Crítica musical

Bob Dylan - Blood on the Tracks

Dei por mim já diversas vezes a cantarolar, a tentar esgueirar-me por meandros históricos e nostálgicos, de tudo e mais alguma coisa, e não terei talvez nunca estado perto duma conclusão no mínimo plausível.

Bob Dylan - Blood on the Tracks

Blood on the Tracks
Bob Dylan
1974 
Guitarra e vocais - Bob Dylan
Guitarra Baixo - Tony Brown
Steel Guitar - Buddy Cage
Orgão - Paul Griffin
Eric Weissberg & Deliverance

 

por Telmo Marques

O definitivo álbum de separação. Ao ouvirmos este álbum de princípio a fim, e ao estarmos igualmente cientes de toda uma obra de um artista que viu o seu 1º álbum lançado em 1962, chega-se facilmente a esta conclusão.

Nunca artista algum até então, e mesmo talvez após, se tenha exposto tanto a nível pessoal como Bob Dylan, que escreve este álbum como se de um autêntico diário passional se tratasse.

Liricamente falando, é um álbum sem comparação!

Tangled Up In Blue, com todo o seu surrealismo exacerbado, abre-nos novos horizontes para algo que nunca antes tínhamos sequer ouvido e lido num escritor de canções.

Com toda a sua complexidade narrativa, esta faixa marca definitivamente este álbum como um dos melhores de sempre de Dylan, dum espólio que perfez este ano 60 de carreira.

Mas felizmente, para todos nós, foi apenas o começo...

Passamos a You’re a Big Girl Now, uma acha para uma fogueira que tendia a nunca mais extinguir-se (processo de separação e consequente divórcio), chegando a uma outra de seu nome Idiot Wind, que, com todo o seu surrealismo, abrange fases do mesmo divórcio, bem como outras, seguramente bem mais difíceis de decifrar, mas sempre num tom narrativo absolutamente frenético.

Simple Twist of Fate é” apenas” mais uma que simplesmente não poderemos deixar de ouvir, fazendo parte do repertório ao vivo de Bob Dylan até aos dias de hoje.
Lily, Rosemary and the Jack of Hearts, sendo possivelmente a música com maior pujança rítmica de todo o álbum, continua a ser para mim um total enigma.

Dei por mim já diversas vezes a cantarolar, a tentar esgueirar-me por meandros históricos e nostálgicos, de tudo e mais alguma coisa, e não terei talvez nunca estado perto duma conclusão no mínimo plausível.

Deixo assim, a cargo do leitor, interpretar a letra como bem entender, pois é, quanto a mim, totalmente indecifrável, mas de uma maneira extremamente poética e surrealista.

A penúltima música do álbum tem apenas três acordes, sendo, contudo, de uma densidade emocional transcendental.
Shelter from the Storm é talvez, o epílogo do álbum perfeito, quer liricamente quer musicalmente, com finos recortes melódicos e escritos, que, faltando-me o vocabulário para a descrever, deixo abaixo um pequeno excerto da mesma:

“...Suddenly I turned around and she was standin' there
With silver bracelets on her wrists and flowers in her hair
She walked up to me so gracefully and took my crown of thorns
Come in, she said
I'll give ya shelter from the storm


Now there's a wall between us, somethin' there's been lost
I took too much for granted, I got my signals crossed
Just to think that it all began on an uneventful morn
Come in, she said
I'll give ya shelter from the storm...”

 
Espero que este álbum vos leve a viagens inimagináveis, como me levou a mim, que aquando da sua compra, não mais saiu do meu leitor de cd’s, necessitando desde então, da minha dose diária de Sir Bobness, para enfrentar as agruras de um novo dia.
 
Até prá semana
 
P.S. apenas a título de curiosidade. Em outubro de 2016, estava eu refastelado numa esplanada a tomar o merecido pequeno-almoço e ao folhear o jornal, notei que a atribuição do Nobel da literatura era para aquele dia, por volta das 12.00.
Estava acompanhado por um amigo meu, a quem lhe disse que seria necessária uma ruptura com os cânones tradicionais da atribuição no Nobel, pois já não fazia muito sentido serem atribuídos a autores que, apenas uma margem marginal (passe a redundância) sabia quem eram, e\ou, já tinham lido algo deles.
Perguntou-me quem eu achava que deveria ganhar o Nobel, ao que lhe respondi Bob Dylan...!!!
Riu-se...
Eis que:
Prémio Nobel da Literatura 2016
Bob Dylan
Profético...

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