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Wiriyamu: o perdão dos sobreviventes

O regresso de Antonino Melo ao local do massacre de Wiriyamu é um momento emocionante. O homem que comandou as forças portuguesas naquele dia inquieta-se: Como o receberão os sobreviventes que viram as suas famílias mortas? Remexer na História, em circunstâncias destas, é muito doloroso. Os negros desculpá-lo-ão, mas ele não ficará em paz. A recordação das valas que abriu, o cheiro dos corpos mortos, continuam a atormentar-lhe o espírito. É o quarto e último episódio de uma reportagem publicada por ocasião dos 25 anos da tragédia.

Wiriyamu: o perdão dos sobreviventes

DR  


Chega à Beira. O regresso, passados vinte anos, é um trilho longo a caminho da paz ou do desassossego. Ou mesmo da morte.

Quando chega à rua comandante Diogo de Sá, dissipa a angústia acumulada durante dias. O ex-comando solta emoções, chora sem entraves ao rever a casa onde cresceu. Lembranças: as ‘coboiadas’ à noite no cemitério, o futebol, namoro nas praias, entradas sorrateiras na sacristia para roubar hóstias... 

Os vizinhos do novo proprietário juntam-se desconfiados. A moradia de um único andar está escalavrada, janelas remendadas, o jardim da entrada desapareceu. Na rua já há quase um motim, não o querem deixar entrar. «Os portugueses querem as casas de volta», resmunga uma mulher.

O tio António, o dono, engenheiro no conselho executivo, está ausente, mas o irmão Alberto, depois de algum receio, acaba por abrir a porta. Ele entra, atravessa a casa, empurra portas, fixa-se em detalhes. A disposição dos móveis da sala de visitas está na mesma, parece uma cópia. O quarto de adolescente, com as paredes cobertas de posters, está trancado. Que pena! 

À despedida, Alberto pergunta a medo: «Não quer voltar para cá, pois não?». Antonino esclarece, apertam mãos. Que coisa estranha; passaram vinte anos. «Parece que nunca saí daqui, ainda sinto isto como a minha casa!».

A hora da verdade 

Chegou a hora. Arrancar para Tete, rever Wiriyamu e os sobreviventes. Enche-o agora uma serenidade silenciosa, mede o tempo que passa. Quando o carro pára, aproveita para se embrenhar na mata, saudoso dos cheiros, da terra. Distingue o canto das galinhas do mato, o barulho metálico das cigarras, violino destrambelhado. A cidade arde num dia e no outro abate-se sobre ela uma tempestade tropical. O ex-alferes encontra-se com Sebola, o tal soldado nado em Tete, com fama de matar crianças à faca. Trabalha agora no aeroporto e conseguiu escapar ao julgamento de Samora. Atrapalha-se, o medo eriça-lha a pele.

Dá uns toques no relato. Que sim, matavam as crianças à faca, também ouviu falar daquela mulher grávida a quem abriram o ventre para se inteirarem do sexo do feto. Antonino quer entender, interroga-o. É altura de se fazer História com verdade, insiste. Mas o terror apossou-se do outro. Dá o dito por não dito e termina afirmando que nunca pertenceu à sua companhia. Que voltava no outro dia para mostrar os papéis da tropa. Nunca mais apareceu.

A reacção dos sobreviventes

Em Wiriyamu, alguns sobreviventes do massacre feito pela tropa portuguesa em 1972 contabilizam as mortes. Um deles, Tenente, parece não perdoar. Acompanha a narrativa da miséria da sua família com gestos ameaçadores. Perdeu-os a todos. Pupilas dilatadas, olhos injetados. As batidas do coração desenham-se no rosto. Lembra-se de ter abraçado a capulana da mãe quando o fecharam na palhota. A granada rebentou. Era ainda um menino mas teve tino para fugir quando viu a porta abrir-se.

Dukiria, a mulher de Tinta, que foi violada, cumpriu a tradição e casou com o irmão do marido. Não tivera crianças e o novo matrimónio era a forma de recuperar o dote que a família de Tinta empatara. Tenente, desde que o fizeram relembrar aquele dia, sonha com os espíritos, não sossega. Os olhos secos, perdidos no vazio, tornam-se buliçosos. Inspeciona a zona, aqui e ali, descobre ossadas: «Há vinte e cinco anos que andamos a apanhar ossos». Dirige-se ao monumento onde jazem as vítimas e deposita os despojos. A revolta domina-o. 

Antonino aproxima-se. 

Lento, corpo firme direito, queixo erguido. Os outros deixam de falar em voz alta, trocam ao ouvido palavras misteriosas. Se calhar desconfiam. O antigo comandante da 6ª companhia sente-se perdido por segundos, de novo o inferno instala-se no seu corpo. Inverte a situação: ‘E se alguém tivesse feito o mesmo à sua família e agora se apresentasse a pedir-lhe perdão?’ Consulta a consciência. O mais certo era arrancar-lhe o pescoço. Não perdeu a sólida instrução de comando.

Está preparado para o que der-e-vier. Matar, nunca. Mas talvez tenha de fugir, embrenhar-se na mata até chegar ao Songo, onde tem velhos amigos. Numa perna, presa numa liga, leva uma faca de mato. No bolso, outra. Uma mini lanterna de longo alcance, pastilhas para acender, fósforos numa caixa hermética para fazer fogueira e cozinhar, e um stick de luz. Também repelente para os mosquitos e uns comprimidos para purificar a água. «Ia preparado. Se eles se tentassem vingar, era legítimo!».

As primeiras palavras

Enquanto o ex-comando se aproxima, os outros mantêm-se imóveis. Dirige-se a Baera, estátua esguia, consumida pela aridez daquela terra, que perdeu mulher e filhos há 25 anos. A Antonino prende-se-lhe a voz. Está com uma grande vontade de chorar, mas não perdeu o implacável controlo de um comando. Nunca lhe foi dito em que dia se daria este encontro, mas desde que saiu de Portugal não lhe saía da cabeça uma coisa: «Como é que eu vou encarar aquela gente?».

O olhar erra de rosto em rosto, medindo de onde pode partir um eventual ataque. Mas ao observá-los só consegue sentir uma imensa vergonha. Enfrenta o mais velho, e a voz sai-lhe trémula: «Eu era o comandante da companhia de comandos que esteve cá há 25 anos e matou a vossa gente. Na altura éramos todos muito novos e recebemos ordens dos nossos superiores para matar toda a gente». 

Os outros ficam perplexos, sem reação, sem medo, espanto total. Apenas Tenente enrosca os dedos uns nos outros e espia-o cauteloso, a mesma chama buliçosa nos olhos.

O ex-comando respira fundo, acalma-se, continua: «Hoje venho aqui para fazer uma homenagem aos vossos mortos e pedir-vos desculpas por tudo o que se passou». 

Baera desconhece a ciência da guerra, mas possui a tolerância própria dos grandes homens. Nem perde tempo a refletir. Olha-o de frente: «Ouvimos e percebemos muito bem. Nós sabemos que a guerra é a guerra, não temos nenhum rancor para consigo, sabemos que cumpriu ordens. Agora é preciso é que não fique nenhum rancor entre nós». O resto do grupo acena a cada palavra do velho, não há censuras nem recriminações. Tenente, o mais agreste, talvez animado pela reação dos outros, suavizou e cumprimenta-o. Havia desaparecido o perigo.

A menina que o alferes poupou

Antonino não quer acreditar no que ouve. «Isso aumentou a minha angústia» -- confessará depois. «Parece que aquela gente tinha esquecido o sofrimento que lhes causei, como é possível não me odiarem? Não me insultarem, no mínimo?»

De repente, uma rapariga precipita-se para ele. Segura-o pelas mãos, como em tempos o prendeu pelo camuflado. Creya, a menina que o alferes salvou, tem os olhos húmidos: «Obrigada pelo que fez». Antonino ainda reconhece aquele rosto infantil, sem conseguir avaliar-lhe a idade. O tempo parece não a ter tocado, mas o sofrimento sim. Casou, tem uma ninhada de filhos. O marido, conforme à tradição, arranjou uma mulher mais jovem. 

Vivem no Zoye, junto à fronteira com o Malawi, zona húmida e fria quando chega fevereiro. Creya dorme agora com a filharada na varanda, enrolados em trapos para se protegerem do cacimbo. Já tentou fugir para casa de parentes por duas vezes, mas sempre que chega a época da sementeira ele vai buscá-la e faz-lhe juras de amor e outras lengalengas. Ela não acredita, mas vai; assim os filhos sempre têm que comer.

Antonino arranca uma flor lilás da terra áspera e aproxima-se do monumento aos sobreviventes de Wiriyamu. Através da vidraça, quando se ajoelha, fica à altura de um crânio, que o parece fitar. As recordações precipitam-se. Pede agora aos sobreviventes que lhe contem o que realmente se passou naquele dia. «As ordens que nós tínhamos era para matar toda a gente, foi isso que disse aos meus homens, mas nunca vi mulheres a serem violadas, crianças mortas à facada e outras coisas que se dizem. Gostava que me falassem disso, porque a zona era muito grande e eu não vi tudo...».

Os relatos medonhos

Dukiria não sabe onde colocar as mãos. A expressão dura no rosto parece ter sido burilada por todas as catástrofes do mundo. Os olhos fundos vagueiam como se medisse o tempo, está desejosa de evitar assuntos desagradáveis. Ao lado, Orário, o marido, incita-a a falar. Ela foi uma entre tantas mulheres violadas naquele dia, ali mesmo em Wiriyamu, onde Antonino desceu de helicóptero com os seus homens. 

Baera, que nesse dia viu a mulher e os filhos serem mortos com um pau, aponta para o local onde a aviação bombardeou. Foi por volta do meio-dia, tinha acabado de almoçar. Confirma a história da mulher e recorda uma sobrinha menina, de grande beleza, levada para a mata por um soldado muito alto e maciço que saiu de um dos helicópteros e que a tomou atrás de uma árvore.

Antonino escuta atento, e vai reconstituindo o puzzle. Os homens que montaram segurança à aldeia é que se podiam dedicar a esses festins. E uma profunda tristeza substitui o assombro inicial, percebendo que na guerra os homens são impelidos por uma irresistível propensão para matar. «Mas tinham ou não contactos com a Frelimo? Porque eram essas as informações que tínhamos.»

Baera abre os braços, olha à volta: «Aqui não havia nenhum elemento da Frelimo». Consulta a memória lembra a PIDE a perguntar aos irmãos onde estavam os ‘turras’. E eles que não sabiam. E assim eram mortos, à paulada. 

O terror começou pelas cinco da tarde

António Michone, o sobrevivente que denunciou aos padres da missão de Burgos os massacres, reconstituiu a história. Se a memória não o engana, em Chaola, aldeia nas redondezas, nunca tinham ouvido falar na guerrilha. A cara ensombra-se, a recordação esmaga-o. Ali o terror começou pelas cinco da tarde. O antigo comandante está espantado com o relato, não era suposto esses homens intervirem, estavam numa posição defensiva. «Nós é que devíamos avançar. Eles estavam ali para impedir a retirada da população. Há aqui qualquer coisa que não joga…» 

Michone era na altura um rapazito. A tropa entrou e concentrou-os numa clareira. Deram tantos tiros que devem ter ficado esgotados, e com os dedos adormecidos. Michone não é atingido, mas está com a primeira família a ser alvo dos disparos. Esforçavam-se por se escudarem uns atrás dos outros. Mas caíam um a um. Ele ficou debaixo da mãe e do pai, rosto virado para cima, o sangue entrava-lhe pela boca sem que se pudesse mexer. Os soldados deitaram pilhas de lenha em cima dos cadáveres e deitaram fogo. Depois afastaram-se do inferno das chamas.

Foi aí que Michone resolveu fugir. Teve de empurrar o corpo da irmã, ainda viva, embora com a cara desfeita: sem boca nem nariz. Um buraco. Conseguiu chegar ao hospital de Tete, e a irmã Lúcia, espanhola, tratou-lhe das queimaduras e deu-lhe abrigo enquanto a PIDE andava no seu encalço para apagar vestígios.

Depois da independência

Michone e Antonino parecem conhecer-se de longa data, sem que a tragédia os tivesse cruzado. Falam do passado e do presente como velhos amigos. O primeiro foi considerado um herói pela guerrilha mas depois da independência caiu em desgraça. 

Achavam que estava feito com a RENAMO e não o perdoaram. Agora vive mal, esteve preso durante nove meses, com a acusação de roubar água, e para poder sair em liberdade teve de pagar multas e vender todos os seus cabritos. Mas fala com a resignação dos povos calhados para a fatalidade. Convida Antonino a entrar na sua casa, apresenta-lhe mulher e filhos. Depois mostra o monumento que ele construiu aos mortos de Chaola: um túmulo feito de paus e capim, debaixo de uma ngoza, árvore imponente, onde estão enterrados setenta e oito cadáveres.

Agora, o sol e os cabritos já não os podem perturbar. Quando andou a recolher as ossadas, já depois da independência, chorou dias-a-fio: «Pensava que aqueles ossos podiam pertencer à minha mãe, pai ou irmã». Mas nem todos os que tombaram naquele dia estão ali. Michone conhece os sítios onde a tropa fez valas para esconder os corpos. 

Antonino esforça-se para arrancar da paisagem um ponto de referência. Mas a região está alterada. Quando fecha os olhos, consegue recordar onde abriu as valas, os arbustos do lado esquerdo, a árvore do lado direito. O caminho por onde andou. Mas hoje já não encontra esses pontos de referência. Se a memória não o engana, abriu com os seus homens, um grupo de confiança escolhido a dedo, duas ou três valas. Eram muitos corpos, muitos mesmo. Ainda recorda o cheiro nauseabundo da carne podre, teve de colocar um lenço embebido em Old Spice à volta do nariz para suportá-lo.

Estava revoltado, os comandos são uma tropa sempre em movimento, sem artes de coveiros: «O nosso lema era mata, deixa, não enterra, segue». Mas os sobreviventes que conseguiram alcançar Tete provocaram grande reboliço internacional. Marcello Caetano ficou à nora. Tanto mais que um homem da sua inteira confiança, Jorge Jardim, viera de propósito a Lisboa para lhe mostrar as fotografias do massacre. 

Apagar os vestígios do crime

Passado pouco tempo, o presidente do Conselho faz rolar a primeira cabeça: Armindo Videira, comandante militar da região, é demitido e mais tarde Kaúlza tem idêntico fim. Mas antes tentam abafar o escândalo.

Antonino é chamado de novo à ZOT, ordenam que apague os indícios do crime: «Não levem armas», dizem-lhe. A 6ª Companhia de Comandos já está de malas feiras para arrancar para a ilha de Moçambique, quando o comandante regressa ao local para apagar o rasto do crime. Lembrava-se do tempo da recruta, das bolachadas que os instrutores lhe deram para o ensinarem a resistir e nunca entregar a sua arma; e, para sua sorte, não cumpriu as ordens. 

Tinham corrido vinte dias. Armados até aos dentes e com bidões de gasolina e pás nas mãos, os comandos regressam como coveiros. Os abutres pairavam sobre os corpos inchados pelo calor. O capim crescia entre as ossadas. O cheiro do after-shave ajuda, mas os corpos desfaziam-se nas mãos de Antonino. Amontoava-os na vala e regava-os com gasolina.

Chegara a hora de abandonar o local. Os superiores tinham-lhes dito que a ação teria de ser muito rápida, que nem levassem água nem ração de combate. A fome a apertar, e a Força Aérea nada. O alferes vai direito à mata, furioso, mas antes de a alcançar rebenta um tiroteio. «Foi a emboscada mais teimosa que nos fizeram. Não era costume atacarem assim os comandos. A Frelimo fazia emboscadas destas apenas à tropa normal». Desde daí, a dúvida alojou-se-lhe na cabeça: «Será que os meus superiores tentaram criar vítimas para justificar o massacre?». E a mãe que só previra as gripes e o frio…

Fugir dali

À medida que o tempo passava, Antonino só pensava em fugir dali. Baera falava-lhe da vida na machamba e na mulher com quem casou, Fukiria, outra das sobreviventes de Wiriyamu. Depois de ter sido atingida por uma granada numa coxa, desmaiou. Quando acordou, preocupou-se em retirar da capulana o filho de meses que trazia as costas – mas o bebé estava desfeito. O velho conta que ela ainda sonha muitas vezes com a criança e tem sobressaltos. Não vivem mal, a colheita não os tem traído. Baera faz confidências, trata Antonino com cerimónia: «Ele apareceu aqui como um homem, gostei dele, agora é preciso esquecermos todos o que aconteceu». 

Antonino está a quebrar, tem o coração cheio de pressa para partir. A recepção pacífica daquela gente fizera com que o inferno se instalasse de novo na sua cabeça. Depois deste encontro, talvez descubra alguma tranquilidade. «Aquilo foi um acto criminoso. Em Wiriyamu, depois da guerra, procurei a paz, mas depois de todo este remexer de recordações o sossego para mim ainda vai tardar».

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