Desporto

Crónica para dois bons amigos fechada no envelope de um abraço

Eusébio e Fernando Gomes. Ambos em Paris, no Estádio de Colombes, num Benfica-FC Porto, no dia do último golo de Eusébio com a camisola do Benfica.

Crónica para dois bons amigos fechada no envelope de um abraço

Como nunca tive irmãos, fiz dos meus amigos meus irmãos. Eles sabem que estou sempre lá, mesmo não estando, é esse o segredo da amizade. Fernando, ultimamente tínhamos falado mais do que nos dez anos anteriores, mas agora, de repente, não sei se posso ligar-te, mesmo que seja só para ficar do outro lado, em silêncio como um abraço. A vida resolveu caminhar ao contrário das tuas esperanças e depois das rasteiras consecutivas que te pregou ainda te exigiu que tombasses na cama de um hospital. Pois é amigo, nunca podemos confiar no coração.

Já fará, não tarda, oito anos que o Eusébio partiu. Fui confidente de muitas das suas histórias, logo ele que recordava episódios dos seus jogos ao pormenor, viajámos por muitos lugares do Planeta redondo e apenas ligeiramente achatado nos polos. Ele tinha uma paixão grande por Paris. Dizia: “Fui sempre feliz em Paris”. Desde aquela tarde dos três golos ao Santos, no Parque dos Príncipes. A tarde em que o mundo começou a saber de cor o seu nome. Ano de 1961. Depois dessa tarde,  os franceses souberam sempre amar Eusébio de uma forma dedicada, apaixonada, como só os franceses são capazes de amar.

Em 1975, meu querido Fernando, estiveste em Paris com Eusébio. Um jogo particular. Há uma fotografia vossa, que se publica aí ao lado, que o mostra ainda possante, atravessando a defesa do FC_Porto e tu um pouco atrás, tão jovem, que jovem eras!, ainda nem sequer vinte anos cumpridos. É uma daquelas fotos para a história que vale milhares de vezes mais do que todas as palavras que eu possa aqui escrever. 31 de Março de 1975. Um jogo amigável, como era hábito dizer-se. O Benfica ganhou fácil, se bem te lembras: 5-1. Golos de Humberto Coelho (2), Artur Jorge, Toni... e Eusébio, claro! Aos 17 minutos, de livre direto, em jeito, não em força, a bola sobrevoando um atarantado Tibi. Estavas lá e viste: foi o último golo do Eusébio com a camisola do Benfica, sabias? Claro que sabes. Foste testemunha privilegiada de momentos irrepetíveis. Eusébio saiu ao intervalo. Tinha cumprido o seu Destino. Um golo na hora do adeus.

 

Pés de ouro

Eusébio foi o primeiro português a ter dois pés de  ouro, as Botas de Ouro de melhor marcador dos campeonatos europeus. Foi mesmo o primeiro jogador de sempre a ganhar uma Bota de Ouro. Depois vieste tu, meu amigo Fernando. Dois pés em ouro, a alcunha do Bibota. O golo era o teu jogo, a tua vontade, a tua perseverança. Essa tarde de Março em Paris, apesar do resultado gordo, não foi apenas vermelha. Também foi azul. Aos 60 minutos chutaste a bola para dentro da baliza de José Henrique e, tal como o Eusébio, cumpriste o teu Destino. O Destino irreversível do golo.

Amanhã mesmo, haverá mais um jogo entre FC Porto e Benfica. Seria bom que as gentes que irão encher o estádio que continua instalado no velho bairro das Antas, onde viveste tantos minutos inolvidáveis, percebessem que é a hora de vos começarem a pagar a dívida que têm para convosco, Fernando Mendes Soares Gomes e Eusébio da Silva Ferreira. Que soubessem ser, durante noventa minutos, dignas do cavalheirismo com que vocês foram um para o outro, idades diferentes mas respeito idêntico, homens dos pés de ouro e de coração generoso no qual não havia lugar para ódios grotescos e comportamentos próprios de animais selvagens. Vocês que viveram o golo como poucos, que  souberam estar com elegância de cada um dos lados do campo, deveriam ser um exemplo. Amigo Fernando, porque o Eusébio já é só saudade, aqui te entrego o abraço carinhoso que vai no mesmo envelope para ambos.

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