No Meio de Nós

A história repete-se…

É evidente que todos nós estamos a pensar que não se vai repetir o Holocausto e que, tal como os nazis fizeram aos judeus, os russos não irão fazer o mesmo aos ucranianos. A pergunta, no entanto, persiste dentro de nós: E quem é que nos garante que eles não estão a ser deportados para campos de concentração ou a ser obrigados a fazer coisas inumanas?


Os gregos tinham uma conceção circular da vida e da história. Eles acreditavam, por exemplo, na transmigração das almas, isto é, que as almas viviam em determinado sítio e que depois encarnavam num corpo. Alguns acreditavam que esse corpo poderia até nem ser humano, poderia ser uma planta ou um animal. Haveria, então, um movimento circular da alma que saindo do corpo entraria noutro.

A história, para os gregos, era também ela própria circular. Haveria sempre um ponto qualquer da história atual que tocaria num ponto da história de há cem ou duzentos anos atrás. Isto porque a história voltaria sempre ao mesmo ponto. O Eterno Retorno.

A história presente, porém, toca em pontos do passado, mas só pode ser compreendida como espiral, isto é, há pontos da história contemporânea que tocam em acontecimentos da história passada, mas sempre num nível acima dos acontecimentos passados. Assim, a história e os acontecimentos presentes tocam o passado, superando-o ao mesmo tempo.

Conhecer o passado ajuda-nos a compreender o presente e prever o futuro. O que estamos a assistir agora nesta guerra da Ucrânia ajuda-nos a compreender a II Guerra Mundial e a prever o que vai acontecer.

Uma das grandes perguntas que persistem até aos dias de hoje e que permanece um mistério pode, talvez, ser respondida à luz desta guerra da Rússia contra a Ucrânia: «Como é que o mundo viu impávido e sereno a deportação e a morte de milhares de judeus e não agiu prontamente?».

Esta pergunta persegue-me e persegue o mundo e de forma ainda mais evidente o Povo Judeu. Aliás, muitos judeus, ainda hoje, acham que o Papa Pio XII foi fraco na denúncia da perseguição ao povo judeu.

Seriam as pessoas daquele tempo tão malvadas que não fossem capazes de apertar com a Alemanha para parar com essas deportações, perseguições e mortes de milhões de judeus?

Penso que é aqui que a história, na sua linha superior em ascensão, se toca com os acontecimentos do passado: hoje, nós estamos a ver milhões de ucranianos a serem deportados para a Rússia e não há forma de sabermos como se encontram essas pessoas! Não há forma de levarmos lá qualquer conforto!

É evidente que todos nós estamos a pensar que não se vai repetir o Holocausto e que, tal como os nazis fizeram aos judeus, os russos não irão fazer o mesmo aos ucranianos.

A pergunta, no entanto, persiste dentro de nós: E quem é que nos garante que eles não estão a ser deportados para campos de concentração ou a ser obrigados a fazer coisas inumanas?

O mal que recai sobre a população de toda a Ucrânia é de uma desumanidade incrível. O mal que recai sobre as repúblicas e regiões ucranianas, supostamente anexadas, deve ter trazido uma dor tal que não se apagará dos corações e da história para todo o sempre. Conforme não se apagará a calma com que estamos a ver todas estas barbaridades sem haver forma de obrigar a Rússia a dar contas da vida de milhões de pessoas deportadas.

A história repete-se e nós não estamos a fazer mais do que fizeram os nossos antepassados diante da barbaridade levada a cabo pelos nazis.

Eu, sinceramente, não me importava de me oferecer para entrar na Rússia e ver com os meus próprios olhos que aquelas crianças deportadas e as suas famílias estão a ser bem tratadas. Eu até nem nada a perder… não tenho mulher, nem filhos… Se a Rússia deixasse entraria hoje…

A verdade, no entanto, é que se não há liberdade dentro da própria Rússia como poderia eu ou uma equipa da ONU ou de qualquer país entrar no seu território para nos certificarmos que eles estão bem, como dizem os russos, e não estão a ser obrigados a fazer nada que não queiram.

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