5 de Outubro.

O livro sobre o 25 de Abril apareceu logo – chama-se Vinte Cinco a Sete Vozes – mas nunca mais me lembrei de escrever o outro.

Até que, nas celebrações do centenário da República, o chefe de redacção do Jornal de Notícias (para onde eu então trabalhava) me pediu que, de Janeiro a Outubro, escrevesse todos os sábados um texto para ensinar aos miúdos o que tinha sido a República. Meia página, acrescentou. E eu fiquei a pensar que todos os sábados um texto a explicar o que tinha sido a República, ia ser uma chatice para os miúdos. Então pensei, e perguntei ao meu chefe se não podiam ser histórias divertidas sobre o 5 de Outubro.

Ele concordou – e aí nasceu este Diário de um Adolescente na Lisboa de 1910. Escolhi como protagonista um jovem já com 14 anos – porque assim podia lembrar-se muito bem de coisas que tinham acontecido antes (conspirações, regicídio, etc.) e lá escrevi. Deu-me imenso trabalho porque, como era um “diário”, o que estava escrito, digamos, no dia 5 de Maio de 1910, tinha mesmo de ter acontecido nesse dia.

Tive uma ajuda preciosa: a leitura do livro A Escola do Paraíso de José Rodrigues Miguéis. O protagonista era mais ou menos da mesma idade, e no romance até se dizia quanto custava um chocolate, ou o que se vendia nas tabacarias, ou as revistas que os miúdos liam – e o preço delas.

Aquilo teve tanta leitura que a minha editora quis publicar.

E aí está o livro…

Sei que é um livro que adoras pelas razões que referiste.

Mas também sei que já leste muitos mais.

Viva a República!

Bjs

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