Cultura

Blonde. Uma ode ou (mais uma) exploração de Marilyn Monroe

O novo filme sobre a icónica atriz Marilyn Monroe está a ser alvo de duras críticas pela forma como a personagem é retratada.


Quando foi anunciado ao mundo que seria feito um novo filme biográfico sobre Marilyn Monroe, Blonde, as expectativas estavam bem altas.

Com uma talentosa atriz ligada ao papel, a cubana Ana de Armas, que prometia uma transformação física e emocional que iria para além do seu cabelo moreno para o icónico louro da atriz de Some Like It Hot, com o realizador Andrew Dominik a prometer uma história crua sobre a ascensão de Monroe e a estrada que a conduziu aos problemas de saúde e à sua trágica morte, aos 36 anos, este tornou-se um dos filmes mais aguardados do ano.

No entanto, na véspera de lançamento do filme, que aconteceu no passado dia 23 de setembro, na plataforma de streaming, Netflix, uma entrevista com o realizador fez muitas pessoas torcerem o seu nariz e colocar diversos pontos de interrogação nesta obra antes sequer de a verem. 

Numa polémica entrevista à Sight and Sound, Dominik confidenciou que não conhecia grande parte da filmografia de Monroe antes de adaptar o livro de Joyce Carol Oates para o cinema, referindo que a “maior parte dos seus filmes não são vistos por ninguém”, abrindo exceção para Some Like It Hot de Billy Wilder, acrescentando que filmes como Gentlemen Prefer Blondes, realizado pelo lendário Howard Hawks, são sobre “prostitutas bem vestidas”. 

Após o lançamento do filme, surgiram inúmeras críticas sobre a veracidade das histórias gravadas, nomeadamente numa cena de sexo a três com o filho de Charlie Chaplin e de Edward G. Robinson, ou quando a sua mãe a tentou matar afogando-a numa banheira ou uma cena em que esta é violada e, posteriormente, é obrigada a fazer um aborto. Não existem provas de que nenhum destes acontecimentos tenha sucedido.

“Não estou interessado na realidade, estou apenas interessado nas imagens”, disse o realizador à jornalista Christina Newland, que confessou que “detestou” Blonde, mas achou a conversa com Dominik “iluminadora”.

“À primeira vista, Blonde partilha bastantes traços com dois dos filmes anteriores de Dominik, Chopper (2000) [baseado em Mark “Chopper” Read, um criminoso que se tornou escritor] e O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007) [sobre a relação dos fora da leis norte-americanos, Jesse James com Robert Ford], um interesse sombrio em contos imaginários sobre pessoas reais maiores que a vida”, escreve a jornalista.

Muito do que acontece no filme é ficção porque o filme não é adaptado de uma biografia “tradicional”, mas sim no livro de 1999 de Oates que apresenta uma visão ficcional da vida da atriz americana Marilyn Monroe (a escritora inclusive insiste que o romance é uma obra de ficção que não deve ser considerada uma biografia), contudo isso não foi suficiente para afastar as vozes de críticos que consideram o filme uma falta de respeito à memória da icónica atriz.

A crítica do Indiewire, Sophie Monks Kaufman, comparou Blonde ao documentário Amy, sobre a cantora Amy Winehouse, onde existe uma tentativa de mostrar como a mulher foi reduzida a um “objeto”.

“Nem tudo em Blonde é uma amostra de como toda a vida da atriz foi vitimização e exploração”, explica Newland. “O filme é o dedo de Dominik apontado para todos os que tiveram um papel a traumatizar a protagonista do filme, desde a sua mãe a tentar afogá-la no banho quando tinha 7 anos, até à sua morte por overdose de medicamentos aos 36 anos depois de ser usada e abusada pela máquina de Hollywood”.

Mas esta aponta o dedo de volta a Dominik que acaba por oferecer o mesmo tratamento a Monroe. 

“Assim como Asaf Kapadia fez com o seu documentário, Amy, Dominik crítica o mundo por reduzir um sujeito e as suas principais qualidades, para depois tratar Monroe exatamente da mesma forma. A sua Marilyn é uma loira sexy e ofegante com problemas com o pai. E não passa muito mais do que isso”, escreve.

Claro que nem todos os críticos apoiam esta visão, com jornalistas a elogiar as capacidades técnicas de Blonde, como Bilge Ebiri, da Vulture, que descreveu o filme como “bonito, hipnotizante e, às vezes, profundamente comovente”, ou Jocelyn Noveck, da Associated Press, o chamou de “contundente e muitas vezes bonito”.

Com o filme disponível ao público, agora, a opinião depende da perspetiva de cada pessoa, mas qual será a opinião da Academia? Antes do filme ser lançado, Ana de Armas, também criticada pelo público por ter afirmado que “sentiu a presença de Monroe” durante as filmagens e que disse que a atriz “aprovaria” a forma como o filme a retratou - mesmo que tenha omitido partes da vida desta como a forma como criou a sua empresa de produção cinematográfica ou se opôs ao movimento anti-comunista em Hollywood - era uma das favoritas para receber o Prémio de Melhor Atriz, mas, com todas estas polémicas levantadas será que ainda tem hipóteses?

“Ana De Armas já foi considerada como uma forte candidata para a nomeação a Melhor Atriz, e alguns especialistas ainda acham que isso é possível, já que até os mais fortes críticos do filme elogiaram sua atuação. Mas o facto de o filme ser tão polarizador e perturbador tornou esta realidade menos provável”, pode ler-se na Yahoo News. “Em última análise, tudo se resume a se a Academia concorda com os críticos de Blonde que, ao tentar condenar a exploração de Marilyn Monroe, Dominik apenas a voltou a explorar”, argumentam.

Certo é que o filme dividiu as opiniões, mesmo entre o mundo do espetáculo, como é o caso da famosa modelo Emily Ratajkowski. “Não estou surpreendida em saber que é mais um filme que ‘fetichiza’ a dor feminina, mesmo na morte… Adoramos fetichizar a dor feminina”, disse numa das suas redes sociais. Quem tem uma opinião completamente diferente é Brad Pitt, produtor do filme, e de quem se diz que estará a ter um caso amoroso com a atriz Ana de Armas. “Ela está fenomenal no papel. É algo difícil de preencher. Foram 10 anos de preparação. Foi só quando encontrámos Ana que conseguimos cruzar a linha de chegada”, explicou o ator.

Os comentários estão desactivados.