Entrevista a José António Ferreira Machado, professor de economia

"Não há forma de evitar o impacto de uma recessão nas famílias e nas empresas"

Para o professor da Nova SBE será inevitável que os salários desçam, ainda assim diz que não concorda com apoios genéricos, porque devem ‘ser dirigidos a quem é que mais precisa’. 


José António Ferreira Machado defende uma maior transferência de rendimentos. E sugere o aumento de deduções no IRS e a criação de novas, nomeadamente, no que diz respeito às despesas com energia. E em relação às medidas para as empresas que são criadas como sendo temporárias entende que «quando são criadas deve estar bem explícito em que condições se aplicam e em que condições é que deixam de atuar».

O professor deixa ainda uma palavra em relação aos preços da energia: «O aumento do preço da energia tem muitas coisas más, mas tem uma coisa boa, se pensarmos na história, os choques petrolíferos dos anos 70 e 80 do século passado contribuíram imenso para que as economias se tornassem menos dependentes do petróleo». 

O responsável lamenta também que o Orçamento não tenha uma palavra a dizer em relação à verba que será injetada na TAP, lembrando que «o que se mete na TAP neste ano é da ordem de grandeza do total dos apoios que estão a dar» e mostra surpresa em relação ao ‘ressuscitar’ das PPP. «É difícil perceber porque é que se acha que as PPP são boas para umas situações e para outras não». 

O que achou da proposta do Orçamento do Estado para 2023? 

Acho que podia ter sido um Orçamento feito por Vítor Gaspar, porque segue basicamente as recomendações do Fundo Monetário Internacional em dois grandes pilares: um é a construção de uma almofada orçamental assente na melhoria do défice e na redução do peso da dívida pública. Uma almofada orçamental para um futuro que é muito incerto. Segundo, tem uma política orçamental alinhada com a política monetária, de não contrariar a inflação e de não contrariar a política monetária deflacionista.

Este alinhamento destas duas políticas é muito importante. Temos um caso recente no Reino Unido, em que a política orçamental e a política monetária estão desalinhadas e não só dificulta o combate à inflação, como é um grande fator de instabilidade nos mercados financeiros. O mini Orçamento de Truss e de Kwarteng [demitido já depois desta entrevista ter sido feita] criou imensos problemas, forçou a intervenção do Banco de Inglaterra, obrigando-o a seguir uma direção contrária àquela que pensava seguir.

Claro que na União Europeia, como o Banco Central é o BCE, a questão é mais difícil de contrariar. É preciso um conjunto de países – em que não se inclui Portugal – com um certo poder que queira forçar uma política orçamental ao arrepio da política monetária. Mas isso pode acontecer se a guerra se prolongar, se a crise energética se prolongar, isto é, pode-se gerar alguma tensão entre os governos nacionais e a autoridade monetária. E, neste sentido, estes dois pilares, almofada orçamental e política alinhada com a política monetária são importantes, em que o documento tem um caráter aparentemente contracionista. 

E não tão despesista como se pretendia.... 

Aparentemente não. Depois, o modelo não segue muitas recomendações do Banco de Portugal, em que apresenta uma macedónia não de frutas, mas uma salada russa – não sei se agora se pode chamar de salada russa por causa da guerra – de medidas e de medidinhas. Cada uma delas, com as suas verbas. Ouvimos sete milhões daqui, 40 milhões para ali.

Parece que estamos numa feira...

Parece uma feira e são medidas muito difíceis de avaliar, porque os montantes de cada uma delas são muito reduzidos. Aliás, viu-se isso na apresentação do ministro das Finanças com 40 páginas de medidas e de medidinhas. São quantias pequenas e focam tantos aspetos que acabam por se tornar difíceis de avaliar. No entanto, é um Orçamento que é prudente, que segue em linhas gerais as recomendações do Fundo, daí dizer que podia ter sido feito por Vítor Gaspar, dado que é diretor do Fiscal Affairs do FMI. 

Mas não apresenta o tal aumento colossal de impostos que Vítor Gaspar apresentou como quando era ministro...

Mas mantém uma das consequências desse aumento colossal de impostos, que é a contribuição extraordinária de 2,5% que continua a vigorar até aos dias hoje. Daí ter muito medo destas medidas extraordinárias, porque a contribuição extraordinária sobre a banca, sobre a energia e sobre os impostos acima de 75 mil ou 80 mil de 2,5% que eram extraordinárias mantém-se até aos dias de hoje.

E agora com outra agravante. O imposto extraordinário sobre lucros excessivos é para avançar ainda este ano....

Como também agora há o pacote de energia de três mil milhões que ainda não percebo bem qual é seu o impacto no próximo Orçamento, porque um milhão ou 1,5 milhões vem do Orçamento de 2022. Em termos de macro há um indicador que falta para se poder fazer uma caracterização do Orçamento: se é pró-cíclico ou contraciclo. Não consegui ver nenhuma estimativa da variação do saldo estrutural. É uma pena o Orçamento não apresentar essa estimativa.

No Conselho de Finanças Públicas só vi uma estimativa para 2022 e esta é a medida que os economistas usam, é como se fosse um barómetro, porque basicamente desconta os efeitos do ciclo, ou seja, separa a parte que é a influência do ciclo no défice daquilo que são as medidas de política do Governo. Diria, contudo, que prima facie é um Orçamento contracionista. Porque é que digo que prima facie me parece um Orçamento pró-cíclico? Porque há uma redução do défice primário em 43%.

O saldo primário passa de 630 milhões para 4 050 milhões. Quer dizer que as necessidades líquidas de financiamento das administrações públicas reduzem-se, quase em 50%. E se a economia e o produto nominal vão crescer 5% – 1% em termos reais – na melhor das hipóteses, num cenário de estagnação há um crescimento muito grande do saldo primário. Passar de 630 para 4 050 multiplica por seis vezes o saldo primário. Não acho mal ter-se feito um Orçamento prudente, porque a situação global é extraordinariamente incerta.

Basta ver as projeções e o que o FMI diz para a economia global que o pior ainda está para vir. Mas mais impressionante é que fazem uma estimativa do PIB global de 2,7% para próximo ano, mas depois fazem um intervalo de uma elevada probabilidade significativa, no lado do downsize dos riscos, em que o produto poderá só crescer 1% ao nível global e 2,7% já é o valor mais baixo quase desde o início deste século. Um 1% será certamente o valor mais baixo da economia global. 

E já vimos o que se está a passar com a Alemanha...

A Alemanha está em recessão e está a abranger todas as grandes economias: China, Estados Unidos e União Europeia, mas é mais pronunciado na União Europeia. Por isso, defendo que a reconstituição das almofadas é prudente nesta fase e representa uma boa atitude. Claro que há sempre detalhes que é preciso avaliar bem, mas como há tantas medidas e medidinhas permite a que haja muitas coisas, em que se possa discordar deste Orçamento. Ainda assim, em termos globais acho que está bem. Pode-se discutir se podia ir mais longe, se podia ir menos longe, mas aí é o paladar político de quem está no Governo. Em termos gerais parece-me um Orçamento prudente.

De uma forma geral responde às necessidades das famílias e das empresas?

Acho que não há forma de evitar o impacto de uma recessão nas famílias e nas empresas. Depois há a questão se conseguimos, se podemos e se devemos. Nem acho que devamos fazer. O ponto de partida é particularmente bom, no sentido de a taxa de desemprego ser baixa e chamo a atenção que, nas estimativas do cenário macroeconómico, a taxa de desemprego mantém-se em cinco e qualquer coisa por cento que é conjugado com uma taxa de vagas muito elevada. Isto é, há muitas vagas por preencher.

Estamos praticamente em pleno emprego...

Sim e também está muito apertado. Uma coisa é haver um choque desta natureza quando o mercado de trabalho está como está. Outra coisa é haver um choque desta natureza quando existe um desemprego enorme.

Como aconteceu, por exemplo, no tempo da troika?

Exatamente. Daí dizer que o ponto de partida é melhor. Em relação à questão dos apoios às famílias e também segue a recomendação do fundo, com o qual concordo bastante, devem ser genuinamente dirigidos. Não concordo com apoios genéricos. Devem ser dirigidos a quem precisa. Mas para isso deve haver um escrutínio de meios. Não sou favorável a subsídios para isto ou para aquilo. Sou contra isso. Acho que o melhor que se devia fazer seria transferir rendimento para as famílias.

Isso é possível com as alterações aos escalões de IRS? 

Claro que a taxa média, quando se altera o segundo escalão, altera-se um bocadinho para todos. Nos escalões há uma coisa boa que é a atualização dos patamares de rendimento coletável em 5,1%. Ao contrário do que se julga, a inflação é boa para os governos, porque de várias formas beneficiam ou podem beneficiar do chamado imposto de inflação. Aliás, a redução do peso da dívida pública este ano, como o próprio Orçamento diz em 12,2% deve-se ao crescimento de 6% do PIB em termos reais, a que se juntam outros seis fatores, nomeadamente a inflação.

Não se esqueça que o rácio da dívida e do PIB tem um numerador que é a dívida e em baixo tem o produto nominal vezes a inflação. Quando o denominador cresce muito, o outro vai caindo. Mas estava a dizer que o ajustamento de 5,1% nos escalões é uma boa medida. Outra boa medida é acabar com aquela taxa marginal de 100% ao nível de existência. São coisas que fazem sentido, mas não acho que isso se vá traduzir em maior rendimento. Em relação ao segundo escalão, acho que as alterações em matéria fiscal não são más, mas não vão representar um alívio assim tão grande. Até porque este é um problema estrutural do sistema fiscal português.

O segundo escalão abrange os rendimentos que são mesmo muito, muito baixos. Isto é, um jovem que acabe o seu curso e que encontre um emprego razoável já não vai estar no segundo escalão. Em Portugal, as taxas elevadas de IRS começam para níveis de rendimento muito baixos. Há todo um conjunto de pessoas da geração mais talentosa e da mais bem preparada de sempre para quem seria necessário uma alteração mais profunda do sistema fiscal.

E que este documento não contempla...

Este orçamento não o faz. E não é só para os jovens também não o faz para as pessoas em geral. Uma pessoa que ganhe 75 mil por ano está no penúltimo escalão. E uma pessoa que ganhe 75 mil por ano são todos os professores catedráticos. E toda a gente tem a ideia que um professor catedrático não é um milionário, não é uma pessoa rica. Todo o sistema fiscal português está assente em taxas que começam em escalões muito baixos, mas isso não é um problema que é de agora, nem talvez se esperasse que um Governo socialista se interessasse por isso.

Provavelmente não é razoável esperar que um Governo socialista se debruce sobre este problema, nem se calhar é altura, dada toda a incerteza para fazer esta reforma. No entanto, há coisas, como o modo como é feito a retenção mensal e a taxa marginal que são simpáticas, mas que não alteram nada. E a possibilidade de as empresas alterarem a retenção mensal basicamente o que estão a fazer é antecipar aquilo a que os trabalhadores teriam direito. 

Na entrega do IRS vão depois ter uma surpresa ao verem reembolsos mais pequenos... 

Claro, mas o que achei estranho foi não ter encontrado – pode estar lá, procurei e não vi – que é uma parte das transferências que poderiam ser feitas e que fariam sentido. Também não há uma atualização dos tetos para as deduções à coleta para Saúde e para a Educação. Uma forma de transferir rendimento poderia ser a de incluir temporariamente uma dedução à coleta para energia, por exemplo, isto é, para as despesas de energia.

As deduções específicas também parecem que não foram atualizadas. Estes aspetos, mais as transferências para as famílias, muitas vezes diretas, seriam mais favoráveis. Quanto às empresas tenho imensa dificuldade em compreender as medidas. São uma confusão. Os incentivos fiscais face à subida dos salários é uma ‘tonteria’. Primeiro, porque acho que nenhuma empresa vai aumentar em 5,1% os salários.

E as empresas já alertaram para os riscos: podem aumentar os salários em 2023 e, com isso, receberem os benefícios, mas nada garante que os apoios mantenham-se no ano seguinte...

Claro. Uma das coisas muito importantes é ter uma estratégia de saída e nós nunca temos. Temos uma estratégia de entrada e nada de saída. O que quero dizer com estratégia de saída? Quero dizer que se isto são medidas que se dirigem a uma situação de crise têm que ser temporárias e é preciso que, quando são criadas, estar bem explícito em que condições se aplicam, já não digo terem uma data fixa para acabarem, mas que revelem as condições, em que deixam de atuar. Já falámos de duas: o adicional ao IRS e a contribuição extraordinária das empresas de energia.

São medidas que são temporárias e duram desde 2014, salvo erro. E essas medidas que são temporárias precisam de ter uma estratégia de saída. Isto é verdade para os impostos e é verdade para os apoios. E de facto também não distingue as empresas que aumentariam os salários em 5,1%, independentemente dos apoios, das que só vão atrás do benefício. Não me parece que seja uma boa medida, até porque acho que aquele acordo de Concertação Social é, em grande parte, uma mise-en-scène. O Governo não tem nenhuma capacidade imperativa de impor às empresas aumentos salariais de 5,1%.

Aliás, é perfeitamente natural que os salários reais caiam, porque é o ajustamento que se espera face à política anti-inflacionista. Vamos assistir a uma quebra dos salários reais para, de alguma forma, compensar o aumento de outras subidas. Há também uma outra medida que é o fim do prazo limite para as deduções aos prejuízos fiscais. Quer dizer, então, uma empresa que nunca deu lucros se calhar não é viável. É muito difícil avaliar todo o conjunto de apoios para o tecido empresarial.

Agora há este pacote, que é um pacote grande da energia, que também não sei avaliar muito bem. O que é que digo quanto às medidas mais dirigidas? Diria que em relação às famílias há coisas boas. Acho que haver uma atualização de 5,1% no IRS, e vi estudos de vários fiscalistas a simularem isso, parece-me que irá garantir a neutralidade fiscal. Isto é, não se espera que alguém veja o seu escalão alterado.

Claro que pode pagar mais, porque pode ganhar mais. É interessante e é uma boa medida, como também acho boa a questão do limite mínimo de existência. Noto falta de transferências para as famílias e isso é um aspeto importante. Para as empresas, acho que há muitas coisas pequeninas. 

E em relação à compensação de 45 milhões aos senhorios por aplicarem o teto máximo de 2% das rendas, mas que segundo a Associação de Proprietários só terá efeitos em 2024 e não faz distinção entre quem aumenta e quem não aumenta... 

Por isso é que acho que esta micro gestão não me parece adequada. O fiscal monitor chama a atenção para isso. Numa grande empresa consigo avaliar a sua viabilidade, tem um plano estratégico, etc., mas num universo de micro, pequenas empresas – e que é a nossa maioria – como é que vou avaliar a sua viabilidade? É totalmente impraticável ter essas medidas muito dirigidas. E também não é algo que goste particularmente.

Voltando aos impostos, há duas coisas que acho que é importante chamar a atenção é que, não obstante tudo isto, a receita fiscal resultante de impostos sobre os rendimentos e sobre as contribuições efetivas para a Segurança Social sobe 5,8%.

A carga fiscal mantém-se praticamente inalterada. Isto é bem patente nas projeções do Governo, em que o consumo privado praticamente não cresce. Eles estimam 0,7%. O Conselho de Finanças Públicas estima 0,5%. Isso aliado à incerteza facilmente se conclui que vai haver uma estagnação. É muito estranho dizer-se que vai haver um crescimento do rendimento disponível e depois não haver consumo. 

Nem que seja devido à queda dos salários...

Os salários reais vão-se reduzir e também não acredito que vá haver um aumento do salário médio de 5,1%. Sem contar com a inflação, o Conselho das Finanças públicas prevê 5,1%, o FMI 4% e o Governo prevê 4%. Se tivermos uma inflação em torno de 5% e como não acredito que os salários vão aumentar nessa ordem e a teoria económica diz-me que não, porque os ajustamentos da economia não são feitos nesse sentido, as coisas não serão fáceis. E também temos uma política orçamental contracionista.

O produto vai desacelerar, até pode, mesmo decrescer e tendo em conta a queda do rendimento dos salários reais não penso que haja alívio fiscal que seja suficiente para compensar esses efeitos. Vai ser um ano difícil, o Orçamento é prudente, mas não me parece que hajam assim grandes medidas. Depois sobre as empresas acho que há uma grande incerteza. Agora há a questão do windfall tax que o Governo diz que vai já avançar.

Mas como é que isto joga com as contribuições no setor da energia? É justificado ou não? E depois há outra coisa que é fazer política para as empresas e com este nível de detalhe é preciso ser muito prudente e não mexer muito com os sistemas de preços, porque por detrás disto tudo tenho a necessidade de continuar a promover a transição energética. As economias estão a desmamar e é preciso não inverter esse esforço. O aumento do preço da energia tem muitas coisas más, mas tem uma coisa boa – não estou a dizer que no cômputo geral é bom – mas se pensarmos na história, os choques petrolíferos dos anos 70 e 80 do século passado contribuíram imenso para que as economias se tornassem menos dependentes do petróleo.

Os carros mais eficientes surgiram depois disto. Isso significa que há uma transição energética que convém não amortecer demasiado, porque é preciso que os agentes recebam os sinais de mercado, que se tente continuar a poupar energia, que se tente continuar a desviar das políticas de carbono. É importante que estes sinais continuem a aparecer.

Continuo a dizer que o melhor em termos gerais é transferir rendimento para as famílias que precisem e há medidas que se podiam recuperar da pandemia de suporte ao emprego nas empresas, como layoffs temporários, com os ajustamentos devidos. Na pandemia lançámos um conjunto de medidas de suporte ao emprego. Se o medo é que as empresas reduzam tanto a atividade económica que leve a despedimentos penso que se podia revisitar um conjunto dessas medidas, mas não são propriamente dirigidas às empresas, são dirigidas às pessoas. 

A partir do momento em que as confederações patronais assinaram o acordo em Concertação Social, na véspera da apresentação do Orçamento não ficam reféns? A CGTP foi a única que não assinou...

A secretária-geral da CGTP, Isabel Camarinha, disse uma coisa sobre o acordo salarial de 5,1% que concordo inteiramente: não é o Governo que paga os salários. Aquilo significa o que significa. Além disso e, isto é uma velha questão em Portugal, não sei qual é a representatividade das associações patronais e das confederações sindicais.

Quanto aos sindicatos, uma medida dos tempos da troika e que, na minha opinião, foi uma boa medida foi a suspensão das cláusulas de extensão automática. Isto é, estender a todas as empresas, quer fossem signatárias, quer não. Se falarmos daqui a um ano veremos qual será o seu efeito. Sinceramente não sei se terá um grande efeito.

Em relação aos aumentos salariais depende muito dos setores. Há uns que podem subir os ordenados mais facilmente do que outros...

No caso do setor exportador, num certo sentido, as medidas relevantes dependem do mercado para o qual se dirigem. Por outro lado, é muito difícil neste clima assim dizer: ‘Vou estimular o investimento através desta medida, daquela e daquela’. Fazer investimento privado nessas circunstâncias, com a incerteza que existe não me parece que seja a altura certa para isso. Não há nenhuma medida que me pareça compensar.

E o investimento público?

No investimento público, os números são otimistas: crescimento de 37%, passando para 3,5% do peso do PIB, mas 50% disto é financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Tive responsabilidades no meu anterior cargo para executar o PRR na universidade e a execução até agora foi difícil e não é por culpa da universidade. As primeiras faturas para reembolso eram supostamente para serem enviadas no mês de julho.

Nessa altura, não havia nenhum manual de procedimentos, não havia nenhuma lista para saber quais eram as despesas que eram elegíveis. Não havia nada. Se falar com as pessoas da construção civil todos lhe vão dizer que os custos aumentaram na ordem dos 50%, tanto nas questões materiais, como nas questões relacionadas com a mão-de-obra. E os prazos são difíceis. Também é possível que a União Europeia flexibilize muito o PRR. Isto é claramente possível.

Voltando ao Orçamento, acha normal, por exemplo, não haver nenhuma palavra sobre a TAP? 

No Orçamento não há sobre a TAP. E agora as PPPs foram reavivadas aparentemente para construir a ferrovia.

Por causa da alta velocidade...

Por causa da alta velocidade. 

Mas para a saúde eram péssimas...

Eram péssimas, mas também foi o PS que as fez nas autoestradas. É difícil perceber porque é que se acha que são boas para umas situações e para outras não. Mas não houve nada sobre a TAP, aliás, o que se mete na TAP este ano é da mesma ordem de grandeza do total dos apoios que estão a dar. De grosso modo, acho que é um Orçamento que entendo.

Se acharmos para o que é importante no Orçamento são os grandes agregados e se calhar são. É um Orçamento moderadamente contracionista, mas parece-me que é prudente. Depois, se formos ver as medidas micro e detalhadas acho que é uma trapalhada... 

E a classe média continua esquecida?

A classe média continua a ser esquecida. Mas o problema em Portugal é que a classe média são as pessoas que estão no escalão dois. O escalão dois vai de 7.500 a 11 mil euros. Ou seja, são menos de mil euros por mês. Isto não é classe média. Ninguém, muito menos um solteiro, com este rendimento consegue arrendar uma casa, já nem digo em Lisboa, mas na enormíssima Lisboa. Também não me parece que seja classe média alguém que ganhe entre 20 mil e 26 mil mil euros, o que dá dois mil euros por mês e paga 35% de IRS.

Em Portugal, criou-se esta ideia, que é demagógica, de que há salários milionários. E depois é preciso ver onde é que o adicional de 2,5% entra, se no penúltimo ou no último escalão. Alguém que ganhe 50 mil euros, e em Portugal é um bom salário, não é uma pessoa rica, mas paga a taxa marginal de 45%, mais 2,5% de adicional, o que dá 47,5%. É quase metade do salário.

Não existe classe média, mas não é por esta medida e pelo sistema fiscal ser tão penalizador da classe média. Acho que este Orçamento não tem nada de específico para a classe média. A única medida que vejo é o preço dos passes sociais ficar congelado. 

A proposta fala de um aumento de dedução do segundo filho para 900 euros, mas para isso, o segundo filho não pode ter mais de seis anos... 

Já exclui muitas famílias. São as tais coisinhas e, às vezes, fica-se com a sensação que aparecem só para se poder dizer num programa de televisão e fazer um grande brilharete, mas depois tudo espremido não dá nada. A sensação que tive ao ler o Orçamento – pode ter havido pequenos detalhes que me tenham escapado, porque não é a leitura mais agradável – é que tudo espremido não dá nada.

Tudo em conjunto é somar alhos com bugalhos e não são as mesmas pessoas que vão beneficiar de todas as medidas. Tudo em conjunto seria se todas aquelas medidas abrangessem todas as pessoas. Mas tudo em conjunto, no entender da proposta, é que umas pessoas são abrangidas por umas medidas, outras por outras. Outra coisa seria criar um sistema qualquer para que pessoas de um certo rendimento recebessem um subsídio, não só não pagavam impostos, como também receberiam um subsídio.

Acho que devia haver essa preocupação, em identificar os tais grupos sociais, os mais necessitados. Sou mais favorável ao apoio a pessoas do que o apoio a empresas. Acho que as empresas, como vimos no apoio à contratação e tudo isso, prestam-se mais a comportamentos estratégicos e a distorções. E ao fim e ao cabo, se apoiar as pessoas acabo por apoiar também as empresas porque mantenho o consumo. E para as pessoas que estão empregadas acho que se devia revisitar alguns dos sistemas. No entanto, as pessoas também precisam de se ajustar.

Acho extraordinário que 80% dos novos créditos à habitação concedidos no mês de julho tenham sido contratados a taxa variável. Quer dizer, no mês de junho já toda a gente sabia que as taxas de juro iam subir. Por que é que as pessoas ainda fazem empréstimos com juros variáveis?

Porque supostamente é mais barato... 

É mais barato naquele momento, mas vivemos numa economia de mercado que se baseia em incentivos. Não estou a fazer nenhum juízo moral, mas acho que podíamos funcionar de outra maneira, no entanto, é assim que funcionamos. E também acho que as pessoas têm que procurar tomar as boas decisões.

Disse recentemente que havia uma grande ilusão de que a chave do crescimento económico sustentável reside só na Educação, que há um grande muito mito em torno da Educação... 

Acho que temos a prova em Portugal. Temos a geração mais educada de sempre e onde vai trabalhar? Muitos estão a sair, acho que há uma confusão entre condições necessárias e condições suficientes. O que quis dizer foi que ter uma geração educada é uma condição necessária para poder ter um crescimento sustentável, mas está longe de ser suficiente. E temos um exemplo aqui. Onde é que estão os empregos?

Todas as empresas falam na dificuldade em reter talento. Também acho estranho, porque está na mão delas reter talento, basta pagarem. Também acho que essa é uma afirmação estranha. Porque é os jovens saem? Porque as perspetivas de carreira não são atrativas. Há uma expressão que gosto muito: ‘Posso provar o que eu falo à beira da água, mas não posso forçar a beber’.

Até posso, através de isenções fiscais, manter cá os jovens, mas se não houver projetos empresarias, se não houver um incentivo à criação de empresas, a atração de capital por si só não é suficiente. Sou muito influenciado pela tese do Acemoglu e do Robinson, que é uma tese institucionalista e o tipo de instituições que um país tem é fundamental. Eles distinguem dois tipos de instituições: as instituições extrativas e as instituições inclusivas. Instituições extrativas são aquelas protecionistas, é o capitalismo de compadrio, em que é preciso fazer parte do grupo.

As instituições inclusivas são aquelas que são abertas ao novo talento. Acho que Portugal é um claro exemplo das instituições extrativas. Quando se fala em meritocracia em Portugal, acho que se devia pôr meritocracia hereditária. Portugal, talvez pela sua dimensão e talvez pelo peso do Estado, é um país que é dominado por instituições. 

Diz-se muito que é uma questão cultural, mas esta questão cultural pode-se ir mudando ao longo de gerações...

Vai-se mudando ao longo de gerações. O que quis dizer foi que focar só na educação é importante, mas está longe de ser suficiente. Estou na indústria da educação e uma das coisas extraordinárias é que nós, os contribuintes, financiamos a educação de pessoas que vão trabalhar para a Alemanha ou para Inglaterra. Estamos a financiar outros países. Mas isso é outra questão. E a educação é um saco muito grande. É mais importante o secundário ou não? Podemos ter uma discussão mais detalhada.

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