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Um país cheio de moscas

A realidade é que Portugal voltou a ser um país com moscas, que já não está apenas na cauda da Europa, mas sim no outro corno de África. Económica e socialmente, como já o era historicamente.

Um país cheio de moscas

Diz o povo da pequena aldeia de Murches que quando há ‘barrão’ na serra pela manhã a tarde vai ser de vendaval.

E é verdade. O ‘barrão’ é o nome que dão ao manto de nuvens que cobre os cumes da serra de Sintra, lá do alto da Peninha ao Penedo, tapando o Sol da Azoia a Almoçageme, tantas vezes estendendo-se muito para lá de Colares e da Vila dos poetas, das queijadas e dos travesseiros até à Várzea e se desfaz nos céus azuis do Guincho ao Estoril levado pela nortada para o mar.

Murches é conhecida por aldeia dos ventos, porque de maio a setembro é um ver se te avias. E se assim não fosse o Guincho seria a melhor praia do mundo todos os dias como o é quando o vento não corre e a areia não pica como agulhas e o mar se entrega aos banhistas dando descanso aos surfistas.

Há, porém, uma vantagem para os fregueses da zona: com vento, não há moscas que resistam.

Acontece que, de outubro a maio, amaina. Sendo que, nesta altura, começa precisamente a época em que já não deveria haver moscas, que é suposto desaparecerem com a chegada do outono para só regressarem lá mais para o meio da primavera – quando o vento também volta a Murches.

Ora, como é hoje infelizmente por todos nós testemunhado, Portugal – e Lisboa e arredores deixaram de ser exceção – está cheio de moscas.

Dizem que é uma praga. E que a capital tem moscas porque voltou a ter mais lixo – como bem explicou José Alberto Quartau, com todo o saber feito numa vida com 75 anos que faz dele o mais experiente dos entomologistas portugueses, num artigo de Rosa Ruela na Visão.

Será, com toda a certeza. Até porque as há país fora e inclusivamente mar adentro.

Quartau diz que «algumas deviam ser moscas-domésticas, porque costumam ser extremamente chatas. Não picam, só chateiam. São insistentes. Uma pessoa enxota-as e voltam, isso é típico». E ri-se, como escreve Rosa Ruela antes de frisar que o seu interlocutor se lembra ‘de haver sempre moscas, sobretudo no meio rural, como contou ao Diário de Notícias, numa entrevista de 2019’.

«Também quando era miúdo, havia muito mais moscas em Portugal, mas nos últimos quarenta anos as coisas modificaram-se, a começar por causa das alterações dos sistemas de esgotos», acrescenta à Visão, sublinhando que «o lixo também favorece» porque «é relevante haver produto orgânico em decomposição porque é ali que as moscas põem os ovos».

No século passado, a distinção entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos também se fazia da comparação entre países com moscas e países sem moscas – já que o lixo acumulado e não tratado, a falta de água potável, os esgotos a céu aberto e a ausência de infraestruturas de saneamento básico inevitavelmente contribuíam para a existência e proliferação do mosquedo.

Portugal há muito deixou de ser um país com moscas, particularmente com a entrada na Comunidade Económica Europeia, nos anos 80 do século XX e com todo o progresso que o país registou nos anos seguintes (os únicos de convergência real).

Mas, nas últimas décadas, e sobretudo no novo milénio, Portugal tem vindo a atrasar-se progressivamente.

Dramaticamente!

Por algum motivo, na Europa, as economias do sul passaram a receber uma irónica e nada abonatória designação da sigla correspondente à junção das iniciais de Portugal, Itália, Grécia e Espanha, numa ordem sem outra justificação (porque geográfica não é) que não fosse a de, em inglês (com Spain), resultar em PIGS.

Assim, dos países com moscas ou sem moscas, passámos a ter uma classificação que culminou na inclusão dos países do sul da Europa na categoria de, em bom português e em letras maiúsculas, ‘PORCOS’.

O passar dos anos, porém, não trouxe nada de bom para Portugal, que continuou em queda livre nos rankings europeus.

Apesar dos principais responsáveis políticos, a começar em Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e Fernando Medina, passarem a vida a dizer que o país está a crescer acima da média europeia (bem sabendo que a média europeia é penalizada sobretudo pelas economias dos países mais ricos e desenvolvidos), a verdade é que Portugal está cada vez mais na cauda da Europa.

Não vale a pena o primeiro-ministro e líder do PS mascarar a realidade com um otimismo infundado, o Presidente da República tentar tapar o sol com a peneira ou o ministro das Finanças traçar quadros muito bonitos como o fez na apresentação, esta semana, do Orçamento do Estado para 2023.

A realidade é que Portugal voltou a ser um país com moscas, que já não está apenas na cauda da Europa, mas sim no outro corno de África. Económica e socialmente, como já o era historicamente.

Está calor, as manhãs são de céu limpo, sem ‘barrão’ à vista nem anúncios de ventos de mudança do que quer que seja.

E as moscas andam aí, extremamente chatas, insistentes e, mesmo quando as enxotam, elas voltam.

É típico. Só que não é de rir.

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